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O Tempero de nossas vidas

(A reflexão abaixo foi escrita antes da tragédia, razão pela qual não há nenhuma menção ao episódio).

Aleluia Heringer

Quem trabalha dentro de uma instituição escolar por décadas tem o privilégio de acompanhar de perto as mudanças cada vez mais aceleradas nos modos de ser de uma criança e um jovem.

Quem são aqueles que andam pelos pátios e corredores? Como eles se comportam? O que valorizam? Como respondem às nossas intervenções?

Sabemos que 100% são da geração 2020, ou seja, nasceram pós 1998, imersos na era das tecnologias digitais. Esse dado traz em si muitas implicações para o ato de educar.

Para eles, o virtual não é algo das nuvens, mas, de fato, é onde acontece grande parte de suas relações sociais e de onde retiram suas inspirações e referências morais. Qual o problema?

Nesse mundo dito virtual, identidade se transforma em “perfil”, o qual, a princípio, não tem qualquer tipo de restrição. Não há distanciamento, um certo respiro entre as pessoas e muito menos intimidade. A nudez, o prato de comida, a morte, a vida, a viagem, seus problemas… tudo é para todo mundo ver, sem nenhuma vergonha, pudor, culpa ou arrependimento. Apaga, deleta, exclui, reconfigura, reseta, minimiza, tudo isso sem rituais ou cerimônias.

Esses dispositivos já não são mais meio digital, mas o modo de operar a própria vida. Isso, sim, pode vir a ser um problema caso não esteja cercado de uma base moral que lhe dê sentido e forma.

Devido a isso, eles e todos nós demonstramos sinais de cansaço diante de tantas performances e da autoescravidão a que nos impomos, de ser e de parecer sempre alegres, bonitos, antenados e vitoriosos. Lidar com a frustração, a espera, o reparo do próprio erro será cada vez mais difícil, afinal não se exercitaram os corpos (e muito menos o espírito) para a luta ou para a dificuldade. Logo vêm a angústia e o sofrimento.

A despeito de tudo isso, a escola ainda mantém suas estruturas calcadas no mundo real, afinal não podemos esquecer que somos e temos um corpo feito de carne e osso. Ainda primamos pelo diálogo no olho a olho; na reflexão sobre nossas ações e suas consequências, ensinamos sobre compaixão, empatia, alteridade. Pensamos em normas a fim de viabilizar a convivência coletiva, ética e respeitosa.

Talvez seja esse o tempero básico, porém vital, que falte em nossas vidas e instituições. Compete a nós, adultos e educadores, sermos os guardiões desses tesouros que conquistamos ao longo do nosso processo civilizatório, diga-se de passagem, aqui e não nas nuvens.


Imagem de Destaque: Pedro Cabral

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