Tempo de Crisálida: acolhimento ético, amizade política, ação formativa – exclusivo

Marcus Vinicius Corrêa Carvalho 

Uma alegria partilhar este espaço com colegas e leitores, uma satisfação esta oportunidade de intervir neste diálogo amplo e crítico sobre educação. Venho a ele certo de que se posicionar nele implica a assunção da responsabilidade coletiva pelo mundo.  Educar e se educar, debatendo educação, implica aquela decisão de assumir a responsabilidade do amor pelo mundo compartilhado. Responsabilidade que exige e promove ação formativa permanente inspirada na habilidade de encontrar as pessoas onde elas estão, no ambiente delas, e de acolhê-las. Exigência de promoção de ações que estimulem a articulação das pessoas entre si em um tecido social capaz de expressar este interesse (inter-est) pelo vínculo coletivo. Um interesse capaz de transformar a teia social ao superar dificuldades pessoais com as estruturas internas, com as relações interpessoais, com a ambiência social e com o ambiente natural.

Questionar a construção histórica de crenças, de valores, de costumes, de sociabilidades e de conhecimentos pode significar a capacidade de surgir no mundo de forma emancipada, manifestando lucidez e liberdade, quando não se está jogando um jogo estritamente pessoal. Uma visão ética e crítica favorece que dificuldades não sejam apreendidas como expressões solidificadas de entes individuais, sendo combatidas por mecanismos ou instrumentos externos, isolados e violentos uma a uma. O espaço sutil, mas operativo, entre a expressão de aspirações coletivas e a constituição individual institui-se pela disposição para conceder ao outro o tempo necessário para aprender e para encontrar o tempo para sair de sua crisálida. O tempo para viver seu sofrimento, deixando nascer o gesto preciso que alimentará e revelará a borboleta, permitindo que ela voe e se integre no jardim.

A tradição ocidental latina guarda esta sabedoria, como se vê no radical que dá origem à palavra educação. Duco na primeira conjugação, educare, significa nutrir e alimentar, além de instruir; na terceira conjugação, educere, o significado, além de instruir, é pôr para fora.  

Assim, os gestos de nutrir, alimentar e pôr em contato estão na base do significado do termo educação. Estar em contato, alimentar e nutrir definem, igualmente, o fundamento da existência. Existir significa sentir e pensar, sentido-se sentir e sentindo-se pensar, Aristóteles ensinou, indicando que também para o amigo se deverá “com-sentir” que ele existe e isso acontece no ter em comum tanto ações como pensamentos. Os homens convivem e a amizade é uma comunidade que manifesta o “com-sentimento” da existência do amigo no sentimento da existência própria, figurando também um estatuto político. O ser mesmo é “com-dividido”, ele não é idêntico a si, ele é heterogeneidade. Ele pode ser definido como um “tornar-se outro do mesmo” em uma “com-divisão” existencial, sendo a amizade o sentimento compartilhado do fato de ser porque aquilo que se reparte é o fato da existência, a própria vida. Essa é a partilha, esse o “com-sentir” originário que constitui a política.

Destaca-se a pluralidade humana, na grandeza e na mesquinhez de seus assuntos, quando do convite à reflexão sobre a política como participação ativa no debate público. Põe-se em dimensão a tensão entre participação política e representação política ao debater a dignidade do espaço político e sua reapropriação pelos cidadãos em atos e palavras.

As ações formativas mobilizam a pluralidade humana em sua potência de compartilhamento e de responsabilidade com o mundo que se inscreve na disposição para pôr-se em contato em conflitos, os quais podem ser processados por disputas e rupturas ou pelo cultivo do interesse pelo encontro. Elas põem em choque modos de significar e de constituir o humano em contextos justapostos, interdependentes e imbricados, cuja observação, a partir do estranhamento do mundo, faz ver e lembrar que está ao alcance do pensamento e da ação das pessoas sua transformação, deformação ou conformação.

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