A violência policial aos homo sacer da contemporaneidade

Por Pedro Castilho[i]

LivroÉ sempre chocante a imagem de qualquer ser humano sendo agredido por outro. Na contemporaneidade estas imagens ocupam as mídias com uma frequência cada vez maior produzindo um grande efeito na população.

Na última quinta feira, dia 07 de julho, a namorada de Philando Castela transmite, ao vivo, um incidente, mostrando seu namorado coberto de sangue com um oficial apontando a arma para ele. Ele foi baleado quando ele pegou sua carteira de motorista, disse ela. Este episódio seguia uma longa linha de incidentes de perfil semelhante envolvendo negros americanos que morrerem nas mãos da polícia.

Este fato acendeu um debate nacional sobre o uso da força letal. Com a notícia, cerca de 200 mil pessoas protestaram em todo o país. O tiro reverberou muito além do estado do Minessota que ele ocorreu. Em Dallas, o tiroteio eclodiu em uma manifestação, transformando um comício local e pacífico, no caos com dois atiradores disparando contra policiais, matando cinco deles, segundo a polícia.

Aqui no Brasil temos um debate extenso sobre o tema. A obra “Bala Perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para a sua superação”, incita o debate público sobre esta questão e traz propostas para reverter o quadro. A obra reúne um resultado do Seminário Internacional Cidades Rebeldes, realização da Boitempo, que aconteceu entre os dias 9 e 12 de junho 2015.

Em um comunicado no Facebook, o presidente Barack Obama disse que todos os americanos “devem estar profundamente preocupados” com os disparos fatais. Ele disse que era claro que estes não foram incidentes isolados, mas “sintomáticos desafios dentro do nosso sistema de justiça.”

O promunciamento do presidente americano traz à tona a questão racial dentro do debate da própria organização social. As consequências disto é o reflexo de uma sociedade extremamente desigual que trata a uma população a partir de um Estado de Excessão. Não apenas na cultura americana, mas, todas as organizações democráticas que apresentam sujeitos matáveis, verdadeiros homo sacer.

Homo sacer é a representação de uma figura que está obscura á lei romana. Ele é excluído de todos os direitos civis, enquanto a sua vida é considerada “matável”, podendo ser morto por qualquer um.  Se a lei não é igual para todos, vivemos em uma falsa democracia que faz uso da justiça para legiferar ações que julgam legais, mas que estão camufladas de uma falsa democracia. A repercussão contra a ação policial foi quase que imediata; milhares de pessoas sairam pelas ruas dos EUA para reiveindicar uma verdade recalcada pela organizacao social denunciada pelo próprio presidente Obama.

[i] Psicanalista e professor da Faculdade de Educação UFMG.

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  1. Em sintonia com o Blog do Pensar a educação, estou preparando um relato de minha experiência universitária nas instalações da escola que serve ao DEGASE, e ao projeto “Papo de Responsa”, da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Recomendo que possamos fazer uma revisão dos julgamentos sumários a que submetemos as forças da segurança pública no Brasil, sempre tida como mais uma “vilã” ou “força contra”. O problema é bem mais complexo. Lembrar que o cano quente para o qual as denúncias contra a violência policial se fixam é uma miopia social, que não consegue enxergar naquela imagem a história por trás daquela história. E não estou me referindo à história da vítima ou do policial, senão a todos os mecanismos indefinidamente (des)ajustados que nossa sociedade produz para eclodirem ali, no sangue, na morte, no ódio e na dor, toda a barbárie que insiste-se em negar na cultura de desigualdade/exploração do Brasil.

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