EDITORIAL

Mais razão e democracia

Alexandre Fernandez Vaz

É muito comum em campanhas políticas se escutar todo tipo de asneira e disparate, tanto porque os candidatos são dificilmente sinceros, dados os cálculos eleitorais feitos a cada momento, na busca incessante de convencer grupos ainda em dúvida ou inclinados a outro postulante, quanto porque, em boa maioria, são eles simplesmente despreparados.

Em um tempo fundamentalmente dominado pelas imagens e slogans, cada candidato deve, para se apresentar, cultivargestos que gerem para si uma adesão afetiva no eleitor. As grandes questões de governança são reduzidas a bravatas diversas, diminuídas ou simplesmente esquecidas. “Credibilidade” é o que se procura e, de fato, isso deve ser levado ao pé da letra, ou melhor, de forma irônica: busca-se a crença porque os grandes problemas, assim como as condições que os tornam possíveis, são desconhecidos. Na ausênciade ideias e sob o eclipse da razão, resta o pensamento paranoico, as teorias da conspiração, tudo tão a nosso gosto.

É de se perguntar por que é tão fácil colocar-se esse estado de coisas. Vejamos. Há poucos dias o candidato a vice-presidente Hamilton Mourão mencionou a dificuldade de desenvolvimento autônomo de jovens que, nas camadas populares, são criados por mães e avós, na ausência de homens em casa. Eles seriam, por causa disso, presas fáceis para o narcotráfico, que os transformaria em agentes do crime organizado.

O general da reserva deu sua opinião e isso não deixa de ser um problema. Afirmação de tal gravidade baseada na própria experiência (dele mesmo, do que lhe contaram, tanto faz) é algo que nos autoriza a não levar a sério o postulante ao Jaburu. Mas não é apenas sua opinião, como a que proferiu sobre o problema que seria a existência do décimo-terceiro salário, ou o que disse sobre negros e índios? Afinal, cada um, em uma democracia, não pode emitir sua opinião?

Não, não pode. A democracia exige um comportamento na vida pública que respeite a vida em comum. O velho Kant explicou isso há mais de dois séculos. A vida pública deve ser feita de discordâncias, de antagonismos, da disputa por projetos, mas não por arbitrariedades que derivam de preconceito e ignorância, de pensamento não mediado pela razão. Há grande complexidade em cada um dos temas sobre os quais o general-candidato-a-vice se manifestou e, para tratar deles, há pesquisas, há áreas de conhecimento que se dedicam a eles. Sem tal esforço humano, que exige humildade e imaginação suficientes para saber de um mundo que está para além da mera impressão imediata, não é possível alcançar a profundidade dessas questões. Observe-se que não se trata de defender uma tecnocracia em que a posição de cada um não pudesse ser, como doxa, respeitada. O problema é que há diferentes abordagens para o mesmo assunto, de forma que assim como saber sobre o combate a uma bactéria não é questão de opinião, o mesmo vale para questões sociais complexas. O fato de não “vermos” uma bactéria não significa que o que é “visível” seja passível de opinião, principalmente quando isso se coloca, na boca de um candidato, como problema a ser considerado com atenção por um dirigente nacional. Se é verdade que os fatos sociais supõem a força da experiência para sua decodificação, isso não significa que sejam objeto de mero palpite. Definitivamente, democracia e razão são dois artigos pouco valorizados entre nós.

Nem tanto a candidatura de Jair Messias Bolsonaro, senão o enorme apoio com que chega ao primeiro turno das eleições presidenciais, testemunham a falta de democracia e de razão. Capturando o difuso ressentimento coletivo em um denominador comum – “contra tudo o que está aí” –, os gritos do capitão reformado permitem que cada um projete livremente seus obscuros mal-estares na contrariedade com o sistema político. Este, por sua vez, mal-ajambrado pelos partidos tradicionais, seu fisiologismo e falta de projeto para o país, espera agonizante a pá de cal definitiva. Espero que ela não venha, uma vez que com política é difícil, mas há esperança; sem ela, resta-nos a violência obscurantista.

Compõe esse quadro sinistro, cuja responsabilidade é de todos nós, a ausência, mais uma vez, da ciência e da tecnologia como estratégias para a construção da autonomia nacional. A leitura dos programas de governo – principalmente o da extrema direita, mas não só o dela – dá a impressão de que, afora o que estará ligado ao grande capital e à indústria bélica, pouco restará. Se é pouco o que temos hoje, parece que a novidade é conformar-se com o papel de figurante na produção científica.

Some-se a isso a absurda ideia de “incutir o patriotismo”por meio da volta da disciplina Educação Moral e Cívica à escola. Amor à pátria como entidade abstrata e indivisa significa desconsiderar as desigualdades sociais de toda espécie. Tal patriotismo que inclui apenas as pessoas de bem é só uma tentativa disfarçada de autoritarismo. Respeito os patriotas, em especial na luta anti-imperialista, mas meu compromisso não é marcar fronteiras, mas borra-las, supera-las, destitui-las. Nisso estou com Hannah Arendt e seu amor pelo mundo, não por qualquer nacionalidade ou etnia. Responsabilidade pelo futuro do mundo, compromisso que todos devemos que ter, posição, diga-se de passagem, que se coloca, mesmo na diferença, também em grupos militares que não se deixam render pela paranoia fantasiosa de que o Brasil corre o risco de “tornar-se uma Venezuela”. Ao contrário do que muitos gostam de dizer, há inteligência aguda no universo militar. Considero impossível que os bons quadros da caserna acreditem numa sandice como esta.

É evidente que há candidatos melhores e piores, que o risco para a democracia, como vem sendo destacado no mundo inteiro, inclusive em fóruns e publicações liberais – aliás, por isso mesmo um liberal deve ser, antes de tudo, democrata – se coloca. Portanto, seja qual for o resultado das eleições, sigamos na luta incessante pela democracia. No parlamento, no controle das ações governamentais, na crítica sem concessões, na disputa por projetos para a sociedade, mas não na oposição narcisista das pequenas diferenças. E, em tudo isso, que Auschwitz não se repita.

Araraquara, outubro de 2018.

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