O que é que ele tem?, de Olivia Byington

Alexandre Fernandez Vaz

Há trinta e cinco anos, uma prima de meu pai, a quem chamávamos de tia, me deu de presente um elepê de uma cantora que eu não conhecia. Identidad, deOlivia Byington, havia saído naquele mesmo ano de 1982. O álbum fora gravado em Cuba, a convite de Silvio Rodríguez, depois do destaque alcançado no prestigioso Festival de Varadero, onde a artista chegou levada por Chico Buarque de Holanda. Na época, viajar ao Festival era sinalizar uma posição política de apoio ao socialismo de Cuba, país com o qual o Brasil, em progressivo final de regime ditatorial, não havia reatado relações diplomáticas. O álbum expõe uma linda voz em canções do próprio Silvio, além gente do calibre de Pablo Milanés, Chico, Milton Nascimento, Glauber Rocha, Tom Jobim.

Não acompanhei o trabalho de Olivia ao longo dos anos, mas ficou na minha memória aquele belo disco, que escutei muitas vezes antes de os vinis serem como que quase temporariamente extintos. Qual não foi minha surpresa, portanto, ao deparar-me há cerca de um ano com o nome da cantora estampando a capa de um livro. Duvidei de que se tratasse da mesma pessoa, mas, sim, era ela, como pude constatar pela foto e ao ler a descrição da obra no verso das capas.

O que é que ele tem (Rio de Janeiro: Objetiva, 181 p.) é um livro de memórias sobre um dos filhos de Olivia, João, hoje beirando os quarenta anos, com uma rara síndrome, a de Apert. A narração é boa e há mesmo algum encanto literário no texto honesto e conciso que é sobre o menino, mas também sobre a autora. Não há desperdício de parágrafos e temas. As dificuldades da jovem bem-nascida e bem-relacionada, de precoce sucesso musical, estão lá, ao deparar-se com o filho que não é o bebê lindo dos sonhos principescos. “Passei aqueles primeiros dias com meu novo bebê no colo, em êxtase, realizando um sonho, amamentando e admirando sua perfeição”, escreve ela, relatando a experiência da maternidade com seu segundo filho, Gregorio Duvivier. “Por que ele não é igual a mim?”, perguntaria João, sem obter resposta.

São anos de aprendizado sobre o pequeno e sobre si mesma, esperanças de todo tipo se acumulam, tantas quanto as frustrações. Apego e desapego às mais variadas crenças, dissabores com médicos irresponsáveis, frios, juízes do mundo, definidores dos destinos do corpo que têm nas mãos e sob seus bisturis. Parentes e amigos solidários e próximos, pessoas que se afastam. A autora é gentil consigo, mas sem deixar a de lado a autocrítica: “Em algum momento escondido há um sentimento de responsabilidade e culpa. São sentimentos distintos e confusos para traduzir. Em parte me sinto responsável pelo acidente genético, que afinal se deu dentro de mim. Também me sinto culpada por lamentar sua má-formação e sonhar com aquele filho que não nasceu”.

As características da face do menino, acompanhamos pela leitura do livro Olivia, são resultado, mas também pré-requisito de uma subjetividade, tanto porque se reconhece como distinto dos outros, quanto porque estes também lhe devolvem a estranheza. Acolher a diferença no interior de uma universalidade que preserve o plural permanece um desafio para os brasileiros. Há mesmo quem faça perguntas à mãe como se o filho não estivesse ao seu lado, como se ele não escutasse o que vinha sendo dito, negando-lhe o estatuto de pessoa.

A mesma face se defronta com a escola intolerante, despreparada, preconceituosa. Com a sexualidade e as novas demandas de sociabilidade em redes sociais, território árido de convenções, fantasias, disputas por reconhecimento. Como essa mãe zelosa lida com os impulsos amorosos do filho, às vezes renegado, outras encontrando afeto e acolhimento numa semelhante?

Os afetos maternais não diminuem a condição erótica e a potência de Olivia como cantora, de forma que os amores e a carreira prosseguem, com o menino que cresce e passa de jovem a adulto, filho eterno, na bela expressão de Cristóvão Tezza. Mas os tempos são outros, como deve ser. “Viajo de volta para a idade em que eu tinha mais fibra do que hoje.” Autobiografia precoce, a memória não se desprende da de João. Dá para entender e concordar.

Sul da Ilha de Santa Catarina, novembro de 2017.

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