Marcelo Silva De Souza Ribeiro – O Direito Da Criança à Natureza E Do Brincar Livre

O direito da criança à natureza e do brincar livre

Para além da grama e das fazendas

Marcelo Silva de Souza Ribeiro

 O movimento pelo direito da criança à natureza e do brincar livre deve ser algo que não se restrinja a substituição da grama sintética na escola por grama natural ou que não se reduza a simples visita esporádica as fazendas turísticas. A criança tem o direito de viver contextos de desenvolvimento em contato com a natureza e também a liberdade das brincadeiras livres. É importante dar o vigor possível a esse movimento, justamente por trazer demandas complexas e questionar, em suas raízes, todo um projeto de sociedade que, em última instância, tem comprometido os contextos de desenvolvimento de crianças e adolescentes.

O movimento pelo direito da criança à natureza e do brincar livre que, como o próprio nome indica (“movimento”), é multifacetado. Tal movimento reúne uma série de atores e advém de vertentes variadas da sociedade civil organizada e de governos do mundo afora. Sua abrangência e potência, portanto, nos faz pensar nas necessárias apreensões das complexidades de suas demandas de modo queas ações sejam efetivas. Assim, é necessário que se leve em consideração os aspectos sociais, culturais, econômicos, políticos e ambientais, justamente para evitar reducionismos ou “rasteirices” de qualquer modismo que só serve para marketings e business, mas que em nada muda a realidade.

Vamos refletir um pouco sobre esse tema trazendo pontos referentes ao brincar digital, a criança pobre, a formação integral, as políticas e aos recursos naturais.

Ouvimos e lemos, diuturnamente, sobre os feitos nocivos das “telinhas digitais” que nossas crianças são excessivamente expostas. Na verdade, esse “excesso” na relação com as telinhas revela também uma carência em termos de possibilidade de as crianças brincarem com outras coisas. A rua, por exemplo, já não é mais amigável para as crianças. Os coleguinhas muitas vezes estão circunscritos aos encontros fortuitos das escolas. Estas, as escolas (em conluio com as famílias), cada vez mais criam pressão para performance produtiva de resultados e desempenhos escolares.

Se olharmos para as crianças das classes sociais mais pobres, estas vão estar, particularmente, em contextos de negligência pública. Muitas delas vivem em situação de vulnerabilidadeesuas condições de viver a infância são negadas(porque vão para o mundo do trabalho precarizado, porque são inviabilizadas socialmente em sua condição infante ou mesmo por causa das vulnerabilidades de toda a sorte a que são acometidas).

As experiências marcadas pelos projetos de educação integral (das escolas com propostas de uma formação integral) e de cidades educadoras, que foram corroídas e se perderam ao longo dos últimos anos, revelam também o esgarçamento de uma sociedade democrática e de estado de direitos. Nesse sentido, falar da relação da criança com a natureza e do brincar livre é também da ordem política. Vejamos, por exemplo, a questão da mortalidade infantil que, após anos de queda e controle, voltou a subir. Isso é assustadoramente revelador, pois indica ainda que esses agravos não estão circunscritos ao campo específico da saúde, mas é uma onda de retrocessos generalizados, ainda mais com todos os cortes orçamentários, com as políticas restritivas que estamos vivendo e com as instabilidades do governo.

Ao abordar o direito da criança à natureza e do brincar livre é importante que se leve em consideração a qualidade e o acesso aos recursos naturais.  A água, por exemplo, como um dos recursos naturais mais vitais para a vida, tem tudo a ver com esse movimento que estamos aqui a discutir. Como lembra Roberto Malvezzi (Gogó)*, o problema da água passa pela quantidade, qualidade e seu aspecto social. A quantidade, porque os recursos são escassos; a qualidade, porque as vezes há água, mas não de qualidade; e o social, porque quando se tem água com qualidade e não tem o acesso para todos. A água é um bom exemplo desse direito da criança à natureza.

Por fim, gostaria de concluir com o seguinte chamado: Que esse direito a natureza e o livre brincar reivindicados seja de qualidade, acessível e para todas as crianças!Que seja algo para além de quem possa pagar, para além da troca de gramas sintéticas e das visitas as fazendas turísticas!

* A qualidade da água nossa de cada dia – Roberto Malvezzi (Gogó)


Imagem de destaque: Alaric Sim / Unsplash

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