Precisamos falar de Marielle, precisamos falar da mulher negra no Brasil!

Renata Duarte Simões

 

Passada uma semana da execução de Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro, seguimos estarrecidos com a violência do ocorrido e com a repercussão, por vezes difamatória, que o fato ganhou na internet. Ao mesmo tempo em que o assassinato da vereadora gerou comoção em expressiva parcela da sociedade, tornou-se alvo de inúmeros insultos e comentários depreciativos de sua imagem.

Marielle Franco, que nasceu na favela da Maré, comunidade carente do Rio de Janeiro, vivenciou todo o tipo de dificuldade tipicamente enfrentada por quem nasce em meio no qual a pobreza, a desigualdade social e a discriminação se evidenciam de maneira perversa e excludente. À margem da sociedade e negligenciados pelo poder público, esses sujeitos não veem saída para a superação dos processos opressores a que constantemente são submetidos, não lhes são ofertadas possibilidades de rompimento do círculo vicioso de pobreza e desigualdade social em que estão inseridos.

A negritude de sua pele e o fato de ser mulher em uma sociedade patriarcalista, de origem escravocrata, em que o mito do pós-rascismo silencia o debate sobre discriminação racial, tornaram ainda mais árduo o percurso de vida da jovem pobre e favelada, como ela costumava se referir quando falava de si mesma.

Contudo, Marielle contrariou as estatísticas e, com o auxílio de um curso pré-vestibular comunitário, ofertado na favela da Maré, adentrou a universidade, cursou Sociologia, fez mestrado em Administração Pública e coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e de Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Eleita vereadora pelo partido do PSOL, em campanha pautada no tripé “gênero, raça e cidade”, passou por espaços e ocupou cargo raramente ambicionado pelas classes populares brasileiras.

Em seu mandato, elaborou vários projetos em defesa das minorias, levando cultura e educação aos sujeitos em vulnerabilidade social. Também integrou um projeto de apoio às famílias de policiais assassinados, que denunciava a corrupção, desmandos e terrorismo na corporação. Defendia, em seus discursos, o diálogo amplo entre Estado e população no sentido de superação da violência e discriminação contra a mulher negra.

Compreendendo que indivíduos oriundos da pobreza são menos capazes de fazer valer suas reivindicações, a história de lutas de Marielle se constitui como um dos principais elementos de identificação do povo com a vereadora, povo que se vê representado nas conquistas e realizações dessa forte mulher. As inúmeras homenagens prestadas, no Brasil e no mundo, revelam a importância de Marielle e evidenciam o legado que deixa para os movimentos sociais. Em discurso pronunciado no Parlamento Europeu, a jovem é apresentada como uma “militante ativista, feminista dos direitos humanos”, assassinada em um clima de violência política condenado pela instituição europeia. O jornal americano “The Washington Post”, publicado em 20 de março, refere-se a ela como “uma raridade na política brasileira: uma mulher negra poderosa” que se transformou em um símbolo global de luta contra a opressão racial.

Todos os aspectos aqui mencionados conferiram a Marielle o reconhecimento da população e de pessoas envolvidas e simpáticas às lutas sociais, mas, ao mesmo tempo, geraram desconforto. A imagem da militante vem sendo difamada por mensagens com teor ofensivo e insultuoso nas redes sociais, no sentido de desvalorização de suas ações, pois sua trajetória incomoda aqueles que defendem a manutenção dos privilégios para poucos, aqueles que, desinformados, reproduzem o que ouvem sem realizar uma reflexão crítica e aprofundada sobre a crise de valores e consciência pela qual passa a sociedade brasileira e aqueles que, conduzidos pelo discurso do senso comum, servem como massa de manobra às elites.

Divulgou-se que vereadora defendia bandidos e que foi morta pelos bandidos que defendia e, ainda, questiona-se por onde andam os direitos humanos quando outros cidadãos brasileiros são assassinados, como se a vereadora não fosse digna da comoção dos seus companheiros e da sociedade como um todo, assim como qualquer outro ser humano que tem a vida ceifada brutalmente. Está claro o movimento de tentativa de apagamento/invisibilização, por meio difamatório, de uma memória de lutas dessa mulher.

O assassinato de Marielle representa muito mais que a morte de uma militante política, representa a tentativa de silenciamento das classes desfavorecidas, das minorias, dos favelados, dos negros, das mulheres em meio a uma sociedade que vivencia um retrocesso democrático radical, marcado por um golpe de Estado que destituiu a presidenta da República, em 2016, e por uma intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro, decretada em 2018. Contra esse processo, os movimentos sociais têm resistido e organizam parte de suas lutas. Nesse estado de exceção, Marielle integrou, como relatora, a comissão que estava fiscalizando a referida intervenção militar.

Marielle Franco lutou corajosamente pelo empoderamento feminino da mulher negra e,em nossos corações e nossa história de resistência, estará SEMPRE PRESENTE!!! Seguiremos falando de Marielle…

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