Luta e Resistência

Nilma Lino Gomes realizou conferência sobre a atuação do movimento negro na resistência e na defesa do direito à educação. A professora destacou a importância de uma postura anti-racista em todos os espaços de formação

Nilma Lino Gomes – Foto: Thiago Rosado

Na última quinta-feira, dia 29 de agosto, a Faculdade de Educação da UFMG recebeu mais uma conferência do XIII Seminário Anual do projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil, que em 2019 aborda o tema “Educação no Brasil: tradições democráticas”. A quinta conferência do ano contou com a palestra da professora e pesquisadora Nilma Lino Gomes, que apresentou o tema “Movimento Negro, resistência democrática e educação”.

Pedagoga, mestra em Educação, doutora em Antropologia Social e pós-doutora em Sociologia, Nilma Lino Gomes, já esteve à frente do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, no governo da presidenta Dilma Rousseff e também foi reitora Pró-Tempore da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, a UNILAB. Sua experiência com políticas públicas em educação e ações afirmativas, assim como as pesquisas que realiza, fazem da pesquisadora referência na discussão racial no país, especialmente na educação anti-racista.

Sua fala, realizada logo após o lançamento do seu novo livro “O Movimento Negro Emancipador: saberes construídos nas lutas por emancipação Vozes” (e outros títulos do projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil e seus parceiros), trouxe as percepções de vários pesquisadores e autores que, ao longo do tempo, refletiram sobre a participação e a mobilização da comunidade negra em torno da busca por direitos, especialmente pelo direito à educação. Além de retomar as pesquisas e trabalhos de referências como Simone de Barros, Marcos Vinicius Fonseca e Lucimar Rosa Dias, a professora também fez uma breve revisão histórica a respeito dos marcos para a educação de pessoas negras no Brasil. Ela comentou sobre as raízes excludentes e de abandono presentes nos processos de escolarização de negros, desde o império. Por muito tempo, ainda na colônia e no império, a educação teve a missão de ‘civilizar’ os negros, escravizados ou libertos. Isso era, segundo ela, parte de um projeto de Brasil que mantinha estes indivíduos à margem.

Contudo, ainda nestes períodos anteriores à república, já é possível observar como e onde o movimento negro se fez presente para defender os direitos da população. Para ela, a resistência negra acontecia nas senzalas, revoltas, quilombos, abortos, assassinatos de senhores de escravos, alianças abolicionistas, irmandades, no sincretismo e etc, e esta resistência é importante para se pensar a educação aplicada aos negros, e também anti-racista. “O movimento negro educa. A resistência educa”, afirmou a professora.

Nilma destacou que indivíduos, organizações e coletivos negros foram fundamentais para a implementação de políticas que fossem efetivas para a libertação da comunidade. Ela buscou evidenciar os sujeitos políticos que em vários momentos fizeram com que as pautas anti-racistas fossem incorporadas em textos legais, como a LDB de 1961, que em seu artigo 1º condena “qualquer tratamento desigual por motivo de convicção filosófica, política ou religiosa, bem como a quaisquer preconceitos de classe ou de raça”. Para ela, falta aos pesquisadores da educação, fazerem “uma releitura dessa história política e social que nós contamos pela via das lutas sociais e da resistência negra. Uma coisa é nós trabalharmos com os documentos legais e percebermos aquilo que esses documentos vão pincelando em torno de uma presença do combate ao racismo. A outra coisa é buscar outras fontes históricas, e perguntar: como estas questões chegaram aos textos legais?”.

A professora ainda ponderou sobre a necessidade de ir além da postura de mero combate ao racismo e assumir um posicionamento anti-racista. Ao contrário do combate ao racismo, que corre o risco de se estabelecer apenas em discursos, o anti-racismo resulta em práticas. Ela falou em exercer a ‘justa ira’ nos tempos atuais. Citando Paulo Freire, nos lembra como ela, a ‘justa ira’, conduz à ação, reflexão e trabalho conjunto. “Nós precisamos nos reenergizar juntos, sendo reeducados pelas lutas sociais, entendendo que as experiência sociais produzem conhecimento. A Educação é um espaço primordial para essa compreensão e formação. Não desistamos!”

 

 

Yolanda Assunção