Imagem Ilha De Itaoca – Alexandra Silva

A ilha onde eu cresci

por Alexandra Lima da Silva

Isolada mas não muito distante.

Esquecida.

Abandonada.

Habitada por pessoas igualmente esquecidas e abandonadas pelo Estado.

Eu tinha 10 anos completos quando cheguei a Ilha de Itaoca, um dos lugares mais pobres do município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro.

O ano era 1991.

Lembro de cruzar uma pequena ponte, que em outros tempos fazia o rodízio da ilha com o continente. Após termos sido despejados, procuramos abrigo numa casinha simples que construímos naquele lugar.

Nossa casa diferente não porque fossemos excêntricos, mas porque não tínhamos dinheiro para comprar o material e fazer uma casa de alvenaria.

Moramos naquela casa por pouco tempo, mas nas minhas lembranças pareceu uma eternidade.

Eu me encantei à primeira vista com a ilha: havia muito verde.

Subindo o morro, dava para ver toda a beleza do manguezal e das garças lá do alto. Havia também os caranguejos e guaiamuns enormes, além de muitas espécies de aves, répteis, e micos, muitos micos.

Logo no meu primeiro dia, minha irmã mais velha me levou para uma praia quase deserta, a Praia da Beira.

O mar estava revolto e havia ondas neste dia.

Eu mergulhei. Pulei muitas ondas e tomei muito caldo.

O curioso é que eu nunca mais vi ondas naquele mar escuro e silencioso. Só vi ondas no primeiro dia.

Eu via beleza naquele lugar abandonado que nos acolheu do despejo.

Mas a medida que eu crescia, a ilha se tornava hostil.

Eu estava mudando. A ilha também…

Havia os insuportáveis mosquitos que me atormentavam. Quando eu me coçava, era pior. Formavam-se pequenas feridas.

Cavamos um poço, mas a água nunca brotou ali.

Era um terreno infértil.

Cavamos um segundo poço. Esse deu água cristalina. Abundante. Esse poço nos salvou da sede por um tempo.

Eu gostava de olhar para o fundo do poço infértil. Um dia vi uma cobra imensa e gorda lá. Ela se alimentava dos restos que jogávamos no poço. Eu tinha medo de cair ali e ser devorada pela cobra. Mas eu também não conseguia parar de olhar, de longe e do alto. Cobras são animais fascinantes, à distância. Mas o que eu mais gostava era de contemplar o nascer do sol na Ilha. Intenso. O nascer do sol trazia o barulho das garças. O cheiro da maresia também era forte e intenso pela manhã.

 

Faltava água.

Faltava luz.

Não havia asfalto.

Faltava transporte público, que passava poucas vezes ao dia.

 

Para se chegar à ilha, era preciso passar por um lixão, que a antecedia. Assim como eu, ele também só crescia com o tempo.

Boca de lixo foi filmado lá.

O documentarista Eduardo Coutinho retratou com muita sensibilidade aquela triste paisagem que eu precisava cruzar cotidianamente para chegar a ilha. Esse era o meu caminho de casa. Eu cresci vendo essa paisagem, que avançava de forma violenta para o manguezal. Eu andava de bicicleta por essa estrada de chão. Havia muita poeira nos dias quentes, e barro vermelho nos dias de chuva.

Mas eu apenas passava pela estrada.

Nunca tive coragem de entrar no lixão…aquele era um ambiente hostil demais para a minha existência.

Eu fui a última da família a chegar na ilha e fui a primeira a sair, quando entrei para uma universidade pública. Eu realizei meu sonho. João Pedro, estudante, negro, não teve a mesma chance que eu. Compartilho com esse menino o lugar onde passamos a infância. Eu sobrevivi para contar essa história. Ele não. Teve a vida interrompida quando brincava com os amigos dentre de casa. Esperança da família, o menino não teve tempo nem oportunidade de realizar seus sonhos. Foi assassinado dentro de casa durante mais uma das muitas operações policiais no lugar.

O direito ao sonho não pode ser privilégio.

Para todas as famílias que tiveram seus sonhos destruídos pela violência, pela racismo e pela desigualdade social, eu dedico esse modesto texto.

João Pedro, presente!


Imagem de destaque: Imagem da Ilha de Itaoca. Acervo pessoal da autora.

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