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@MaterialDeLeitura

Maria G. Lara

A forma como lemos – e como entendemos a leitura – nunca foi limitada, fixada, pré-definida. Sempre lemos muito mais do que livros. Pinturas, músicas, performances sempre foram material de leitura. Ainda assim, a popularização da internet e das redes sociais nas últimas décadas tem nos apresentado novas formas e possibilidade de ler.

Das disponibilizações de conteúdo de livros, periódicos, filmes e todo tipo de produção à criação de fóruns para debater temas específicos, a produção de conteúdo online tem crescido exponencialmente a cada ano, mas aqui me interessa falar de uma fonte específica de conhecimento: os usuários das redes sociais. A priori, o que temos nessas redes é uma plataforma para indivíduos registrarem seu dia-a-dia, acontecimentos pessoais e entrar em contato com amigos e conhecidos, mas as interações extrapolam essa proposta inicial. Passando alguns minutos numa rede social, além de fotos de cachorro, tutoriais de receitas e postagens de bom dia, não é difícil encontrar pessoas que utilizam essas plataformas para falar das pautas que importam pra elas e isso tem atraído cada vez mais leitores – que se tornam também produtores, com a possibilidade de interação direta e imediata.

Um formato bastante popular no Twitter são as threads, essas sequências de tweets feitos por uma mesma pessoa sobre um mesmo tema. É um recurso utilizado com frequência por esses usuários que se apropriam da plataforma pra trazer suas pautas para a esfera da internet, como esse exemplo publicado por Caio César.

Caio, ou @geocaio_ é professor de geografia e pesquisador no campo das masculinidades – mas também é um desses usuários do Twitter que espalham conhecimento ativamente através do microblog. Ele traz assuntos que permeiam sua vida como professor, pesquisador e homem negro para suas redes – quase sempre na forma de threads -, onde, junto com fotos e comentários corriqueiros, atingem milhares de pessoas.

Também debatendo racismo, além de questões mais pertinentes à mulher negra e à população periférica, a @laressa se apresenta como alguém que “conversa e forma opiniões que ninguém pediu”, o que talvez resuma bem o potencial do Twitter como um espaço pra se falar e debater as mais diversas pautas, sem a necessidade de um mediador. O conteúdo dela é menos direcionado que o de Caio, mas não agrega menos conhecimento. É um bom exemplo de pessoas comuns, que usam as redes sociais para interagir com amigos e compartilhar memes, mas que se faz ouvir através de um compartilhamento de suas vivências.

O Twitter parece ser a plataforma preferida pra esse tipo de conteúdo, dada sua estrutura de microblog e a possibilidade de construir threads, além da busca textual, fatores que ajudam a organizar o conhecimento numa lógica bem característica da web 2.0. Caio e Larissa estão acompanhados por muito mais pessoas que também se apropriaram dessa rede para trazer visibilidade às suas pautas, sem perder a própria pessoalidade. São os casos de Déia, sob a alcunha @NaoInviabilize, psicóloga que fala sobre direitos dos animais e vive abrindo espaço para debates sobre relacionamentos, sexualidade e outros tópicos bastante humanos; a Sabrina, ou @safbf, socióloga dona do site e canal do YouTube Tese Onze, que utiliza todas essas plataformas pra falar dos mais diversos temas competentes à sociologia, entre tantas outras.

Ainda assim, há os que recorrem à estrutura de outras redes, como o Instagram – rede baseada muito mais nas imagens do que no texto, cujo propósito original era mesmo o compartilhamento de fotos. Temas que permitem exemplos mais facilmente fotografáveis costumam aparecer por lá, em contas como a dos rapazes do @veganoperiferico, que fotografam seus pratos para mostrar um veganismo mais acessível e político do esse que se popularizou nos últimos anos. Mas o foco da rede nas imagens não impede que ela também seja utilizada para comentar acontecimentos e questões menos imagéticas, como o assassinato de Marielle Franco e questões da indústria de alimentos.

Com tudo isso, o que quero dizer é que a ocupação desses espaços virtuais já está sendo feita por gente que se interessa pelas mais diversas lutas sociais e é preciso que nos atentemos a elas. Se nosso intragável presidente foi eleito, em grande parte, graças à mobilização de seus fieis e de robôs nas redes sociais, já passou da hora de entendermos como utilizar os mesmo meios a nosso favor: na articulação de lutas, na expansão de ideias, na construção de debates. Só reclamarmos dos bots do Bolsonaro enchendo o Twitter ou dos inúmeros grupos de Whatsapp disseminando fakenews não resolve nosso problema, principalmente se ignorarmos todo esse material produzido minuto a minuto que vai contra a narrativa conservadora e egoísta dessas fontes.

O que não nos falta, como vemos, é gente disposta a falar – e também temos plataformas pra isso, e as carregamos no bolso todos os dias. Trazer essas vozes pra sala de aula, pras nossas interações, pode ser um bom caminho para levar certas questões a um público mais amplo e, talvez, um caminho mais efetivo que a recomendação de livros e ideologias e produtos culturais sem a interação direta das redes. Gente que não se agarra à linguagem acadêmica e que se mostra como ser humano debatendo publicamente as pautas que a academia tanto diz prezar, isso sim é acessível e incentiva a participação.

Deixar que esses espaços sejam tomados por aqueles que desejam escolas sem partido e uma sociedade sem debate é jogar fora todo esse material produzido por quem está do nosso lado. Leiamos a internet, e a escrevamos também!


Imagem de destaque: ROBIN WORRALL/Unsplash

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