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Rolf Tiedmann – Arquivista da Teoria Crítica da Sociedade

Alexandre Fernandez Vaz

A primeira vez em que soube da existência de Rolf Tiedmann foi ao ler Bárbara Freitag, uma das principais divulgadoras da Teoria Crítica da Sociedade no Brasil, além de grande pesquisadora de Sociologia e Filosofia da Educação. Hoje menos lembrada do que deveria, ela é autora de importantes livros, como A Teoria Crítica: ontem e hoje e Sociedade e consciência: um estudo piagetiano na favela e na escola. No texto em questão, nenhum dos dois que acabo de citar, ela dizia de alguém que realizara algo que muitos consideravam impossível: organizar o que havia sido escrito de Passagens, obra à qual Walter Benjamin se dedicou de 1927 até sua prematura morte, em 1940. Recentemente comentei a obra aqui no Pensar.

Tiedmann ocupou-se das muitas centenas de páginas, encontrando para elas uma ordem que fosse tão fiel quanto possível às propostas de seu autor. O material tinha origem em dois conjuntos de documentos: os que vieram da Biblioteca Nacional de Paris, que George Bataille escondera depois que Benjamin os deixou com ele antes de tomar o caminho para os Estados Unidos da América, onde nunca chegaria; os do acervo do Instituto de Investigação Social, novamente sediado em Frankfurt depois de anos de exílio, sob a guarda de Theodor W. Adorno. A eles se juntariam, anos depois, o que sobrevivera ao saque da Gestapo ao último apartamento em que Benjamin viveu em Paris. Arquivados pelos nazistas e levados para a União Soviética ao final da Guerra, foram posteriormente depositados na Academia das Artes, em Berlim Oriental. Hoje, na capital unificada, todo a acervo benjaminiano está sob a guarda daquela instituição, formando o Arquivo Walter Benjamin.

Logo depois de ler o texto de Freitag, tive nas mãos o livro As razões do iluminismo, uma coleção de ensaios de Sérgio Paulo Rouanet. Entre eles, dois esmiuçavam Passagens, tendo sido publicados por primeira vez na Revista Tempo Brasileiro. Fiquei impressionado com as análises de Rouanet, tanto quanto pela rapidez com que se dedicou a tão volumoso e complexo trabalho. A editora Suhrkamp, lia-se numa nota de rodapé, lhe franqueara o acesso aos originais da Obra antes de sua publicação, mas, mesmo assim, em cerca de um ano após as mais de mil e quinhentas páginas aparecerem nas livrarias alemãs, os brasileiros já dispunham de uma apresentação e de uma análise de tudo aquilo. Não é pouco e isso se soma, para falar de pioneirismos, ao livro de José Guilherme Merquior, Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin: ensaio crítico sobre a Escola neo-hegeliana de Frankfurt, provavelmente o primeiro escrito que analisa a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt como movimento intelectual, em 1969. O clássico de Martin Jay, The Dialectical Imagination. A history of the Frankfurt School and the Institute of Social Research 1923-1950 é de 1973 e The Origin of Negative Dialectics. Theodor W. Adorno, Walter Benjamin and the Frankfurt Institute, de Susan Buck-Morss, apareceu em 1977, mesmo ano de Origin and Significance of the Frankfurt School: a Marxist Perspective, de Phil Slater. Republicado no ano passado, o livro de Merquior, diplomata de carreira assim como Rouanet, dá uma pequena mostra do vigor da obra do melhor intelectual orientado pelo Liberalismo, que tivemos nas últimas décadas. Foi-se o tempo em que valia a pena debater com os colegas liberais.

O cuidadoso trabalho de Tiedmann tornou possível que pudéssemos ter acesso ao monumental Passagens, mas também à maior parte do que Benjamin escreveu, publicado ou não durante sua vida, nos Gesammelte Schriften (Escritos Reunidos). Eles foram organizados por ele e seus colaboradores entre 1972 e 1989, com muitas dificuldades e impelidos a decisões editoriais às vezes arriscadas, uma vez que não se sabia exatamente o que ainda havia por ser encontrado. Os volumes foram saindo e a eles se somaram outros, na medida em que surgia um novo manuscrito, uma nova versão de texto já antes conhecido. Desde 2008, uma nova edição das Obras, sob o título de Werke und Nachlaß. Kritische Gesamtausgabe, vem sendo publicada. Os vinte e um volumes previstos estão sendo cuidadosamente organizados por competentes pesquisadores coordenados por Christoph Gödde und Henri Lonitz.

Lembrei-me de tudo isso há poucos dias, quando soube que Tiedmann, aos oitenta e cinco anos, havia morrido. Não deixa de ser curioso que isso tenha acontecido no mesmo dia, 29 de julho, mas onze anos depois, do falecimento de Michelangelo Antonioni, um dos cineastas que Adorno mais admirava. Não eram muitos. Sobre La Notte, filme do mestre italiano, o grande dialético escreveu o seguinte: “A anticinematografia deste filme concede-lhe a força de expressar, como que com olhos ocos, o tempo esvaziado de conteúdo”. A respeito de Tiedmann, com quem tantos anos trabalhou, desde a orientação de sua tese de doutorado, afirmou que “Todo aquele que se ocupe academicamente de Benjamin precisa considerar uma bibliografia no interior da qual o trabalho teórico de Tiedmann se coloca como alicerce”. Feliz encontro, que a morte não apaga, entre a genialidade do artista e a inteligência do crítico.

Tiedmann defendeu sua tese, a primeira sobre Benjamin, na Universidade de Frankfurt em 1965. O trabalho, intitulado Studien zur Philosophie Walter Benjamins (Estudos sobre a Filosofia de Walter Benjamin), publicado na série de Contribuições Frankfurtianas à Sociologia (n. 16) do Instituto de Pesquisa Social, dá início a uma trajetória que o transformaria em figura fundamental para o que conhecemos hoje como Teoria Crítica da Sociedade. A ele se agrega um sem-número de estudos sobre os frankfurtianos, com prosa límpida e sem medo, precisa, oferecendo o lugar e a interpretação segura de tantos conceitos. Foi também dele a liderança do processo de organização dos Gesammelte Schriften de Adorno, em 20 volumes, bem como dos primeiros volumes de seus Nachgelassene Schriften (Escritos Legados). Com Gretel Adorno, deu forma final a dois livros inacabados de Teddy, Teoria Estética e Beethoven. Além da ordenação em volumes conforme critérios que lhe pareciam os melhores, as inúmeras notas com que brinda cada uma das coleções oferecem orientações fundamentais de leitura.

Sem o grande arquivista e comentador, que conheceu como poucos as obras de Benjamin e Adorno, o que seria de nós, interessados nesse pensamento crítico cujos impulso e alma seguem mais atuais do que nunca?


Ilha de Santa Catarina, agosto de 2018.

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