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Toda educação é política

Dalvit Greiner

 

A sala de aula é uma novidade diária. Falávamos sobre os filósofos iluministas, mais precisamente sobre os Direitos do Homem. Fiquei surpreso com a enxurrada de perguntas, não de todos, mas de alguns estudantes. No meio da aula lembrei-me do Arnaldo Brandão. Provavelmente a meninada dessa geração não o conhece, pois sua última obra de sucesso foi com Cazuza, em 1988. Ou seja, lá se foram vinte anos. Mas, não foi de O tempo não para, o tal sucesso que todo mundo canta sem saber que também é dele, que me lembrei. Foi de algo posterior, mais desconhecido ainda.

A música Plic-plic cantada pelo grupo Hanoi-hanoi, lançada em 1995, é um apelo a uma juventude perdida nos anos 1990. Naquela época de transição que foi a Nova República de José Sarney e o governo de Fernando Henrique. Nesse entretempo, a democracia sertaneja de Fernando Collor derrubada pelos estudantes Caras Pintadas. Era difícil a gente se achar mesmo. Estávamos todos perdidinhos buscando uma ideologia para viver. Mas, Arnaldo aconselhava: Se aplique plic plic.

O desejo de ser um bom rapaz faz com que um malandro contumaz fique exatamente onde está. Sem ação, pois qualquer que seja a sua ação falta-lhe a malandragem necessária para se dar bem. Ao final da musica, Brandão crava: “Se tivesses educação / tua vida tava a mil / tua fome tinha nome / tua guerra era civil”. Assim nos dá a chave do sucesso. A educação. Dessa maneira, no seu último verso, Arnaldo Brandão mostra que nenhuma atitude, se não for acompanhada de um processo educativo, é revestida de uma frivolidade, uma banalidade sem tamanho.

Voltemos à nossa aula: perguntas, dúvidas e as greves batendo na porta. Questionamentos aos professores e professoras. Direitos humanos é só para bandido e lá mesmo, em casa, se aprende a amar o Messias (Bolsonaro). Insisto que o processo educativo nos move em direção ao outro. Que é preciso aprender a ouvir todos. Uma pessoa educada é solidária e aberta à diversidade que é qualquer sociedade. Nossa igualdade é, apenas e necessariamente, perante a lei, pois naturalmente nascemos e nos fazemos diferentes. Somos diferentes e devemos ser respeitados por isso.

Explico-lhes que uma atitude educada é solidária e política. Que todo ato educativo é um ato político e vice-versa. Por um lado, se  transgredimos a lei de forma individual e egoísta estamos cometendo um crime. Nossa ação não é política nem educada, pois não é solidária. Se, por outro lado, transgredimos a lei de forma coletiva, estamos fazemos a lei avançar. Assim nossa atitude é educada, é política, apesar de parecer violenta.

Apelei para o exemplo vivenciado – e muitas vezes praticado – por eles. Na periferia, individualmente ou em pequenos grupos, temos presenciado adolescentes pulando roletas dos coletivos, ameaçando e constrangendo o motorista exigindo-lhe que lhes abram a porta dianteira. Isso é correto? Concluíram que o correto seria, coletivamente, participarem dos movimentos de passe livre e assim conquistar para todos os estudantes o direito de irem para a escola com mais conforto. Isso sim, uma atitude educada.

Pensar a educação é uma atitude política. Pensar não é apenas uma atividade reflexiva, pois é o início de toda ação. Quando comemoramos duzentos números deste jornal não podemos deixar de nos orgulhar ao ter a certeza de que, ao promovermos uma ação educativa estamos promovendo uma ação política. É nesse sentido, no cotidiano da nossa ação, que educamos aos outros e nos educamos a nós mesmos. No exercício da sala de aula, no exercício do Pensar a Educação, pois toda educação é politica. E vice-versa.

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