Liberal, mas nem tanto

Dalvit Greiner

Tenho recebido, e aceito de bom grado, manifestações da direita que se diz liberal, por meio do Partido Novo, de João Amoêdo. É um colega de trabalho que, vira e mexe, manda-me as publicações do candidato. Liberal mesmo, não o sinto. Nem o colega de trabalho, nem João Amoêdo, nem o Partido Novo. Um verdadeiro liberal entenderia a educação como o principal investimento de um Estado que se quer forte e para isso não pouparia esforços para colocar toda a meninada na escola com o melhor que a grana pode oferecer. E não apenas a meninada, mas todos em todos os níveis de ensino: da educação infantil até a pós-graduação.

Mas, não é a falta de conhecimento sobre o Liberalismo que me assusta em nossos candidatos da direita. É a falta de caráter mesmo. Caráter naquele sentido marcante e indelével de quem o é, pela radicalidade de seus pensamentos, atos e palavras. Em geral, nossos liberais pregam um Estado mínimo apenas no sentido financeiro, do custeio das despesas: dinheiro para o capital de giro de suas empresas. Ou seja, pedem para que o Estado não lhes mexa no lucro. A não intervenção do Estado é apenas uma não intervenção no lucro do patrão, nunca na vida do cidadão. Ou seja, a noção de Estado mínimo que o empresariado brasileiro tem é aquela que corta todos os investimentos sociais para sobrar mais dinheiro para socorrer empresas cambaleantes à beira da falência.

Assim, o liberal brasileiro é aquele que quer o Estado apenas para si. Um Estado que tome, por meio dos impostos, a riqueza produzida pelos trabalhadores e invista no patrão, numa infraestrutura que beneficie apenas o capital. Dessa maneira, aquela riqueza que seria tomada diretamente pelo patrão passa pelo Estado para que financie todas as formas de contenção dos trabalhadores – principalmente a polícia, de ação imediata e a educação no modelo “escola sem partido”, formando gente “honesta e ordeira”. Conformada.

Quando observamos o Orçamento da União para 2018, congelado pela PEC do fim do mundo, a Emenda Constitucional do Teto de Gastos (EC 95), percebemos isso com uma clareza indiscutível. O FUNDEB tem uma previsão orçamentária para 2018 de 14 bilhões de reais. O atual presidente, que vem fazendo o serviço sujo de desmonte do Estado, impediu qualquer possibilidade de novos investimentos na educação quando vetou um recurso extra de 1,5 bilhão de reais para o Fundo. Em campanha eleitoral autorizou 1,7 bilhão de reais para os partidos políticos. Por fim, a Lei do Orçamento Anual destina 109 bilhões de reais para toda a educação do país, com cortes que afetam toda a cadeia de produção do conhecimento, da infância à pós-graduação.

Algum liberal esperneando por isso? Não nenhum. É isso mesmo que desejam. É preciso cortar os “gastos” com educação para que a sua principal agência de financiamento funcione. A mesma Lei do Orçamento Anual destina 210 bilhões de reais para os empresários deste país tomarem a juros baixos para financiar seus projetos de “investimentos”. Duas vezes mais do que os gastos com educação vão financiar empresas de todos os tipos e tamanhos no país quando se espera, em 2018, quatrocentos mil novos negócios. O principal discurso é que tais investimentos salvam o emprego dos milhões de chefes de família. Isso deveria diminuir a taxa de desemprego que nunca diminui.

Assim, na sua cruzada pelo país para pregar o seu liberalismo, João Amoêdo e outros liberais agarrados ao Estado via BNDES deveriam pregar bem alto: acabaremos com todos os privilégios, principalmente esse de financiar empresas. Teremos assim um Estado mínimo que não afetaria em muita coisa os pobres, pois o Estado nunca lhes deu muita bola. Mas, eu gostaria muito de ver como o empresariado brasileiro viveria sem o Estado. Afinal, a mão invisível de Adam Smith, em versão brasileira diz: quem não tem competência que não se estabeleça.

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