Instrução Pública Primária no Brasil

Luciano Mendes de Faria Filho

Estamos vivendo tempos aparentemente contraditórios: por um lado, há uma exaltação do presente como se nada mais importasse nesse contínuo temporal que nos conectaria de um segundo ao outro, sem parada para olhar outras paisagens temporais; por outro, o passado é continuamente mobilizado e atualizado para autorizar as ações no presente e construir o futuro, num estranho movimento em que o futuro parece ser muito mais previsível do que o tempo pretérito.

Nesses tempos, nunca é demais dar boas vindas a trabalhos que, pondo questão ao passado, produzem conhecimentos que nos permitem melhor entender a pluralidade de passados que disputavam a possibilidade de construírem aquilo que veio a ser o nosso tempo, o futuro. Tal perspectiva é mais importante ainda no campo da educação, área em que a preocupação com a construção do futuro não raramente obscurece as dívidas dos sujeitos e das instituições com aquilo e aqueles que as constituíram.

O livro Impasses e desafios à organização da instrução pública primária no Brasil(1890-1930),de Carlos Henrique de Carvalho e Ana Emília Cordeiro Souto Ferreira, é um bom exemplo de como a história da educação pode nos ajudar a descortinar futuros plausíveis em um momento de intensas discussões sobre os rumos da educação naqueles distantes (distante?) presentes vividos pela primeira geração republicana no Brasil.

Por meio de uma extensa revisão bibliográfica, a Carlos Henrique e Ana Emília estabelecem as balizas teórico metodológicas que guiaram o trabalho de pesquisa realizado, discutindo desde as potências e fragilidades de uma história comparada da educação e sua aplicabilidade para o melhor entendimento das políticas educativas desenvolvidas em três estados da Federação – São Paulo, Rio Grande do Norte e Paraná –, até as dimensões da história da educação que importa pesquisar, e comparar, se se quer fazer uma história comparada das primeiras décadas da educação republicana.

Ao objetivar uma extensa revisão bibliográfica, ao reunir e interpretar documentos sobre o processo de escolarização que permitem ver, nas primeiras décadas republicanas, as políticas oficiais postas em ação em nos três estados, o livro nos possibilita acompanhar os caminhos percorridos pelas discussões de alguns das dimensões mais importantes da história das políticas e do pensamento educacionais no Brasil.

O(A) leitor(a) vai encontrar, no texto, análises sobre o material pedagógico, sobre os métodos de ensino, sobre os projetos pedagógicos, sobre os espaços escolares e várias outras dimensões que compõem essa complexa instituição que é a escola. Situando numa mezo-abordagem, a narrativa permite perceber uma intensa circulação de projetos e de ideias em várias posições do campo educacional que se institucionalizava, e organizam nossa compreensão sobre os modos possíveis de fazer a educação postos em ação naquele momento.

Ao analisar o processo de constituição da escola republicana em SP, no RN e no PR, o livro não nos autoriza a pensar em simples “influências” de uns sobre os outros, ou numa diferenciação evolutiva entre os três estados. Por outro lado, permitem, penso eu, entender o intenso processo de trocas, de circulação, de apropriação, de deslocamentos e construções de sentido, a que os mesmos objetos materiais ou cognitivos estiveram submetidos quando mobilizados pelos diferentes sujeitos que tentavam produzir e responder aos desafios dos seus tempos. Uma mesma coisa, uma mesma noção ou elaboração, pode ter sentido diferente quando submetida a circunstâncias diferentes.

Ao trazer a tona o movimento desigual, mas articulado, de expansão e institucionalização da escola republica em três unidades da federação, o livro contribui também para que entendamos melhor as nossas diferenças e nossas profundas desigualdades. Ontem, como hoje, infelizmente, a experiência escolar das crianças brasileiras esteve profundamente dependente do lugar onde nasceu. O livro expõe, assim, uma certa cartografia de nossas desigualdades escolares, profundamente dependentes e reprodutoras, por sua vez, de nossas desigualdades econômicas e sociais.

 A leitura o livro do Carlos Henrique e da Ana Emília nos desafia a olhar o tempo presente de modo mais perspectivado e a considerar a pluralidade de alternativas que se nos apresentam, tanto no passado quanto na contemporaneidade. Se a escola jamais será contemporânea do seu tempo, cabe-nos indagar sobre as condições para que ela contribua para o reconhecimento de nossas diversidades e para a construção de mais igualdade e justiça. Ou, inversamente, como tem contribuído para transformar diferenças em desigualdades e em justificativa para as injustiças sofridas pelas populações mais pobres. E uma dessas condições é, justamente, a explicitação das disputas pelossentidos da escola e da educação em que estão envolvidos os diversos sujeitos que ocupam o espaço e as instituições públicas. E essa é, sem

dúvida, uma das contribuições desse livro. Outras certamente o/a leitor/a encontrará, mas aí já é o resultado da leitura, e sobre esse nem o autor, nem a autora, nem a editora e, muito menos o prefaciador, tem, felizmente, controle! Resta-me, pois, desejar uma ótima leitura!!

Belo Horizonte, primavera de 2016.

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