Mamãe eu quero ir a Cuba! – exclusivo

Dalvit Greiner

Mamãe eu quero ir a Cuba

Quero ver a vida lá

La sueña una perla encendida

Sobre la mar

(Caetano Veloso, 1983)

 94 dias de usurpação de um governo eleito pelo povo 

Com a morte do Comandante Fidel, milhares de especuladores políticos e financeiros, com suas especulações políticas e financeiras, começaram a girar o mundo pelos meios de comunicação oficiais, oficiosos e redes sociais. Quem continuará a Revolução? Fidel Castro já respondeu: o povo, pois a Revolução não é de um homem, mas de todo o povo cubano. Fidel era e é apenas um dos líderes de todo um processo que começou em 1959 e continua, passados 57 anos, e além. A primeira lição que se dá a quem se pretende líder é exatamente essa: ninguém segue homens, as pessoas seguem ideias. Cuba não é apenas Fidel. Cuba é o povo cubano que optou por seguir os ideais de Fidel.

Como toda guerra de tintas vimos e ouvimos previsões das mais díspares sobre o futuro da ilha. Do otimismo liberal de que a história comunista da ilha acabou e que agora virá o primado da democracia – como se lá não houvesse um modelo – no modelo eleitoral estadounidense de pluripartidarismo e voto popular – como se só isso fosse verdade. Até o otimismo socialista de que a história continua agora numa nova configuração mundial em que já não há a exportação da Revolução dos anos 1960, mas de solidariedade para com os pobres de outros países.

Também sou um otimista. Creio que Cuba não sucumbirá ao canto da sereia liberal e por um motivo que busco lá no século XVI: “O aprendizado de boas maneiras e de moral é considerado como tão importante quanto o conhecimento. Desde o início, procuram inculcar na mente das crianças, cuja alma é ainda tenra e dócil, princípios que serão úteis à preservação da comunidade. Aquilo que é plantado na mente das crianças continuará vivo na mente dos adultos e torna-se de grande valor para o fortalecimento da comunidade: o declínio das sociedades pode sempre ser traçado a partir dos vícios que emergem de atitudes erradas.” Quem o disse foi Thomas Morus (1478-1535). Falava de uma certa ilha chamada Utopia. As crianças da Cuba de hoje são outras, diferentes daquela Cuba de 50 anos atrás.

O tempo de vida de Fidel foi o suficiente para duas revoluções: uma revolução política e uma revolução na educação. A revolução política é sua, seu mérito. Romanticamente, era preciso alguém que liderasse jovens, embrenhados na selva, dispostos a tirar o mando das mãos de quem via o povo apenas como um trabalhador a ser continuamente explorado, até a morte. As revoluções políticas são imediatas. Provocam grandes abalos na sociedade, tiram as pessoas de seu conforto, pequeno ou grande. Movem os indivíduos.

A revolução na educação é lenta. Precisa de gerações. Os cubanos de 1959 eram pouco alfabetizados. Talvez, para que entendessem o catecismo de Fidel, tivessem que fazer grande esforço para que se enchessem de esperança: era só mais um que tomava o poder, como o fez Batista, ou… Era preciso crer. Essa geração já se foi. Porém deu lugar a outra que frequentou a escola, vestiu uniforme, comeu livros e pães, estudou e acumulou um capital cultural invejável a qualquer nação. O reflexo disso é o sistema de saúde cubano: um modelo que se dá ao luxo de prestar serviços médicos ao mundo e não mais apenas aos cubanos. Comovem os indivíduos.

Quaisquer que sejam as informações que venham de Cuba são inegáveis aquelas que dizem respeito aos ganhos que a sociedade teve. Altos índices de saúde e educação, não apenas de atendimento, mas de qualidade. Aqui falo de relato direto. Minha aluna Daniele, da Educação de Jovens e Adultos da Escola Municipal “Tancredo Phídeas Guimarães” é hoje uma médica formada pela universidade cubana. Teve a oportunidade de buscar lá o que lhe foi negado aqui. Viveu lá, duramente, todo o seu curso e foi aprovada pelo conselho médico aqui no Brasil, condição para reconhecer o diploma e obter o seu registro. Torcemos muito e ajudamos naquilo que foi possível. Presenciamos a luta da sua mãe Geralda Amaral para mantê-la na ilha. Foi difícil em termos de materialidade, mas foi inegável o aprendizado, reconhecido pela própria Daniele, sua mãe orgulhosa e o Conselho Regional de Medicina. A última notícia que tive é que trabalha na região do Barreiro.

Mas, um defensor da Liberdade vai acusar Cuba de trair os direitos humanos, de ser uma ditadura, de não haver opinião livre, direito de ir e vir e outros princípios caros à filosofia política liberal e sua democracia financeira. Tudo para justificar uma abertura de mercado – no caso, principalmente, o mercado de trabalho. Mas, o que é o mercado diante da necessidade, diante do direito à vida? O Caribe nos dá dois caminhos, duas escolhas: a utopia comunista de Cuba, com o primado da comunidade, ou a utopia capitalista do Haiti, com o primado do capital.

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