Silvio Santos

Indústria cultural (à la Brasil)

Alexandre Fernandez Vaz

Nos anos 1970 não era raro que as crianças brasileiras acordassem no primeiro dia da semana com o jingle que abria um programa de televisão. Capitaneado pelo mais famoso e longevo apresentador de auditório, Sílvio Santos, a atração se chamava Domingo no Parque. O espaço de diversões não era propriamente físico, mas, como costuma hoje acontecer com os celulares, virtual. Assistia-se aos pequenos tomando parte em jogos variados, embalados por canções de fácil assimilação, anedotas do mestre-de-cerimônias e palmas da claque que comparecia aos estúdios da TVS, como então se chamava o atual Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT.

O Programa Sílvio Santos parecia interminável, com atrações que se sucediam sem pausa até a noite avançada. A coisa culminava com o show de calouros e uma constrangedora sessão de encontros chamada Namoro na TV, em que rapazes e moças eram publicamente escolhidos ou rechaçados. Entre outras atrações, completava o domingo eletrônico uma competição entre grupos de universitários, com contendas de todo tipo, uma espécie de gincana chamada Cidade contra Cidade. Seu principal legado foi ter lançado como personagem nacional aquele que se tornaria conhecido como Sérgio Malandro.

Tudo isso veio à memória nas últimas semanas porque Sílvio foi, uma vez mais, protagonista de um episódio lamentável, desta vez ao interagir em seu programa com a cantora Cláudia Leite. Ao negar-lhe o abraço porque o ato lhe excitaria, visto que a moça estaria vestida de forma muito sensual, o apresentador foi mais uma vez abusivo em suas relações com mulheres. As críticas a ele foram feitas, situações outras foram lembradas, o ex-camelô de estrondoso sucesso televisivo foi defendido por familiares e colaboradores.

Não tenho dúvidas de que Sílvio foi criticado de forma justa pelo indefensável ato, mas não deixa de impactar que alguém ainda se surpreenda com ele. Entendo que nossa sensibilidade mudou ao longo do tempo, assim como a capacidade de crítica, resistência e oposição aos desrespeitos a abusos. Mas o animador de auditório nunca foi melhor que isso, tampouco seus programas: celebração do vazio, ou, melhor, entupimento dos sentidos humanos com o que há de pior, mobilizando uma energia vital rara e que poderia, em meio aos impulsos reificadores da semana de trabalho, ter uma destinação melhor, que fosse, por exemplo, de descanso. Sim, porque o abusivo programa de televisão é caso típico de produção disfarçada de fadiga, aquela que reproduz a lógica da exploração do trabalho mobilizando sentidos e dando perverso contorno aos desejos.

Ou seja, uma porcaria.

A televisão já foi muito criticada e, antes de sua versão a cabo no Brasil, era execrada, não sem boas razões, pelos bem pensantes da nação. A programação era péssima, e ainda é, mas sempre houve e há coisas boas. Malu Mulher foi um seriado importante, Regina Duarte (sim, ela mesmo, que recentemente afirmou que quer ser “palpiteira” no governo Bolsonaro) representava, no contexto da luta pela instituição do divórcio no Brasil, a mulher que, separada do marido, administrava vida familiar, trabalhava, tinha namorado. Ontem, como hoje, bons atores atuam nas produções, algumas delas experimentais e vanguardistas, como as de Luiz Fernando Carvalho.  Mas isso ainda é exceção e se a TV seguir o que vem sendo, a realidade não permite que se tenha boas expectativas.

A televisão mudou, tecnicamente evoluiu, os canais a cabo chegaram faz tempo, as plataformas digitais oferecem um sem-número de possibilidades. O mundo é outro? Talvez. Mas Sílvio Santos segue na ativa. Parece eterno, com o microfone colado no peito, a incontinência verbal, as piadas de mau gosto. E com a bajulação ao Presidente da República. Sílvio já anunciou que está por voltar uma parte de seu show dominical que anda ausente já há muitos anos.

A semana do presidente, narrada pela voz sem rosto de Lombardi, contava de forma elogiosa o que o mandatário fizera e onde estivera em dias anteriores. A lembrança mais clara que tenho da bizarra atração é de quando ela se dedicava ao ditador João Batista de Oliveira Figueiredo. A tentativa era a de tornar palatável a figura grotesca que, segundo ela mesma, preferia o cheiro de cavalos ao de povo. O general de cavalaria deixaria o Palácio do Planalto, em 1985, com baixíssima popularidade, em meio ao caos econômico e à democratização mais que incompleta.

Não sei dizer se Sílvio Santos ajudou a tornar mais tranquila a relação de Figueiredo com a população, ainda que seja muito provável que para ele e seus interesses não deve ter sido ruim. Vamos ver o que no ano que vem acontecerá com a imagem de Jair Messias Bolsonaro, também militar, igualmente autoritário, mas, com a diferença fundamental de que sua escolha passou pelas urnas. Não é pouco, há que se respeitá-la, ao mesmo tempo em que devemos refletir a quantas anda nossa democracia. Suponho que o culto à personalidade será ainda maior, considerando o que se viu na recente disputa eleitoral.

Nos anos 1970, havia uma piada que dizia que Sílvio era o maior químico do mundo, o único capaz de transformar o domingo em excremento. Naquela mesma época, um grafite perto da casa de meus avós paternos, no Brooklin Paulista, São Paulo, não deixava margem para hesitação: “mande tudo à merda, quebre sua televisão”. Já escreveu um filósofo que no pútrido se encontra algo da verdade.

As falas desrespeitosas de Sílvio Santos, como a destinada à Cláudia Leite, nos exigem a crítica, sem dúvidas. Sua história, que é a do entretenimento no Brasil, a da televisão brasileira, não permite, no entanto, que se nos sintamos autorizados a esperar algo diferente. Não vai dar.

Ilha de Santa Catarina, dezembro de 2018.

 

Imagem de destaque: SBT/Fotos Públicas

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