Jovem Pesquisa

Sobre o PIBIC do Ensino Médio

Algo de memória e do compromisso da Universidade com a escola pública

Alexandre Fernandez Vaz

Há poucas semanas em uma reunião de pesquisa na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) onde trabalho, foi citada a quota de bolsas do Programa de Iniciação à Pesquisa do Ensino Médio (PIBIC-EM) que a instituição detém. Não deixou de chamar a atenção o fato de que o número de bolsas efetivamente ocupadas era algo como sessenta por cento do total (60%), mostrando uma disponibilidade que contrasta com a disputa por ocupação das bolsas PIBIC universitárias. Estas costumam ser em número menor do que a demanda qualificada da instituição.

Na reunião voltou-me certo incômodo em relação ao programa que destina bolsas a jovens do ensino médio e dos últimos dois anos do ensino fundamental. Minha sensação é de que depois de mais de uma década interagindo com ele na UFSC, não alcançamos um modelo satisfatório de trabalho. Refiro-me à Universidade de forma geral, mas também ao Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea, que dirijo. Afora alguns momentos de interregno, tivemos bolsistas PIBIC-EM entre 2003 e 2016. Tivemos êxito em várias situações, desenvolvemos até mesmo, mal ou bem, um modo de trabalhar com os jovens que vinham para a UFSC, mas ainda me parece que não chegamos a um modus operandi mais ou menos consolidado. Tenho a impressão de que, finda (ao menos temporariamente) a experiência com os escolares, há quase um ano, não foi muito o que ficou como legado.

Em setembro de 2003 chegou-me a informação de que a Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica de Santa Catarina (FASPESC, então FUNCITEC) distribuiria um conjunto de bolsas de iniciação científica para alunos e alunas do Ensino Médio de escolas públicas do estado. Interessei-me de imediato pelo programa que destinaria uma bolsa no valor de 80 reais mensais a cada bolsista que deveria estar cursando o ensino médio em instituição pública. As bolsas foram concedidas e, depois de muitas dificuldades administrativas, começaram a ser pagas para seis alunos do Colégio de Aplicação da UFSC sob minha responsabilidade. Eram cinco meninas e um menino que cursavam o primeiro ano e que haviam sido indicados por uma professora, naquela primavera em 2003. Com pequenas variações, chegaram ao Núcleo com capital cultural nada desprezível, oriundos de famílias em que mães e pais frequentaram a universidade, alguns deles tendo chegado ao doutorado. Não foi sempre esse o caso nos anos seguintes, tampouco, no entanto, foi algo isolado.

O Núcleo desde alguns anos contava com alunos de iniciação científica PIBIC/CNPq/UFSC e com mestrandos, e nos parecia que poderia ser uma experiência interessante o trabalho com os jovens, embora não tivéssemos ideia de como isso aconteceria. O desafio nos agradava. Desde então, até 2016, tivemos alunos de ensino médio, ou dos últimos do ensino fundamental, como bolsistas. A coisa foi variada, complexa, às vezes frustrante, mas também com muita gratificação.

Chamou-me muito a atenção, logo de início, que nossas noções de tempo, a minha e a dos estudantes, fossem muito diferentes. Mas não era só isso. O universo da pesquisa, ao menos no sentido do que lhe é rotineiro, era um território distante para os que frequentam a escola, envolvidos com o estudo disciplinar e as provas, conflitos com professores, algazarras entre si, tutela de adultos, obrigações familiares (um deles uma vez não pôde vir à reunião de pesquisa porque teve que ficar em casa cuidando do irmão menor) etc.

Desde o início a participação no trabalho junto aos bolsistas PIBIC-EM de mestrandos e logo de doutorandos, sempre voluntária, foi muito importante, tornando-se fundamental a partir de um momento em que a responsabilidade mais direta da orientação ficou com eles. Alguns bolsistas PIBIC também auxiliaram na empreitada. Considerávamos conveniente que alunos de pós passassem pela experiência de orientar um projeto de iniciação científica, mesmo que, e principalmente, se ele não tivesse a ver diretamente com seu próprio trabalho. Explorar possíveis temáticas, pensar junto com os bolsistas um problema de pesquisa, indicar bibliografia e orientar as leituras, acompanhar a feitura da investigação propriamente dita, tudo isso se aprende. Fazendo, errando, corrigindo. E com supervisão, evidentemente.

A opção foi, portanto, pelo investimento, paciencioso e organizado, combinando atividades individuais e em grupo, apenas entre eles com outras em que se mesclavam a bolsistas de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e pesquisadores experientes. A opção recaiu, então, em trabalhar com os bolsistas perfazendo com eles várias etapas de formação, mesmo com o custo de tempo aumentado. Começávamos por explicitar e desenvolver com eles os passos de um projeto de pesquisa: o que pode ser conhecimento científico, como se estrutura um projeto em suas partes e etapas, o que são relatórios de pesquisa e artigos científicos, como estes podem ser lidos e analisados etc. Procurávamos combinar a preocupação com a consecução de cada trabalho de investigação individual com a de proporcionar um processo de formação extenso, de maneira que cada um pudesse dominar, dentro dos limites próprios do momento de formação, o processo de pesquisa. Nunca tivemos pressa na conclusão do projeto, uma vez que consideramos o processo, ao menos, tão importante quanto o resultado.

Não poder se dar conta de que uma instituição pública é de todos e não dos “eleitos” parece ser algo promovido como dispositivo de dominação dos mais perversos. Ele está muito presente em alunos da escola pública. Deixar que a vida universitária se mostrasse para aqueles bolsistas foi um ganho. Vários deles avançaram na produção de si como agentes de um pensamento mais rigoroso, complexo, objetivo. De nossa parte, aprendemos muito com cada um. Mas, nossos esforços de aproximação mais completa com a escola pública como um todo não tiveram grande êxito. Esta continua, via de regra, tão longe da ciência quanto tem estado desde que tecnocracia e indiferença nela encontraram lugar privilegiado. Desafio que segue para nós e para a Universidade como um todo, de maneira imprescindível. O número alto de bolsas disponíveis, mas não concedidas pela UFSC, é apenas um sintoma disso.

Sul da Ilha de Santa Catarina, maio de 2018.

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