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EXISTENCIALISMO E EFEMERIDADE NA EDUCAÇÃO: uma análise filosófica dos cemitérios, sua simbologia e impactos

Vagner Luciano de Andrade
Maria Mazzarello do Nascimento Pena (*)

 

Pretendemos, aqui, apresentar o espaço cemiterial como uma ferramenta educativa para as aulas de Filosofia ou Religiosidade, uma vez que o tema permite trabalhar, além do aspecto religioso explícito, atributos artísticos, históricos, biológicos, filosóficos, antropológicos e ambientais aplicáveis a vivências didáticas interdisciplinares.

O desenvolvimento da temática cemiterial no espaço escolar pode proporcionar uma significativa contribuição em diferentes campos como, por exemplo, na formação da identidade dos alunos, na possibilidade de geração e partilha de experiências significativas, no desenvolvimento de valores, reavaliação e/ou reafirmação de crenças, bem como na formação de um futuro com percepção amplificada quanto a aspectos das condições humanas.

Historicamente, os cemitérios compõem, junto com outros elementos humanos e naturais, a paisagem de um determinado lugar. Como componente dessa paisagem, carrega consigo um emaranhado de contextos socioculturais, alternando permanências e rupturas, espacialidades e temporalidades.

Fotografia de Maria Mazzarello do Nascimento Pena (2017)

Cemitério, necrópole ou sepulcrário é o lugar onde se sepultam os cadáveres e destaca-se pelo além de seus objetivos iniciais, pela complexidade de seu simbolismo alicerçado na humanidade. Datado da pré-história, o início do sepultado humano, é carregado de sentidos e significados existenciais diante do mistério da morte e a impotência perante a efemeridade da vida.  Etimologicamente, a palavra origina-se do latim tardio coemeterium, derivado do grego κοιμητήριον [kimitírion], a partir do verbo κοιμάω [kimáo] “pôr a jazer” ou “fazer deitar” e foi dada pelos primeiros cristãos aos terrenos sagrados destinados à sepultura de seus mortos. Algumas das grandes civilizações da Antiguidade, inclusive, foram conhecidas e decodificadas através de seus túmulos e monumentos mortuários.

Os cemitérios ficavam, geralmente, fora dos muros das cidades, longe das igrejas e respectivos adros, pois a prática do enterro nestes espaços era desconhecida nos primórdios da era cristã. Posteriormente passou-se a vincular os sepultamentos nos adros das igrejas por uma crença religiosa de que facilitaria a continuidade da vida religiosa no além, bem como a garantia de morada celestial.

A partir do século XVIII, criaram-se sérios problemas de insalubridade nas proximidades dos templos decorrentes da falta de espaço: os esquifes se acumulavam, causando poluição e transmissão de doenças. Uma lei inglesa de 1855, ampliada posteriormente em escala mundial, regulou os sepultamentos, os direcionando para fora dos perímetros urbanos.

Culturalmente, os cemitérios, verdadeiros “museus a céu aberto” sempre foram visitados, prática atualmente denominada de turismo cemiterial, nos quais são identificados elementos históricos e arquitetônicos que demonstram a vida social e artística, através de imagens esculpidas ou fundidas, fotos, epitáfios, símbolos e outros aspectos das lápides e túmulos, valorizando e exaltando sua preservação enquanto patrimônio e espaço gerador de saber. Sendo que, em muitas cidades existem necrópoles nas quais os rituais funerários são cumpridos de acordo com a respectiva religião ou fraternidade, bem como também existem casos de cemitérios nacionais para o sepultamento de chefes militares e figuras notáveis da vida pública.

Atualmente, os cemitérios são locais de pesquisa das crenças religiosas, formação étnica, estudos genealógicos, perspectivas e modos de vida, ideologias políticas, gostos artísticos, e, portanto, indispensáveis à preservação da memória familiar e coletiva – exemplo disto é que na Europa existem diversas necrópoles medievais que, quando escavadas, forneceram fontes históricas para a compreensão de certos hábitos alimentares, doenças e anatomia do homem da Idade média.

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Neste sentido, o cemitério, enquanto elemento histórico da paisagem local faz parte do roteiro de visitação turística em diversas regiões do mundo, como por exemplo, o Père-Lachaise, em Paris, onde se encontram os túmulos de Allan Kardec e Auguste Comte. Em Londres, Inglaterra ,destacam-se os cemitérios de Kensal Green e Highgate  e na Itália, os cemitérios de Gênova e Milão. No Brasil destacam-se na capital paulista, os Cemitérios do Araçá e da Consolação, e em Buenos Aires, Argentina, o cemitério Recoleta.

Longe das paisagens urbanas há recantos de paz e espiritualidade vinculados aos cemitérios. Particularmente em Minas Gerais, o vilarejo conhecido como Cemitério do Peixe, cercado por fazendas e pertencente à cidade de Conceição do Mato Dentro, ilustra uma página pitoresca desta abordagem. Surgido de uma fatalidade, o pequeno vilarejo – com duzentas casas, uma pequena Igreja Católica e um cemitério, foi fundado a partir da morte, a aproximadamente 200 anos, de um padre chamado Peixe que seguia em viagem a partir de Santana de Pirapama e com destino a cidade de Conceição do Mato Dentro. A viagem era longa e apresentava certos perigos. Caindo enfermo, o padre faleceu e ali mesmo foi enterrado, onde, na sequencia, familiares mandaram construir o cemitério delimitado por alvenaria baixa de pedras. Foi, portanto, uma lápide, o marco fundador daquele vilarejo. Hoje, a localidade chama atenção pelo fato de contar com apenas três moradores. Embora todos os anos, na primeira quinzena de agosto, entre os dias 11 e 15, receba milhares de pessoas dentre romeiros, turistas e festeiros que vão celebrar e festejar o jubileu de São Miguel e Almas, vivenciando as particularidades históricas, culturais e sociais ainda preservadas.

Diante da riqueza do tema, consideramos que a pesquisa cemiterial não deve ficar apenas na discussão acadêmica, mas difundir-se a alunos do ensino fundamental (séries finais) e do ensino médio a partir das aulas de História, Religião, Filosofia, Sociologia, Arte e Teatro. Esta prática pode proporcionar a atenção dos alunos  para assuntos que permeiam o campo da religiosidade, através da prática pedagógica interdisciplinar e abordagem antropológica social nas aulas de Ensino Religioso.

https://goo.gl/BBasJc

(*) Publicitária e Historiadora. Educadora e Mobilizadora Socioambiental da Rede Ação Ambiental. Coordenadora do Projeto BONFIM. E-mail: mariareciclona@gmail.com.br

PARA SABER MAIS:

http://www.abhr.org.br/plura/ojs/index.php/anais/article/viewFile/391/342
http://ecoeacao2012.blogspot.com.br/2016/10/turistas-alemaes-seduzidos-por.html
http://ecoeacao2012.blogspot.com.br/search?q=cemit%C3%A9rio

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