O lugar dos alunos na universidade do século XXI – exclusivo

Evelyn de Almeida Orlando

Seja de natureza privada ou pública, a cada início de semestre parece se reacender a chama pedagógica que impulsiona as reuniões de planejamento de algumas instituições de ensino superior. Temas conhecidos são trazidos à baila como os processos de ensino e aprendizagem, o lugar do professor nessa relação, as novas tecnologias como ferramentas educacionais – estas cada vez mais presentes nessas reuniões – e, nesse movimento inúmeros cursos de capacitação são ofertados para estimular e impulsionar o trabalho docente.

Pois bem, na última reunião de planejamento pedagógico da qual participei este ano, ao discutir os princípios orientadores do processo de ensino aprendizagem um novo ponto emergiu e saltou aos meus olhos: a mudança do lugar de aluno, que deve passar a ser visto como estudante.

A primeira questão que se colocou no horizonte foi sobre qual seria a diferença entre aluno e estudante? De acordo com os “Princípios orientadores do processo de ensino e aprendizagem”, publicado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná em 2014, as características salutares a cada um desses perfis se definiriam da seguinte maneira:

 

Se o primeiro termo remete a pensar em um estágio primário da nutrição, o segundo, por sua vez, remete a um espírito de busca, investigação e autonomia, o qual parece ser mais consoante com as propostas atuais para o ensino superior. Em que pesem todas as outras circunstâncias que caracterizam a natureza do processo de ensino e aprendizagem, o que parece estar em questão aqui é o lugar em que os alunos aparecem nessa discussão.

Muito tem se falado com a democratização do acesso à Universidade, da atualização e adaptação das didáticas e práticas avaliativas, do lugar do professor nesse processo, mas parece que pouco tem se discutido sobre o lugar que o aluno ou os estudantes ocupam nesse cenário. Um lugar que, a meu ver, precisa também ser discutido e recolado de forma consoante com as concepções e expectativas que depositamos sobre a Universidade nesse início de século XXI.

Embora essa não seja uma temática nova, nos últimos trinta anos, sobretudo, após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases Nacionais, em 1996, os professores do ensino superior vêm sendo estimulados a repensar suas práticas pedagógicas, colocando os alunos em uma posição central norteadora de suas ações, as quais devem ter como foco privilegiado, tanto em seu ponto de partida quanto de chegada, a realidade do aluno e o seu futuro profissional. O tripé “ensino, pesquisa e extensão”, sob o qual está assentada nossa ideia de Universidade, reforça essa concepção e traduz a necessidade de uma reformulação em dois âmbitos: ético-político e didático-pedagógico. A associação dessas duas dimensões incide diretamente na articulação da uma formação profissional que associa o conhecimento especializado da área à compreensão das condições histórico-sociais que configuram a dinâmica do exercício profissional.

Dentro dessa concepção muito tem se falado em construção de competências nos cursos de graduação, os quais deveriam vincular a formação do indivíduo a sua prática social. Mas, talvez seja apropriado nos perguntar, dentro desse conjunto de expectativas, quais competências estão efetivamente, em jogo nos referenciais curriculares de nossos cursos de graduação? Como o aluno/estudante figura nesse processo de formação? Que lugar é reservado a ele em sua própria produção como sujeito?

Nesse contexto, é importante salientar que o currículo, por si só, não dá conta de abranger todos os âmbitos de uma formação que se pretende integral e é por isso que se torna uma necessidade premente desenvolver a autonomia intelectual dos nossos alunos, chamá-los a responsabilidade nesse processo e instigá-los a buscar outras referências que vão ampliar seu repertório sócio-cultural e refinar sua capacidade analítica diante das questões do mundo em que vive.

É importante salientar que o currículo, por si só, não dá conta de abranger todos os âmbitos de uma formação que se pretende integral e é por isso que se torna uma necessidade premente desenvolver a autonomia intelectual dos nossos alunos.

Essa mudança de perspectiva não parece ser uma tarefa fácil, pois esbarra em resistências tanto da parte dos alunos quanto dos professores. Do lado dos alunos é mais cômodo permanecer tutelados, pois isso implica imputar ao outro a responsabilidade do seu sucesso ou fracasso. Por sua vez, para os professores, essa mudança implica em uma revisão na natureza de sua prática pedagógica, pondo em xeque crenças, valores e hábitos cultivados por tanto tempo, e tão cristalizados, que se tornam difíceis de desconstruir.

Mas qualquer mudança no campo das ações demanda, primeiramente, uma mudança em nosso padrão de pensamento e uma ruptura com um conjunto de certezas que confrontadas, já não dão conta de responder as nossas necessidades. Parece que, nesse sentido, a grande questão que fica para nós educadores, de modo geral, é se queremos mesmo alunos que voem com as próprias asas e, quiçá, superem seus mestres, ou se preferimos nos alimentar de discípulos, sempre a nossa margem, tão bem moldados a nossa imagem e semelhança?

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