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Limpeza Total: ação formativa popular, história e educação vistas de baixo

Marcus Vinicius Corrêa Carvalho

Meu interesse de intervenção no diálogo crítico promovido neste espaço privilegiado de debate educacional é por em foco e destaque a noção de ação formativa popular, pensada como uma ampla gama de atividades responsáveis pelo fomento de valorização e de construção de saberes que institucionalizados, ou não, favoreçam exercícios de cidadania cultural e experiências de cidadania ativa.

Importa e interessa, assim, a reiteração do convite à reflexão sobre a política como participação ativa no debate público. A ênfase recair-se-á, insistente, na tensão entre participação política e representação política a fim de debater a dignidade do espaço político e sua reapropriação pelos cidadãos em atos e palavras de escopo formativo capazes de nutrir uma vida e coisa públicas em seu significado primeiro e auspicioso de bem comum.

Nesta oportunidade, apresentarei o projeto extensionista “Limpeza total: EJA, FEUFF e trabalhadores terceirizados”, do Professor Marcelo Mac Cord, realizado, desde 2014, na Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. Acredito que a observação de uma iniciativa simples pode dar a ver a complexidade de uma ação formativa de fundamentos teóricos consistentes e de desdobramentos com impactos decisivos para uma experiência cidadã, capaz de desconstruir relações subalternizadas constituídas histórica e socialmente.

Esse projeto de extensão universitária fora concebido com a pretensão de associar-se às pesquisas históricas e aos estudos do professor, voltados, igualmente, para “trabalhadores negros mais velhos, com baixa renda e cidadania precária”. De forma circunscrita, a proposta destina-se à educação de jovens e adultos, sobretudo negros, que trabalham como servidores terceirizados do setor da limpeza no Campus Gragoatá da UFF, recorrendo à estrutura física e pedagógica concedida pela Faculdade de Educação. Um dos seus objetivos principais é promover a reapropriação da universidade pública e a desconstrução da percepção de subalternidade dessas atividades laborativas. Desse modo, temas como direitos trabalhistas e cidadania, prementes para trabalhadores em processo de precarização social, somam-se à possibilidade de definição dos temas, dos materiais didáticos e das diretrizes político-pedagógicas do curso, estimulando a motivação e o protagonismo em relação de escolarização horizontalizada e humanizada.

A tradição racista, preconceituosa e autoritária brasileira fere e precariza de maneira contundente a cidadania da população negra, tendo na baixa escolaridade um dos componentes mais visíveis da produção dessa cultura da violência. Nesse sentido, a proposta visa somar-se aos esforços para a implementação efetiva da lei 10.639, de 2003, rezando, entre outras coisas, sobre a obrigatoriedade do ensino de História da África e das culturas negras nas escolas de rede pública e particular. Assim, além de oferecer as disciplinas exigidas pela legislação, há um rol de atividades culturais que abrangem questões relativas ao limite do “conteudismo”, do treinamento técnico e de competências na formação escolar, e, da escolarização como processo de transferência de conhecimento. O cerne dessas atividades culturais tem sido o tratamento das questões étnico-raciais a partir das experiências de vida dos estudantes aproveitadas em “círculos de cultura” de inspiração freiriana, estimulando interação pedagógica com fins à promoção da cidadania negra.

O projeto sustenta a marca de Edward P. Thompson, como a de Paulo Freire, lembrando que ao lecionar para os trabalhadores ingleses, o autor de A Formação da Classe Operária reiterava a necessidade de pôr em equilíbrio o rigor intelectual dos espaços formais de saber e a observação das múltiplas experiências vividas além dos muros universitários, justificando o engajamento das universidades na educação de adultos “não apenas para ensinar, mas também para aprender”. Como o legado de Thompson é determinante para a valorização das experiências dos trabalhadores no passado, legitimando que, através da história vista de baixo, suas expectativas e ações sejam manifestas a partir das fontes de pesquisa histórica, o exemplo de sua experiência de docência junto às classes subalternizadas pode estimular exercícios político-pedagógicos capazes de instaurar diálogos entre o presente e o passado, entre intervenção política e pesquisa acadêmica, de solidariedade social e intelectual aos mais pobres, favorecendo uma educação vista de baixo.

Não parece ocioso pormo-nos a refletir sobre o quanto possa ser tarefa e exercício intelectual legítimos falar pelos subalternizados, ao invés de criar espaços por meio dos quais eles possam articular-se e falar, a fim de que, quando eles ou elas o façam, possam ser ouvidos.

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