Entrememórias – Marilha Caetano – Campo De Flores

Na história de uma vida a História se constrói

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda” (FREIRE, 2000, p. 67).

 

Marilha de Lima Caetano*

 

Eu me chamo Marilha de Lima Caetano, nasci em 29 de agosto de 2000 em Curitiba-PR. Vivi durante 6 anos em Palmeira-PR, onde iniciei os estudos na escola CEI – Cristo Rei aos 6 meses de idade. Em 2006, minha família e eu (mãe, pai e irmão) nos mudamos para Joinville-SC, devido a uma crise econômica que meus pais enfrentaram. Nesse ano, no Paraná, ocorreu uma queda nos preços da soja, que, consequentemente, afetou os recursos que chegavam ao SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem), local onde meu pai trabalhava. Devido ao corte de verbas e diminuição do salário, minha família se deparou com muitas dificuldades. Logo, a mudança de estado pareceu uma boa escolha para tentar melhorar nossa situação de vida.

Em Joinville, cursei todo meu ensino fundamental em escolas públicas, já que minha família não podia pagar por escolas da rede particular. Nessa época me deparei com situações de forte impacto, como a separação de meus pais e as constantes mudanças de endereço. Na vida de uma criança, quando não há apoio familiar, todo o caráter, identidade e função social que esses pequenos indivíduos poderão ter um dia, podem ser comprometidos pela falta desse aporte. No entanto, embora eu tenha passado por momentos estressantes durante esse episódio aos 6 anos, sempre tive meus pais presentes em minha vida e incentivando meus estudos. Na verdade, não imagino minha vida, atualmente, com os dois juntos. Acredito que o fato de eu ter uma nova família, possibilitou que eu conhecesse mais pessoas e por isso, trocasse mais experiências e conhecimentos. A força para seguir em frente de maneira saudável tanto física, quanto psicologicamente, foi justamente essa união de diferentes meios familiares que a própria “desunião” dos meus pais proporcionou. E isto fez e faz parte de quem eu sou.

Ao término do 9° ano, tive que decidir em qual instituição iria continuar os estudos: momento do tão sonhado ensino médio. Eu estava certa que gostaria de estudar em um local com método de ensino prestigiável. Meu pai, sempre atento, me informou sobre o fato político que fez com que a antiga “Escola Agrícola de Araquari”, fosse transformada em Instituto Federal Catarinense no ano de 2008. Esta situação ocorreu devido à aprovação da lei n° 11.892 de 29 de dezembro de 2008, que decretou a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia. Foi em decorrência deste episódio, que consegui me inscrever e ser aprovada no exame de classificação para cursar o Ensino Médio como aluna do Curso Técnico em Química Integrado ao Ensino Médio.

Durante este período, convivi com várias etnias e culturas diferentes, as quais me instigaram a crescer como pessoa e profissional técnico em Química, sempre pensando como cidadã que integra a sociedade. Foi assim que conheci os primeiros caminhos da pesquisa. Soube por meio de um excelente professor, que na época era coordenador do curso de Licenciatura em Ciências Agrícolas, da existência de uma instituição responsável pelo desenvolvimento de pesquisa no Brasil chamado Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(CNPq). Essa organização foi responsável por me disponibilizar oportunidades únicas de desenvolvimento de projetos científicos por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – Ensino Médio (PIBIC-EM) para alunos do ensino médio. Com esta oportunidade de iniciação à ciência, não conhecida antes por mim, me tornei bolsista e desenvolvi um total de 6 projetos científicos na instituição na qual completei meu ensino médio – Instituto Federal Catarinense – Campus Araquari.

O primeiro projeto que tive a oportunidade de participar tinha como foco o desenvolvimento de novas ferramentas agrícolas que beneficiassem pequenos agricultores familiares. Esse projeto permitiu que várias áreas fossem trabalhadas simultaneamente em mim e nos outros bolsistas envolvidos. Afinal, este foi meu primeiro contato com pesquisa e trabalho remunerado desenvolvido por um grupo de estudantes e orientadores mestres, doutores e pós-doutores. Também desenvolvi projetos científicos envolvendo problemas ambientais e sociais, os quais me agregaram mais conhecimentos ainda.

É extremamente vantajoso para um país investir em pesquisa científica, pois os projetos aos quais me referi, sempre visaram o gerenciamento ambiental local, assim como a resolução de problemas por meio do estudo de soluções inovadoras. E assim acontece em qualquer outra instituição e grupos que priorizam a pesquisa. Investir em educação é investir em pesquisas; é ter ciência de que se aposta no desenvolvimento e na qualidade de vida de um País, já que o retorno científico visa o bem estar comum e o aprimoramento de técnicas e tecnologias sociais.

Todas essas experiências me proporcionaram conhecimentos e vivências extraordinárias, não só pelo fato de eu ter desenvolvido projetos em equipe, mas por conta da participação abundante em eventos científicos da região. A etapa de apresentação do projeto foi a mais interessante e importante ao meu ponto de vista, pois é aí que a ideia de pesquisa se concretiza – na sua divulgação. Tenho muito a agradecer aos professores orientadores excelentes que conheci e trabalhei, pois além do conhecimento adquirido nas áreas específicas trabalhadas como, por exemplo, química do solo, gerenciamento ambiental, microbiologia entre outros; foi através das trocas de experiências que eu aprendi o que é pesquisa científica, como fazê-la e por que fazê-la.

Atualmente, sou licencianda do Curso de Licenciatura em Química na mesma instituição onde completei o ensino médio, e assim como antes, continuo essa jornada acadêmica participando de programas de bolsas, desta vez, de Iniciação à Docência no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). Sigo acreditando que o país só avança quando se investe em educação, pois como já expressou Paulo Freire¹: “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”(FREIRE, 2000, p. 67).


¹FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. Apresentação de Ana Maria Araújo Freire. Carta-prefácio de Balduino A. Andreola. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

*Licencianda em Química pelo Instituto Federal Catarinense (IFC) – Campus Araquari/SC.

Imagem de destaque: Priscilla Du Preez / Unsplash

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