Vanessa Lira – Narrativas De Ser Professor

Narrativas de ser professor

Vanessa Lira

Primeiro dia de aula. Turma lotada, quase 40. Alguns conversam animados, outros olham ao redor, suspiram, arrumam os cabelos, apelam para os celulares.

Primeira proposta geral da escola: um “texto sondagem”, os jovens alunos devem falar resumidamente sobre suas origens, suas dúvidas e seus planos.

Uns começam, outros gargalham e procuram canetas, papéis, a postura ideal na cadeira. Lá no canto alguém olha para o lado, examina o início de texto do colega. Mas como repetir a mesma narrativa?

Não se trata de um tema com conteúdo esmiuçado no currículo mínimo. É pra escrever a partir de suas memórias, ou de como organizam os pedaços do que já viveram, tudo em pouquíssimas linhas. Um deles pergunta: “Só 15 linhas?”; outro grita: “faz o meu também, então!”.

Uma das regras é utilizar o rascunho. Uma jovem ao fundo se zanga: “Não preciso de rascunho pra escrever sobre isso, faço como vier na cabeça!”. A menina ao lado retruca: “Mas na minha memória tá tudo embaralhado!”. Alguns outros riem.Um momento de silêncio. Todos concentrados.

O que escrevem? Eu me pergunto calada. Um jovem fala: “Não dá pra escrever tudo numa folha!”. O colega ao lado diz: “Faz um resumo”. Mas como fazer um resumo da vida? Risos e depois silêncio.

Quando eles conversam o tempo voa, quando silenciam é uma eternidade. Um olha pro teto, parece tentar organizar o pensamento. Traduzir um turbilhão em 15 linhas. Lá no canto um jovem diz: “O que posso escrever aqui? Tem coisa que não dá pra escrever, né,‘fessora’?”. Risadas. E eu penso sobre o que pode ou não escrever na escola. Guardo a pergunta pra mim.

Uma aluna olha o seu reflexo no celular e arruma os cabelos. Olha pra trás pra ver se a colega acabou. A gente observa e tende a questionar, tentando entender o que se passa no desenrolar de cada gesto. Como se tudo devesse ter um além do que se vê. Me pego mais uma vez curiosa, querendo ler o que foi escrito em cada papel, como se fosse possível desvelar um pouquinho de cada um ali. Porque cada um nessa multidão de alunos, hoje na escola, traz consigo tantas coisas. As memórias não se repetem, se cruzammas não se repetem.

Alguns já começam a se mexer nas carteiras. Complicado se manter atento num calor de quase 40 graus, numa sala com ventiladores que fraquejam. “A gente começa achando que não tem nada pra dizer– comenta um aluno– e já se foram 40 linhas. Tenho que transformar em 15.”.

Segundo dia de aula. Mais uma atividade inicial: “sondagem de matemática”. As provas demoraram pra chegar, os alunos não. Eram muitos na sala, bem mais que trinta. Nos minutos de espera eles conversam e buscam os lugares mais confortáveis, dentro das possibilidades do nosso espaço. O ventilador barulhento grita nos ouvidos, sacode os cabelos, mas só vento quente.

As provas chegam e são distribuídas, cinco páginas de matemática. Um deles suspira aliviado: “Ainda bem que é múltipla escolha! Nem lembro mais o que é matemática!”. O grupo de trás, uns oito alunos, recebe a prova e devolve em cinco minutos. “Mas já?” – a galera diz em coro. Eles respondem sorridentes, alguns arrumando seus bonés, outros guardando as canetas: “Chefe é chefe, né pai!”.Risadas e retorno ao silêncio inicial.

Um quarto da turma se foi nos primeiros minutos, restam três quartos resistentes alunos. Olhos para o teto, sorriso pro colega ao lado, reorganização dos corpos nas carteiras. Uma aluna, lá no cantinho direito, se prepara pra levantar e diz: “Minhas costas estão doendo! Como se concentrar nessa cadeira desconfortável? ‘Guento’ mais não, vou entregar”. Outra entrega em seguida. Mais da metade da turma se mantém firme.

Uma aluna, sentada bem na frente, comenta baixinho: “Eu que não quero ficar na última turma do segundo ano, vou fazer até o fim!”. Alguns comentam acreditar que a prova serviria para organizar os alunos nas turmas, dos mais bem colocados para os com maior dificuldade nas disciplinas. Um rapaz do cantinho grita que isso não faz sentido, que todos estão viajando.

Restam 16. Concentrados,dois deles fazem contas nos dedos. Um boceja e aperta a testa, outro apoia o queixo com uma das mãos. A menina sentada em uma das carteiras do meio sorri e confessa: “Ainda pensei em faltar hoje… o que tô fazendo aqui?”. Vários alunos entregam e se vão. Restam 4. Silêncio. Um coça a cabeça e sacode a caneta, depois remarca com ela o que tinha feito a lápis. Os outros 3 permanecem em silencio. Eles resistiram até o fim.

Aos poucos os jovens vão descendo a rampa da escola. Alguns comentam questões nesse trajeto. No final do caminho, quase nos portões da escola, um grupo de rapazes comenta brevemente o desempenho na prova: “Pô, vou ficar na turma de repetentes outra vez esse ano…”. Seu colega ironiza: “Mas tu é repetente, cara! Tem que ficar na turma de bicho solto mesmo!”. Risadas. Um terceiro jovem comemora: “Eu sou padrão!”.

Imagem de destaque: @benmullins

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