As Caras do Brasil na Imprensa Brasileira

Por Luciano Mendes de Faria Filho

A cara do Brasil

O jornal Estado de Minas é daqueles jornais que é a cara da chamada grande imprensa brasileira: católico, liberal-conservador, aecista  de corpo e alma e profundamente dependente das publicidades oficiais para sobreviver,  pois, segundo consta, está falido. No  jornal há espaço para uma grande campanha  contra a corrupção e, logo, pelo impedimento da Presidenta (inocente) e pela prisão de Lula, mas não há lugar para a corrupção do Aécio, do Serra, do Temer e cia.  E não nos esqueçamos de que, durante as eleições presidenciais de 2014, o jornal despediu aquele que era o seu  mais conhecido e respeitado jornalista  porque ele ousou dizer que era Dilma, e não  Aécio, a melhor opção para o Brasil!

Pois bem, foi nesse jornal que hoje os leitores puderam encontrar esse texto e essa imagem de capa estampados acima.  A força da chamada e a exaltação da judoca Rafaela da Silva, medalha de ouro nas Olimpíadas do Rio, parece contrastar com aquilo que, cotidianamente, o jornal defende ser a verdadeira cara do Brasil. O que estaria acontecendo? Teria mudado o Estado de Minas ou a chamada seria apenas para, em dia de festa,  vender mais jornais?

Penso  que nem uma coisa nem outra. O que o jornal apresenta, hoje, é que sempre pensou e fez a elite branca brasileira: negros e negras, pobres e “carentes”, quando não “desprivilegiados” são a cara do Brasil, desde que seja nos esportes e nas manifestações “culturais” como, em boa parte, se viu na própria abertura dos jogos.  Na verdade, para a imprensa brasileira, representada pelo Estado de Minas, o Brasil nunca deixou de ter várias caras, as caras dos vários brasis.

Sim, somos diversos, temos vários brasis e, evidentemente, as caras das nossas diversas desigualdades. Assim, é possível falar que a  “mulher, negra, pobre e guerreira” é a cara do Brasil, desde que a gente não confunda de que Brasil se fala. Não se fala do Brasil da política parlamentar, em que não há praticamente mulheres, e muito menos negra. Não se fala, evidentemente, do Ministério do Presidente interino e golpista do Temer, que o jornal ajudou a colocar nessa posição, pois lá elas não couberam e não cabem. Não se fala, muito menos, do mundo empresarial. Não se trata das “mulheres, negras, pobres e guerreiras” na universidade, pois os órgãos e as instituições que dão suporte a isso estão sendo destruídas pelo mesmo governo sem que a imprensa dê muita bola para isso.

O problema é que  a diversidade é saudada e reforçada como um dos critérios mais fundamentais para justificar e fundar as nossas desigualdades. Ou seja, ainda hoje ou, talvez, hoje mais do que nunca, a imprensa brasileira lida com muita naturalidade com os vários brasis. E cada um deles, cada uma de suas caras, aparece cotidianamente nos jornais, basta ver as “colunas sociais”, os cadernos de esporte, de emprego, de polícia e de política, estes últimos cada vez mais confundidos. Estão todos lá, cada um no seu quadrado!

Se as Olimpíadas são grandes negócios, não deixam também de ser uma grande festa. E, como tal, têm o poder de subverter, pelo menos momentaneamente, as regras que organizam o mundo social.  Se na abertura da festa, mantido o protocolo, a mulher brasileira foi representada pela “extraordinariamente comum” Gisele Bündchen, no decorrer dos jogos, os meios de comunicação têm que engolir outros heróis e heroínas, como a Rafaela Silva,  boa parte deles e delas mantida  por meio de bolsas públicas, pois não tem recursos para se manter e não encontra patrocinadores.

O problema, para a imprensa brasileira, nunca foi ter que conviver com essas subversões que tomam conta do país em dias de festas, ela até as promovem quando lhes interessa. O grande problema para nossa imprensa e para nossas elites é conviver com as subversões políticas, mesmo que pequenas (expulsar os manifestantes contrários a Temer dos estádios e dos próprios jornais nada mais é, no presente caso, a confirmação exemplar disso que aqui se fala), e  das posições na vida cotidiana. Por isso, como canta Lucas Afonso, aqui se “… morre de medo de encontrar favela na lista de aprovados no vestibular, imagina a tortura pra quem apoiou ditadura encontrar filha de empregada de beca na formatura….”.