CAPES começa a desconstruir a Pós Graduação

Por Luciano Mendes de Faria Filho

Uma a uma vão se confirmando as sombrias previsões publicadas aqui no Blog há alguns dias.  Depois dos descalabros tornados públicos nas ultimas semanas – da afronta com a recepção ao Frota à articulação do ataque ao que há de democrático e avançado na Base Nacional Comum Curricular – agora,  a bola da vez são os programas de pós-graduação.

Numa inusitada, mas não imprevisível manobra, a Direção da CAPES determinou  dar um duro golpe nos grandes programas de pós graduação, muito comuns na área de educação, ao reduzir drasticamente o financiamento às suas atividades de custeio – o conjunto das atividades que fazem o programa funcionar, desde a compra de papel até a realização de bancas. Ela  assim procede ao determinar que o teto máximo de financiamento dos programas é equivalente a 70 doutorandos e 45 mestrandos.

Só para se ter uma ideia, veja o impacto disso no PPGE da UFMG, um dos 03 programas de nota 7  – maior atribuída a um Programa de Pós Graduação pela avaliação da CAPES – na área de Educação: nesse programa  a metodologia adotada pela CAPES para  distribuição de recursos, que estabelece um número máximo de 70 doutorandos e 45 mestrandos por Programa, desconsidera 181 (72%) dos atuais 251 doutorandos e 92 (67%)  dos atuais 137 mestrandos  matriculados. Ou seja, inviabiliza o funcionamento de um dos melhores e mais tradicionais programas da área.

Diante disso, é fundamental que as instituições científicas e acadêmicas, os reitores das universidades brasileiras e os próprios coordenadores de pós graduação se articulem e venham a público, pelo menos para denunciar mais este ataque  a uma das instituições que, com todos os seus problemas, tem dado fundamental contribuição ao desenvolvimento  científico e tecnológico brasileiro: a pós graduação. Destrui-la é, de fato, fazer nossas estruturas de pesquisas  retrocederem décadas e ficarem numa posição da qual dificilmente as recuperaremos. Levamos 50 anos para construir o que temos hoje, e isso pode ser destruído nos próximos meses se não demonstrarmos vontade e capacidade de reação.

This Post Has 21 Comments
  1. Infelizmente, o desmonte da pós graduação iniciou-se bem antes do governo golpista: A legítima presidenta cortou 75% das verbas para custeio da pós e abriu espaço para parcerias público privadas, via Marco da ciência e da tecnologia, tornando a universidade num balcão de negócio em que se manterá o programa que puder oferecer bons produtos… infelizmente, a reação está muito tardia.

  2. Bom dia!

    Concordo com você Maelison. Não há ruptura entre os governos FHC, Lula, Dilma, Temer mas uma linha de continuidade devastadora para a classe trabalhadora. Nesse sem duvida a truculencia será maior mas o caminho já estava traçado.

  3. Não entendi bem a parte do teto do financiamento , estavam falando de bolsas ou do custeio mesmo da verba necessária para as bancas?

  4. Maelison e Pollyanna,

    Os governos democráticos fortaleceram a educação, incluindo a pós graduação. O ano de 2015 foi atípico, Dilma aceitou a chantagem conservadora para tentar acalmar o impeachment, e dançou.
    O que está vindo agora é muito pior, é o desmonte feito por quem não tem compromisso com o país, com o desenvolvimento.
    Este papo de que PT é igual os partidos de direita não explica o ódio que a imprensa monopolista cultiva contra o PT.
    Diante da monumental luta de classes promovida pela direita, este papinho de que são a mesma coisa mostra-se ridículo.

    1. Concordo, José. Eu iria escrever algo parecido com o que escrevestes. Chega a ser realmente esdrúxulo que as pessoas comparem os governos e com isso comparem os projetos políticos da direita e da esquerda brasileira sem levar em conta as alianças que infelizmente foram preciso ser feitas (é possível, claro, discordar das alianças ou afirmar que algumas decisões foram erradas, mas daí dizer que são tudo a mesma coisa é um pouco demais). Essas afirmações são no mínimo irresponsabilidade política, no mínimo, para não dizer ignorância ou, de certo modo, um pacto com uma leitura rasa sobre o que está em curso no Brasil.

  5. Brasil deu salto quantitativo e qualitativo no mundo da Pós nos governos de Lula e Dilma. Quem diz ao contrário não conhece esse mundo acadêmico. O segundo mandato de Dilma cortou 30% em custeio e não em estrutura ou bolsas. Pior que Temer Golpista só Pedro Álvares Cabral. Será difícil lidar com esse desmonte e aniquilar. Reação agora é colocar-se na rua e denúncias à mídia estrangeira.

