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O quê vocês já ganharam fazendo greve?

Dalvit Greiner

 

Durante o feriado da Paixão e da Páscoa a dificuldade foi em convencer uma amiga de que todo trabalho é penoso. Podemos e devemos fazer nosso trabalho com alegria, com dedicação, sentir muito ou pouco prazer em nossa atividade. Mas qualquer trabalho é mais ou menos penoso. E tudo isso porque ela não queria admitir que o trabalho das professoras é muito penoso. Não bastasse isso, na segunda-feira, quando chego na escola, diante de uma notícia de paralisação de professores, recebo, de chofre, a pergunta: o que é que vocês já ganharam fazendo greve?

A pergunta, um misto de alienação e falta de informação, era bastante sincera. Feita dentro de uma escola, por um profissional da escola… Merece a melhor resposta possível. Generalizei: nenhum trabalhador consegue ganhos seguros se não for por intermédio de uma greve que faça o acordo com os patrões se transformar numa regra. Primeira parte: “nenhum trabalhador”. Patrões, sejam eles quais forem, têm na sua natureza o lucro, e o lucro só aparece quando o trabalhador é explorado. Portanto, é preciso transformar o trabalho e o trabalhador numa mercadoria, a mais barata possível. E o trabalhador se torna uma mercadoria barata quanto mais precarizada é a sua situação. Um homem faminto trabalha por qualquer valor para obter um prato de comida. Então, numa greve ganha-se dignidade!

Segunda parte: “ganhos seguros”. Se o trabalho e o trabalhador são mercadorias, ele tem por obrigação se valorizar nesse mercado. E o fará coletivamente. Você pode se valorizar individualmente, mas nesse caso vai apenas mudar o seu patamar de luta. Se o seu trabalho não é tão precarizado assim, ele o será se você não lutar, coletivamente, com o seu novo grupo. A massa salarial da indústria petrolífera é alta quando comparada com a da construção civil, por exemplo. Mas, se os petroleiros não lutarem coletivamente, daqui a pouco estarão nas mesmas condições que qualquer outro trabalhador. Então, a segurança do seu salário, seja ele qual for, está nos ganhos coletivos que uma greve produz. Individualmente, você pode ser trocado por outro tanto ou mais qualificado com menor salário. Coletivamente, não. Então, numa greve ganha-se segurança.

Terceira parte: “acordo com os patrões”. Apesar da guerra que é deflagrada com uma greve, toda greve termina num acordo com os patrões. É um cabo de guerra, e, como em todo cabo de guerra, vence quem derruba o outro. Trabalhadores e patrões querem sempre ganhar mais: é da natureza das pessoas, a maneira que nós temos de satisfazer necessidades e nos precaver para o futuro. Onde está a diferença? O trabalhador quer ganhar mais valorizando o seu trabalho, a sua mão de obra. O patrão quer ganhar mais desvalorizando o seu trabalho, a sua mão de obra. É preciso, pois, fazer um acordo sobre isso. Nesse perde e ganha a riqueza produzida pelo trabalhador é apropriada com violência pelo patrão. Então tem que haver acordo entre patrões e empregados para que todos ganhem e, no limite, a solução é a expropriação do capital. Se o patrão não faz um acordo – e para isso deve diminuir o seu lucro, distribuindo a riqueza produzida com quem a produz – o trabalhador deve alertá-lo da possibilidade de perder tudo. Então, numa greve aprende-se a negociar acordos.

Quarta parte: “transformar numa regra”. Como o trabalho é uma mercadoria, ele tem que ser negociado todos os dias. Portanto, essa é a primeira regra: negociar acordos sempre. Para quê? Para criar uma regra de remuneração do trabalho durante determinado período. Em relação ao trabalho, não podemos pensar numa regra para sempre. Algumas podem e devem ser mais duradouras que outras, porém é preciso negociar todo o tempo.

Dessa maneira, negociando e fechando acordos todos os anos – alguns bons, outros nem tanto – a categoria de professores da Rede Municipal de Belo Horizonte vem colecionando vitórias. Dos ganhos mais duradouros, tiramos em 1998 um plano de carreira que remunera a experiência em sala de aula; repusemos parte da inflação do período, o que diminui as perdas, que ainda são imensas; impedimos a construção de uma previdência que já nasceria deficitária com as propostas do Executivo quando deveríamos aumentar nossa contribuição para torná-la exequível no futuro; temos cinco horas para planejar nossas aulas (queremos sete!).

Estamos na luta para não perder o conquistado. Para continuar conquistando. Para, depois de conquistado, continuar imaginando como melhorar nossas relações de trabalho e conquistá-las. Imagine se não tivéssemos todas essas conquistas, que são poucas. Precisamos de muito mais do que o exposto acima. Para isso, precisamos lutar todos os dias na escola e nas ruas para que nosso trabalho não seja tão penoso. Para manter a nossa dignidade e fechar acordos que deem segurança a nós e a nossos alunos e nossas alunas.

Já conquistamos muito. E queremos mais!

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