Bolsonaristas, não podemos fugir do problema!

Por Luciano Mendes

Como aumentou o número de apoiadores do #EleNão aparecendo na minha página do Facebook, comentando meus posts e, eventualmente, fazendo propaganda do #coiso, resolvi passar pelas páginas deles para ver o que diziam e postavam, com a ideia de entender como pensam.

Depois das viagens pelas páginas, fiquei pensando em algumas cosias. A primeira delas é que, como professor e pesquisador, sempre pensei que quando uma pessoa diz que 2 + 2 é igual a 3 ou ela não aprendeu matemática básica ou está utilizando uma lógica que não é a nossa, essa que diz que 2 + 2=4. Sim, é possível e existem outras lógicas. Um dia minha filha pequena disse que as nuvens estavam cobertas de céu! Além de uma imagem bonita, ela utilizou um lógica não usual, mas lógica.

O problema é que meu passeio pelas páginas dos(as) bolsonaristas me indicou que, sem sair da nossa lógica, eles e elas utilizam outros critérios de verdade, alguns dos quais muito além da realidade, que os deixam em posição de conforto, e na qual podem, perfeitamente, apoiar um candidato que, de fato, contraria o que essas pessoas dizem que o apoiam dizem defender.

Muitos(as) estão perfeitamente convictas de que a Rede Globo é de esquerda e que apoia o PT! Acreditam que o Bolsonoro, apesar de ser deputado federal há quase 30 anos, representa o novo; apesar de ter aprovado menos de meia dúzia de projetos, é um legítimo representante de alguma coisa; apesar de acobertar um funcionário fantasma, não é corrupto, e por aí vai.

Não vi, nas páginas que percorri, nada sobre negros e índios serem pessoas inferiores. Mas no que se refere à questões de gênero, aí, na concepção dos(as) bolsonaristas a família é algo absolutamente fundamental. Mas, de que família se trata? Não se trata da família real – pois imagino que essas pessoas conhecem e, eventualmente, se relacionam com famílias que não se enquadram em seu figurinos – homem, mulher e filhos. Sem o (as) no final. Trata-se de uma família idealizada, que todo mundo sabe não existir pra todo mundo, mas que funciona como uma espécie de recurso lógico e moral para se tranquilizarem com suas consciências religiosas mas, imagino, não só. Aqui, neste quesito, é disto que se trata: uma leitura fundamentalista da sociedade que despreza os fatos reais – homens que não assumem a responsabilidade pelos(as) filhos(as), por exemplo – e se ancora na ideia de que uma família constituída por mulheres e filhos(as) não é uma boa família. Não importa muito o que acontece no mundo real, em que os homens abandonam: família boa é aquela que o Bolsonaro, e antes dele, as igrejas defendem e nas quais os homens estão presentes (não se trata, acho, da questão de ideologia, de substituir o real pelas aparências, pela falsa consciência, mas de um modo de estruturação da subjetividade em que a realidade real pouco importa e cujo objetivo é alcançar um conforto pra continuar levando a vida como ela é). Sabem, por exemplo, das práticas e das propostas de violência do candidato, mas não as acham violentas. O que quero dizer é que os(as) bolsonaristas que “visitei” SABEM onde estão se metendo e onde pretendem meter a todos(as) nós.

O antipetismo viceja, e esta é a área, dimensão talvez, em que grassa a falta de compromisso com a verdade dos “fatos”. Neste quesito, os fatos pouco importam, se consideramos as postagem: o que vale é o argumento.

E,  finalmente,  acho que há uma outra dimensão fundamental: há uma extrema “solidariedade” para com os “seus”, e quase nenhuma empatia com os “outros”. Não há uma linha sobre as consequências das políticas que defende o Bolsonaro sobre as pessoas reais, de carne e osso, que eventualmente conheçam e que sejam classificadas como não dignas – de viverem, de apoio do Estado para criarem seus filhos e filhas sem a presença do s pais (homens), de remédio do SUS para tratamento da AIDS etc. E, evidente, não há nenhuma reflexão de que isto tudo pode, eventualmente, se voltar contra elas mesmas: o impacto disso tudo será sobre os OUTROS.

Como podem ver, o meu passeio foi desolador. É difícil, humanamente, ler e, intelectualmente,  entender como tanta gente que se diz do bem, e que se acha do bem, defende tantas atrocidades.  E saí de lá com a clara convicção que o Bolsonaro, em si, é menor dos nossos problemas., societariamente falando. É evidente que ele, como candidato, deve ser combatido e, espero, ser derrotado. E é fundamental que isso ocorra. Mas, ainda assim, nossa tarefa mal terá iniciado.

This Post Has 3 Comments
  1. Diante da reflexão também quero deixar talvez um desabafo. Minha TL do Facebook também consta inúmeras postagens de amigos, parentes e pessoas não muito conhecidas que deixam comentários a favor do Coiso que me deixam cada dia mais horrorizada. Percebo também que a aversão é tão grande ao PT que não interessa muito o que o Coiso fez e não fez. Percebem nele a real possibilidade combativa e que vão se livrar de uma vez por todas com a esquerda. Eles querem porque acreditam nas suas ideias fascistas. Preocupada como professora de História e fico me perguntando o que fiz com minhas aulas nos mais de 30 anos.

    1. Não se culpe, Ilka. Pode ter certeza de que nós, professores/as, ajudamos, de alguma maneira, nossos alunos a fazerem escolhas na vida: seja para o bem, seja para o mal. Certamente, vc fez sua parte e ajudou a consolidar pensamentos interessantes vida afora! Abraços!

  2. Eita, Lulu!

    Como você bem sabe, meu querido e amado professor, estou num momento em que o tempo é quase inimigo. Prestes a defender minha tese, não há tempo para fazer muita coisa da vida. Contudo, é certo que mesmo não conseguindo visitar as páginas destes “irmãos”, o que me chega também, via whatsApp, é desolador. Estou chamando de “irmãos” sem a carga religiosa que a palavra esconde, mas se tivesse essa carga, como Jesus, na cruz, mesmo disse, eu reitero parece que “eles não sabem o que fazem”. Ou se sabem, como vc constata, sabem de maneira torpe e quase irracional. Vamos todos pagar o preço? Juro que mesmo com o tempo escasso, meu querido amigo, tenho tentado fazer o discurso de que os que votam com o coiso, estão buscando “sarna pra coçar”… sem qualquer tipo de fúria radical de achar que o outro não tem o direito de fazer o que quiser com o próprio voto, mas sinceramente, é o fim da picada desconhecer a maldade que ronda o candidato e querer botar todo mundo (brasileiros) na boca do inferno! Estamos enfiados num monte de coisa ruim que os golpistas encomendaram! Estamos caminhando a largos passos para um Brasil que não imaginávamos pudesse existir. É um dó! Obrigado, Lu, pela reflexão! Isto, efetivamente, nos irmana! Forte abraço, meu grande mestre!

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