  6. A discussão sobre quem é o culpado, ou quando começou o desmonte, é irrelevante! A questão é o momento atual. O desmonte está feito e precisamos reagir urgentemente!

    1. Irrelevante ?!!!
      Não… e não se trata de culpados se trata de avaliações, de entendimentos.
      O dialogo, a conversa é a nossa expressão de potencia.
      Vamos sim nos organizarmos.
      Vamos a luta nenhum direito a menos !

  7. Seria interessante que o texto trouxesse também os números que demonstrem quais eram as condições anteriores a esses novos tetos divulgados recentemente. Algum link ou texto oficial com informações como a de datas de implantação também seria fundamental.

  8. No PPGE da UFPB tivemos esse mês um corte de 18 bolsas do mestrado. Inicialmente o MEC suspendeu essas bolsas sob o pretexto de que estavam ociosas (visto que a seleção de 2016.1 ainda não havia sido concluída enquanto os mestrando antigos haviam defendido as dissertações 1 mês antes) e lançaram nota afirmando que iam avaliar os motivos dessa “ociosidade”. Todavia, de acordo com a própria regulamentação, considera-se bolsa ociosa a que passa 2 ou mais meses sem aluno vinculado (o que não ocorreu no caso). Mesmo com as devidas argumentações todas as 18 bolsas do mestrado foram retiradas do programa e os 35 alunos de 2016.1 ficaram sem bolsa alguma.

  9. João Sicsú, economista do IPEA:
    Michel Temer e Henrique Meirelles objetivam estabelecer um limite máximo para os gastos primários do governo federal.
    Querem escrever na Constituição a seguinte regra: o governo federal poderá aumentar os seus gastos primários no máximo de acordo com a inflação do ano anterior.
    Cabe uma simulação do que teria ocorrido nos últimos dez anos nas áreas da saúde e da educação se fosse aplicada a regra Temer-Meirelles.
    Em 2006, o governo Lula investiu em saúde o montante de R$ 40,6 bi e, em 2015, o governo Dilma alcançou o valor de R$ 102,1 bi. Se fosse adotada a regra antissocial Temer-Meirelles, o orçamento da saúde teria sido, em 2015, R$ 65,2 bi, ou seja, um orçamento 36% menor. Na educação, o orçamento de 2015 foi de R$ 103,8. Na regra anti-social, teria sido de apenas R$ 31,5 bi – um orçamento 70% menor.
    Além disso, ano a ano, o gasto nessas áreas teria sido muito menor se tivesse valido a regra antissocial da dupla Temer-Meirelles. Em termos nominais, a perda na área da saúde de 2006 a 2015 teria sido de R$ 178,8 bi e, na educação, R$ 321,3 bi.
    O que eles querem, de verdade, é o fim do Estado brasileiro e dos direitos sociais.

  10. Seria interessante se o texto trouxesse, também,a fonte dessas informações. De onde os números 70 doutorandos e 45 mestrandos sairam? Por quem essas informações foram repassadas?As universidades receberam um comunicado oficial?

  11. Minhas considerações:
    1. É muito importante separar essas perdas muito graves para ciência do país com politicagem. Os cortes tem que parar independente de qual governo tomou a iniciativa, pois toda vez o debate muda de foco para apontar o dedo contra o partido do outro ao invés de se concentrar no que realmente importa. O partido da situação é o que toma as decisões. Ponto. Se foi outro que começou não importa mais, pois no momento eles não mandam mais.
    2. Acho importante a anpg e/ou outros exigirem uma transparência na avaliação da capes. Pois eles poderão diminuir a nota dos programas de pós com o intuito de ter uma desculpa institucionalizada para diminuir o repasse de verbas e bolsas.

  12. A CAPES é nossa derrota. Mas nós tb somos nossa derrota. Aceitamos o perversos sistema de classificação dos cursos, das revistas qualis. E agora? Pra que a classificação? Para criar professores competidos, slice science e um sistema perverso de currículos mirabolantes. Agora todos nós estamos pagando por isto.

      1. Caro Mauro, a sua pergunta é muito pertinente. Penso que essa transformação da CAPES está na origem da pós graduação no país e sua (da pós) transformação em modo, por excelência, de organizar a pesquisa nas universidades. No dia 18 serão disponibilizados aqui no Blog uma série de textos sobre a avaliação da Pós e alguns deles tocam nesse tema. Att. Luciano

  13. Sou mestrando do PPGECM UFPE -CAA e estou concluindo meu curso sem bolsa, assim como grande parte de meus colegas. Muito difícil hoje fazer um curso de qualidade sem as condições reais e objetivas. Mas a luta continua, acreditar principalmente que o meu empenho e dedicação em ser um professor bem formado poderá contribuir para formação de sujeitos mais humanos me MOTIVA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *