Patrimônio escolar, memória e identidade

Tatiane Modesti

 

Não é incomum relacionar memória e identidade, visto que a memória é representada como lembranças de um tempo que passou. Essas lembranças podem ser individuais ou coletivas e muito frequentemente expõem um sentimento de pertencimento. Para Pollak, “a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade”, que leva ao reconhecimento de si, do outro e de um grupo social (POLLAK, 1992, p. 204). Delgado (2006, p. 38) lembra que a memória acaba se relacionando com a construção das identidades, pois “é elemento constitutivo do autorreconhecimento como pessoa e/ou como membro de uma comunidade pública, como uma nação, ou privada, como uma família”.

Nessa perspectiva, compreende-se que as memórias de uma escola colaboram na construção da identidade dos estudantes. Assim, busca-se relatar um projeto desenvolvido na EEB Bom Pastor, em Chapecó, Santa Catarina, no ano de 2014, que objetivou promover um estímulo à preservação da memória da escola e do patrimônio histórico-cultural através da reconstrução das memórias escolares. O projeto consistiu, primeiramente, na elaboração de um questionário a ser respondido pelos familiares dos estudantes de 1º ao 5º ano. Esse questionário foi desenvolvido com o intuito de investigar as gerações que passaram pela escola, perceber que lembranças tinham dela e de estabelecer entre a escola e a comunidade uma forma de identificação por meio das memórias. O sótão, as freiras, o prédio antigo, a capela, a biblioteca e os quadros são algumas lembranças relatadas por ex-estudantes (das décadas entre 1950 e 1990) da EEB Bom Pastor que demonstram as representações da escola para eles e a comunidade.

O ato de lembrar acontece a partir do presente. Um objeto, uma fotografia, uma música, um cheiro, tornam vivas as memórias do passado. Delgado (2006, p. 09) aponta que “a memória é uma construção sobre o passado, atualizada e renovada no tempo presente”, sendo influenciada por ele. Mas, mesmo carregando o presente consigo, a memória é importante para compreender as subjetividades. A memória e a identidade dos estudantes da EEB Bom Pastor foram algumas preocupações iniciais que levaram ao projeto, isso em virtude da mudança de local da escola, que ocorreu em 2010. O Bom Pastor foi fundado em 1947, mas ganhou um novo espaço, deixando o prédio histórico. O local que abrigava anteriormente a escola tinha forte representação para os estudantes e para a comunidade.

O prédio inicialmente construído era de madeira, incluindo instalações para o Jardim de Infância e o Grupo Escolar, que contava com o regime de internato feminino. Alguns relatos demonstram que essa era uma das lembranças que se tinha da escola: “eu morava na escola, dormia no andar de cima e estudava no andar de baixo”.

Muitas memórias estavam presentes naquele prédio, como pode ser constatado a partir de algumas respostas dadas pelos familiares dos estudantes: “a escola era no antigo prédio, existiam muitas escadas e corredores estreitos, e uma história que havia o fantasma de uma freira”.

O imaginário também está presente na memória. Paul Ricoeur (2007, p. 26), aponta para as diferenças: “uma, a da imaginação, voltada para o fantástico, a ficção, o irreal, o possível, o utópico; a outra, a da memória, voltada para a realidade anterior, a anterioridade que constitui a marca temporal por excelência da ‘coisa lembrada’, do ‘lembrado’ como tal”. Ainda conforme Ricoeur (2007, p. 26), o ato de lembrar mistura-se ao imaginário, de modo que este se torna imagem da lembrança.

Outro aspecto importante acerca da memória é pensar nas reconstituições que os terceiros fazem dela: “lembro-me de que meu pai dizia” ou “lembro que falavam assim”. Essas memórias apresentam-se mais fragmentadas, compostas por outras interpretações que se misturam com as lembranças, com contextos históricos e imaginários. (SARLO, 2007).

Como o projeto investigou as gerações que estudaram na EEB Bom Pastor, alguns relatos apontados pelos estudantes referem-se às memórias de um terceiro: “minha avó dizia que”, “meu pai contou”. Muitos relatos apontaram para as lembranças das festas escolares, dos professores, do pátio e das árvores. A área externa da antiga escola é lembrada como um espaço importante para o convívio dos estudantes no ambiente escolar.

O relatório do inspetor escolar Teodósio Mauricio Wanderley, em 1949, já ressaltava essa importância “o pátio é todo arborizado, oferecendo aos alunos um bom e agradável recreio”. (SANTA CATARINA, 1949). O inspetor escolar continua seu relato apontando as características do prédio escolar: “é de madeira, pintado a óleo, coberto de telhas e com dois andares. No térreo estão o gabinete do diretor, cinco salas de aula, sala de visitas, refeitório e cozinha; no primeiro andar: dois dormitórios para as internas, capela e clausura”. (SANTA CATARINA, 1949).

Tão importante se mostra a identidade da escola vinculada ao prédio antigo que uma estudante respondeu: “o vô ajudou a construir a gruta do antigo colégio”, e esse avô também foi estudante da escola na década de 1950.

Com o passar do tempo o prédio escolar sofreu modificações em sua estrutura, com a substituição do prédio de madeira por alvenaria e ampliação do espaço escolar. Hoje não é mais o mesmo prédio, nem o mesmo lugar, e as memórias que estavam vinculadas àquele espaço acabaram fadadas ao esquecimento. Por isso, como finalização do projeto foi inaugurado o Memorial da EEB Bom Pastor, um acervo composto por mobiliário da escola antiga, quadros de formandos, materiais didáticos, fotografias, livros raros, entre outros. Dessa forma, este projeto visou incentivar a preservação da memória escolar e do patrimônio histórico-cultural, visto a escola ter se mudado, mas considera-se que as memórias permanecem vivas nas gerações que passaram por ela.

Para Pierre Nora (1981) há uma necessidade do homem de criar arquivos, museus, organizar, selecionar e guardar suas memórias, numa tentativa de evitar o esquecimento. Nessa perspectiva, os documentos e objetos utilizados pela história foram selecionados de acordo com as memórias de alguém, escolhidos para serem guardados de acordo com a visão de uma pessoa ou de um grupo. Para o autor, a memória é carregada pelo homem, está em transformação, modificação, sujeita ao esquecimento, suscetível a manipulações (NORA, 1981, p. 09). Le Goff (2003) também expôs uma intencionalidade da memória na definição de “documentos monumentos”.

Mas isso não inviabiliza o uso de memórias em pesquisas históricas ou demais pesquisas científicas, muito pelo contrário, a subjetividade da memória é o que enriquece a produção histórica, pois através da memória podemos constatar como as pessoas pensavam, sentiam e agiam em relação a determinado fato, período ou lugar na história. Até mesmo podemos constatar que fatos influenciam na atualidade a percepção dessas pessoas sobre o acontecimento do passado.

Nessa perspectiva, a criação de um espaço de memória na EEB Bom Pastor se mostra em consonância com a pesquisa histórica e com novas possibilidades de trabalho em sala de aula, bem como com a preservação do patrimônio histórico-cultural. Ao criar um museu ou um memorial temos a noção de que aqueles objetos foram selecionados e podem ter sido preservados até o presente com uma intencionalidade ou não, mas também sabemos que uma comunidade escolar faz parte deste “lugar de memória”. Pessoas que fizeram parte da história do local se percebem como agentes construtores dessa história e se reconhecem nos objetos preservados.

O Memorial da EEB Bom Pastor é importante também para compreensão de uma cultura escolar: as práticas, os valores, a transmissão de conhecimento, incorporação de comportamentos, os tipos de saberes escolares, as normas e regulamentos que fazem parte daqueles objetos.

Espera-se que esse acervo possa contribuir para a história da educação e que, futuramente, contemple o acervo documental, visto que as instituições produzem uma gama variada de documentos que podem servir de fontes para o trabalho do historiador.

 

Primeiro prédio do Bom Pastor, final da década de 1940 e Memorial da escola.

Referências Bibliográficas

DELGADO, Lucilia de Almeida N. História Oral: memória, tempo, identidades. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumento, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
LE GOFF, Jacques. História e memória. 5ª ed. Campinas: UNICAMP, 2003, p. 471.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo: PUC, 1981.

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