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Pensamento, regressão: crítica e autocrítica educacional em tempos cheios de esquinas

Alexandre Fernandez Vaz

O fim do período eleitoral dissolve a disputa política mais imediata, já que agora todos sabemos quem serão os governantes de estados, como se configurarão Senado e Câmara Federal, quem será o Presidente da República. Isso traz certo alívio – além, claro, da pesada ressaca e do luto por parte de muitos – porque desmobiliza a bruta carga emocional empreendida em acompanhar, intervir, defender-se, refletir sobre o que vinha acontecendo, processo por demais dificultado pela guerra de informações e contrainformações, boa parte delas na forma de imagens em multiplicação.

Boatos, intrigas, mentiras, dados falsos, montagens grotescas, discussões sobre se tal personagem em orgia era mesmo o candidato ou não, enfim, tudo foi disseminado de forma muito rápida, aproveitando a transformação definitiva do aparelho celular em prótese mental, com as correspondentes mensagens que geram falsa gratificação. Não se trata aqui de mero meio de difusão, entretenimento, e informação, que de forma neutra pode ser usado para uma ou outra finalidade. A aparato determina uma forma de pensar e de se emocionar, promovendo, onde quer que o portador esteja, um curto-circuito que parece impelir a (1) não pensar e (2) disseminar, comentar, discutir, mesmo sem conteúdo claro ou forma definida. Não há corpo político que se sustente em tal aceleração regressiva.

Como todos acompanhamos, várias das disputas, em especial à para a cadeira presidencial, foram escassas em fair-play. Dada a beligerância da contenda, as ameaças de prender e banir do país, principalmente no segundo turno, havia e há temores, não infundados, sobre como será a constituição do projeto de governo para os próximos quatro anos. Que o presidente do Supremo Tribunal Federal tenha vindo a público afirmar, no domingo eleitoral, que o próximo presidente tem que respeitar a Carta Constitucional (ainda não havia sido concluída a votação do último domingo), já dá mostras da situação em que vivemos. No que se refere à pretensão de se viver em ambiente de normalidade democrática, não é, certamente, situação das melhores.

É provável, no entanto, que apesar dos arroubos do candidato vencedor, o Poder Executivo se mantenha equilibrado entre o Legislativo e o Judiciário. O Supremo Tribunal Federal, por exemplo, se colocou de forma veemente contra cerceamento da livre expressão política nas Universidades, considerando-as espaços de livre circulação de ideias. Segundo a Ministra Cármen Lúcia, “a única força legitimada a invadir uma universidade é a das ideias livres e plurais”.

Ideias livres e plurais parecem, contudo, que não são do agrado de todos. Concluída a disputa eleitoral que levou o deputado Jair Messias Bolsonaro à condição de presidente eleito, revigoram temas que têm sido objeto de disputa política nos últimos anos. Um deles é o projeto “Escola sem Partido”, movimento que pretende, entre outras reivindicações, que sejam extirpados da educação escolar a propaganda político-partidária e a “ideologia de gênero”, além de ver garantido que orientações religiosas e morais não se contraponham às da família.

É evidente que a escola não deve ser partidarizada, pelo simples fato de que numa República se trata do bem e do interesse de todos, e não de uma fração que pretendesse impor sua perspectiva ao conjunto da sociedade. De qualquer forma, custo a aceitar que alunos e alunas se deixem convencer tão facilmente pela retórica de um professor, supondo que ele de fato faça propaganda partidária ou de sua convicção política. Não é bom que isso aconteça. Algo muito diferente, no entanto, é a preparação para a vida pública, tarefa irrenunciável da escola, o que supõe uma compreensão mais adensada da política. Disso o professor não pode escapar, seria afastar-se de sua responsabilidade. A educação não é propriamente política, ensina Hannah Arendt, uma vez que ela é experiência entre adultos, iguais em direitos e possibilidades. A educação é, no entanto, além de formar para a política, um problema político. Não fosse assim, não estaríamos discutindo o tema.

A doutrinação deve ser combatida, uma vez que a escola é lugar de disseminação e mesmo de produção de conhecimento, não de dogmatismo. É exatamente por isso que o professor deve deixar-se ver em suas posições, ao mesmo tempo em que renuncie, o quanto puder, à sua posição narcísica. Sim, o professor está para ensinar; sim, o professor não sabe tudo, tem desejo, portanto, falta, é falho. Não é ruim que o aluno o saiba, já que está em jogo também a formação de sua autonomia. Pensar e falar com responsabilidade não podem encontrar barreiras na escola.

Se não faz sentido que haja partidarismo na educação, tampouco o proselitismo religioso se justifica. Então, não se trata de oferecer aos alunos educação religiosa e moral que não se contraponha à da família, mas de tratar a religião como expressão cultural, se for o caso, e de investir em uma educação moral e ética que não necessariamente se comprometa com a familiar. A escola não pode ser refém da família, da mesma forma que não há que desrespeitá-la. A família preserva a moralidade privada, a escola prepara para a pública (Tratei da questão em outros textos para este Pensar, como em Algo sobre fé em tempos impolíticos). O Brasil não é um Estado teocrático, tampouco ateu. Respeito à pluralidade e apoio à formação ampla e reflexiva de crianças e jovens parece que não são preocupações do movimento “Escola sem partido”.

Se toda essa questão ainda se faz presente, a essas alturas da história do Brasil, e com tal força, é porque em algum momento – ou em vários deles, o que é mais provável – falhamos. Não temos sido capazes de gerar uma cultura democrática que coloque a autonomia de pensamento e ação como algo de importância superior. Que se tenha que discutir e envidar esforços para desinstalar preconceitos que sustentam a absurda ideia de uma “ideologia de gênero”, é mostra de que à educação crítica, mais que tudo, cabe uma autocrítica. Sugiro reflexão sobre isso e desejo que sejamos capazes de assumir nosso naco de responsabilidade pela produção do tempo presente.

Ilha de Santa Catarina, novembro de 2018.

Imagem de destaque: Tânia Regô/Agência Brasil

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