Papel E Lapis

Aprovada… reprovada: entre a ordem e desordem do cotidiano escolar

Júlia Diniz Rena*

Quando vem a vontade de escrever, não sei fazer outra coisa, que não obedecer.

Surge uma inquietação, uma dúvida, uma vontade de elaboração e logo minhas mãos começam a pedir pelo lápis e o papel.

Venho refletindo muito sobre o sistema educacional do qual estamos imersos, que segue alinhado com os valores produtivistas e consumistas da forma capitalista, apenas preocupado em tornar os jovens aptos ao trabalho alienante, indo assim, na contramão da construção de subjetividades ativas, críticas e pensantes. Sempre senti uma grande resistência com esse sistema educacional tão linear e falocêntrico que vivemos, e de uns tempos pra cá, tenho encarado que sempre houve a pior e a melhor aluna dentro de mim. A que já tomou bomba por causa de matemática no ensino médio, e a que ganhou destaque acadêmico no primeiro período da faculdade do curso de psicologia.

É muito polêmico de fato essa noção de ser “reprovado” ou “aprovado” socialmente não é mesmo? Reprovado pra quem? Aprovado pra quem? Sempre dancei muito entre esses encaixes e desencaixes, entre um esforço de se sentir adequada, e entre a liberdade meio anárquica que encontrei na inadequação. Ora ou outra, ainda sambo entre esses “opostos” e tento entender o impacto de tais acontecimentos na minha própria subjetividade. E o que sinto, é que o tempo todo somos instigados a viver uma vida moldada pelo capital e por esse sistema que escraviza. Somos incentivados a nos espremer para caber nas projeções e idealizações alheias, que tantas vezes internalizamos e reproduzimos. Somos rechaçados quando não entramos na norma, e somos aplaudidos quando andamos na “linha”. Por isso, muitos vivem toda uma vida se mutilando, se distanciando cada vez mais de sí mesmos, achando que serão mais bem aceitos e amados se couberem naquela caixinha. Sem no entanto verem que cavam a própria cova. Outros viram as costas pro mundo, numa rebeldia sincera mas também nociva, abafando sua potência pelo medo e pela raiva de ter que se encaixar.

E tudo isso vejo dentro de mim. Ora me vejo de um jeito, ora de outro. Mas tenho descoberto também que há um espaço dentro da gente, um entre, uma brecha, um respiro que pulsa e floresce para além de um encaixe ou desencaixe. Há um espaço que simplesmente é. Que simplesmente não requer esforço para habitar-se. Um espaço povoado mas ao mesmo tempo vazio, que desperta som a partir de um profundo silêncio. E que desperta criação de onde há puro abismo. É como a flor de lótus que nasce da lama. Nesse espaço, é mais possível ser livre dos imperativos como “tem que ser”, dos ideais que aprisionam, das expectativas frenéticas de aceitação e das loucas demandas de amor. Porque nesse espaço você se cabe dual e unificada, sem precisar se mutilar e sem precisar se esconder. Em alguns momentos encontro e reencontro esse lugar dentro de mim. Por exemplo quando canto e toco meu tambor, quando aprecio o sol pela manhã, quando tomo meu vinho ou meu café preto, quando rezo antes de dormir, quando experimento uma gargalhada com uma amiga, ou quando deixo o choro escorrer livremente.

Em momentos como esses posso sentir o meu espaço e correr sobre ele, posso sentir o meu aconchego, a minha força, e a necessidade de me encaixar ou não se torna algo ínfimo, diante da multiplicidade e da potência da vida.

 

Betim, 28 de abril de 2020

 

*Aluna do 10º período de psicologia na PUC Minas Betim.


Imagem de destaque: Kelly Sikkema / Unsplash

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