Uma escola que mereça “Éricas e Larissas”

Aleluia Heringer Lisboa

No final de 2015 participei de algumas entrevistas para a seleção de professores. Na ocasião reencontrei uma ex-aluna. Havia se formado em Letras e concluído o Mestrado pela UFMG. Fala três idiomas, além do português, e é bem articulada e madura em suas opiniões. Ainda sem muita experiência na docência, contou-nos que trabalha há um ano em uma escola pública, situada em um conhecido aglomerado de Belo Horizonte. Não escondeu suas dificuldades próprias de uma professora iniciante, agravadas pelas condições precárias da escola. Não nos vendeu a imagem de que domina todas as coisas, ao contrário, admitiu com certa frustração não ter domínio de turma: “meus alunos não escutam o meu bom-dia!” Apesar de todos os obstáculos, seus olhos brilhavam e sua feição ficava leve quando dizia das pequenas conquistas, tais como ajudá-los a reformular uma frase, cheia de agressividade e “palavrões”, por outra. “Eles podem comunicar de outras formas”, disse ela. Terminamos a entrevista depois de muitas histórias.

Nesse dia, chegando em casa, encontrei o meu genro que estava passando alguns dias de férias em BH. Ele é holandês e morou dois anos no Brasil, período em que foi voluntário social, coincidentemente, dentro desse mesmo aglomerado onde a Érica trabalha. Ele foi rever os amigos que deixou por lá. Nossa conversa foi sobre seu encontro com uma menina chamada Larissa. Ela tem 13 anos, é inteligente e esperta; seu pai morreu e a mãe é viciada em álcool e crack. Segundo ele, a adolescente demonstra maturidade acima do esperado para sua idade, pois, a despeito de uma infância roubada, cuida dos três irmãos menores (de 4, 6 e 11 anos); apesar de todos os obstáculos, seus olhos ainda brilham quando fala sobre seu sonho de ser advogada!

Ficamos por um bom tempo conversando sobre esse contexto e se haveria uma forma de ajudar a Larissa realizar o seu sonho. Ao darmos um distanciamento desse caso específico, veremos que são dezenas, centenas, milhares de “Larissas” pelo Brasil inteiro. Senti-me pequena diante de tamanho problema.

Onde essas duas histórias se cruzam? A Érica foi escolhida para uma das vagas. Quando ligaram para dar-lhe a notícia, ela hesitou. Aceitar significaria pedir exoneração da escola pública, pois não teria como compatibilizar as duas escolas. Teria que fazer uma opção: ou a escola particular onde ela sempre estudou, com boas condições de trabalho, ou permanecer na escola pública com todas as dificuldades que apresentou e onde, provavelmente, a Larissa estuda. Difícil decisão! Para minha satisfação, ela optou por continuar na escola pública. Não estranhe essa minha reação. Deveria estar chateada? Penso que ninguém perdeu nada, pois falou mais alto o sentimento de que as “Larissas” do aglomerado vão poder continuar com uma excelente professora, merecedora de estar em qualquer boa escola.

Bom seria se as muitas “Éricas”, igualmente bem preparadas e dispostas, não desistissem das inúmeras “Larissas, Marias e Pedros” brasileiros. Gostaria também que o Estado e o Município não fossem omissos em relação a sua obrigação legal de amparar, cuidar, acolher e oferecer a essas crianças e jovens uma escola bonita, limpa, equipada e organizada. É também responsabilidade do poder público acolher e manter em seus quadros, profissionais do gabarito da “Érica”. Em geral, esses profissionais são vistos como “sacerdotes”, “missionários” e que, supostamente sozinhos, irão fazer a diferença, já que carregam consigo uma “vocação”. Ocorre, que isso é uma inverdade. É muito difícil educar quando o profissional docente se sente sozinho. Ele também precisa ser cuidado (e muito bem cuidado). Quantas “Larissas” perdem quando uma única “Érica” vai embora? Por que tantos docentes, que no início de sua carreira docente tinham tanta disposição e brilho no olhar, acabam “abandonando” a Escola Pública? Pensar o processo educativo formal na totalidade de sua dimensão requer considerar que nenhuma batalha pedagógica pode ser vencida sem que de fato a sociedade e suas lideranças assumam efetivamente o compromisso de fazer valer a educação escolar na sua essência fundamental, essência essa contida na sua função social.

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