Refletindo sobre educação no espaço público – exclusivo

Juca Gil

Tive o enorme prazer de participar do Seminário “Educação no Espaço Público: a Comunicação Pública da Pesquisa em Educação no Brasil”, entre os dias 27 e 28 de maio de 2015, na Universidade Federal de Minas Gerais. Este artigo pretende apresentar algumas das questões que abordei em minha intervenção junto à mesa“Educação no Espaço Público: entre a ciência e a opinião”.

Inicialmente tentei recompor minha trajetória em tratar a educação em espaços públicos, a qual vem ocorrendo como professor-pesquisador em políticas educacionais. Dentre as principais temáticas que venho abordando encontram-se o financiamento da educação e a legislação do ensino. Sou pedagogo, logo, trato de temas que tradicionalmente estão relacionados com outras áreas de conhecimento, em especial da economia e do direito. Neste sentido, reconheço que apesar de meu percurso acadêmico, incluindo mestrado e doutorado, proporcionarem algum conteúdo e experiência, tenho consciência de que para minha intervenção nos espaços públicos tive muito mais respaldo formativo na militância, tanto partidária quanto nos movimentos estudantil e sindical. Sou um militante convertido em acadêmico, o que tem me facilitado pensar os modos de interagir em público.

Das demandas que recebo, em especial da mídia, compreendo haver três grandes grupos de questões. A primeira é por respaldar posições do senso comum. Determinado veículo de comunicação quer transmitir sua opinião sobre um assunto e busca legitimar sua posição na fala de um doutor. A segunda é para compor binarismos maniqueístas, em especial sobre assuntos polêmicos, opondo minha opinião com a de outro colega – e no geral não aceitam muitas ponderações ou posições intermediárias. A terceira é para emitir pareceres acerca de novidades de políticas educacionais, logo, qualquer bobagem lançada pelo governo de plantão precisa de uma opinião “técnica”.

Mas essas demandas não são as únicas. Sim, atendemos a mídia em entrevistas para jornais, rádios (de massa e locais / universitários), TVs e revistas de divulgação educacional. Porém, para mim há outras ações que não só me preparam melhor para agir com a mídia, como conformam outros âmbitos de atuação pública. Palestras e composição de mesas não ocorrem apenas em eventos acadêmicos, mas também junto às administrações públicas e aos movimentos sociais, aos sindicatos. E isso é riquíssimo seja para ter contato direto com professores e estudantes, seja para aprender a modular formas diferentes de intervenção, de vocabulário, de óticas e de recortes distintos. 

Outras duas demandas me marcaram profundamente: uma oficina de financiamento da educação para jornalistas que realizei junto à ONG Ação Educativa,em 2008, e as colunas que escrevi para a Revista Gestão Escolar, da Fundação Victor Civita / Editora Abril, entre 2009 e 2013. Nestas oportunidades eu consegui refinar o trabalho junto aos profissionais de comunicação, mas também afinar o tom para falar / escrever melhor para o público não universitário. E agora criei um espaço para exercitar tudo isso não mais por demandas externas, mas a partir dos meus interesses: o blog Notas Vermelhas, o qual tem tido muito mais impactos do que eu sonhava inicialmente. 

Mas por responder muitas demandas também fui localizando algumas dificuldades que colegas da academia reportam para lidar com a imprensa, muitas vezes preferindo não atendê-la. Segue uma lista esquemática das principais questões apontadas para evitar os jornalistas: por convicção política (a mídia é capitalista, logo não se fala com ela); pela abordagem (a prioridade da mídia sobre a opinião em detrimento da pesquisa); por se sentirem desrespeitados pelo jornalismo (edições e cortes, nem sempre coerentes com as informações prestadas); pelo formato (vocabulário e concisão muito diferentes do mundo universitário); por terem outras prioridades (artigos, pós-graduação, pesquisa, eventos, gestão, ensino); por vergonha (tratar com o grande público – em especial TV e ao vivo).

Eu mesmo compartilhei muitas das opiniões expressas acima, mas mudei de posição e hoje busco atender a imprensa sempre que possível, afinal eles também permitem o acesso de nossas pesquisas e opiniões ao público. No entanto agora cobro um “pedágio” dos profissionais de comunicação. Não dou respostas simples, concordando ou discordando com isso ou com aquilo. Exerço meu papel pedagógico e formativo com eles, fazendo questão de montar um panorama sobre o tópico abordado, apontando sua eventual complexidade, e reconhecer divergências e diferentes pontos de vista. Meu interesse é incidir na formação desse profissional, desse cidadão que me procurou. O que vai ser publicado é o que menos importa; sou mais feliz assim e me sinto mais realizado nas intervenções.

E como conclusão das questões que tratei aqui penso que as universidades deveriam atuar de modo mais sistemático e institucional na formação das pessoas para tratar a educação no espaço público. Duas propostas rudimentares: realizar cursos / oficinas para formação de jornalistas em educação, tendo como alvos tanto estudantes quanto profissionais do jornalismo; realizar cursos /oficinas para formação de acadêmicos se relacionarem com o grande público, tanto os professores da Educação Superior quanto os pós-graduandos, os quais também vêm sendo demandados.

Sigo aberto a aprender a me relacionar com as múltiplas configurações do espaço público e aperfeiçoar dispositivos para atuar mais e melhor, popularizando a ciência e a opinião acerca da educação de modo a ampliar a diversidade, superando o senso comum e os falsos consensos.

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