População Com Mascaras Em Belém. Marcelo Seabra Ag.Pará

“Dor Crônica”

por João Victor da Fonseca Oliveira

Foram 61 dias sem sair de casa. Privilégio? Sem dúvidas. Minha mãe faz as compras quando volta do trabalho.

Tem sempre alguém pagando a conta das empresas, e não são (só) os patrões. Fui me vacinar. Sou professor, faço parte do grupo prioritário.

Aproveitei para ir ao banco resolver um problema com meu aplicativo do celular. Apesar da conta, até hoje, sem o salário do mês.

Coloquei a máscara. O cenário era de total estranheza. Caminhei até o banco olhando o cenário de pavor. Pessoas com o nariz fora da máscara, coçando os olhos, tirando a máscara para conversar. Gente sem máscara.

No caminho, guardas municipais correram para pegar um assaltante que acabava de roubar uma loja. Algemado, ele ria, diante do constrangimento, filmado por outras pessoas. Algumas delas, tiraram a máscara para gravar com seus celulares.

Escutei 3 pessoas, em momentos diferentes, falarem da falta de comida e da aflição em que estavam. Olhei para baixo: a máscara me protegia, também, da vergonha e da frustração que senti.

Cheguei ao banco com medo. Mantive distância. Entrei. Meu celular não tinha armazenamento. O aplicativo não funcionava. A internet parou.

Com raiva, fui para o posto me vacinar. Ao chegar, fui avisado que o estoque estava acabando. Parecia bom acreditar que “ainda bem, cheguei primeiro”. Não era.

Subi o morro, voltei para casa. Tirei os sapatos. A roupa. Fui tomar banho. Lavei o cabelo e as lágrimas. Sequei o medo e o desânimo. Continuei.

Coloquei-me no lugar dos meus alunos que não têm internet. Da falência de um governo medíocre que não garante a vida, nem a saúde do seu povo. Da diferença que faz a Educação e a consciência social – e do seu poder curativo.

Diante de uma política de morte, que não só manda matar, como deixa morrer, não há prioridade para os pobres, nem para os trabalhadores. Essa escolha é política e não tem vacina para a hipocrisia.

Depois de pouco mais de duas horas, voltar para casa foi, antes de tudo, uma necessidade. Isso que faz doer a tanta gente,

não passa com a quarentena.

Não bastam as máscaras.

As algemas não disfarçam o caos.

 

#FiqueEmCasa


Imagem de destaque: Marcelo Seabra/Ag.Pará

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