Foto: Gustavo Mazzeti

EJA: AVALIANDO O QUÊ

Dalvit Greiner

Aberta a temporada de Conselhos de Classe, passemos a Educação de Jovens e Adultos. Lembremo-nos daqueles estudantes que não concluíram o ensino fundamental nos seus nove anos regulares. Lá estão eles, alguns pelo castigo de professores e professoras que insistem em usar a avaliação como instrumento punitivo; outros porque, segundo a avaliação punitiva não estavam em condições de serem encaminhados ao ensino médio. Na Educação de Jovens e Adultos estão também aqueles que retornaram recentemente à escola. Estão se refazendo de uma sociedade que os discrimina pelo fato de não terem um certificado de ensino fundamental.

Até o ano passado, a EJA padecia de um processo avaliativo muito estranho parecido com o ensino fundamental regular – que continua nesse ano, mas com promessas de mudanças. Quesitos que não fazem sentido, registros que transmitem pouco do que se passa numa sala de aula e tudo isso porque é preciso seguir um formulário colado no diário da turma. Registrar disciplinas que não contemplam as necessidades de nossos estudantes jovens e adultos.

Algumas escolas rompem tranquilamente com isso: desenvolvem seus programas com certeza e tranquilidade, mas não os registram em seus diários de turma. Eles não cabem lá. Criam-se então registros paralelos que não são considerados pela Secretaria de Educação porque não se encaixam na burocracia exigente. Registram, para a burocracia exigente, um rol de disciplinas e um cotidiano fictício não divulgando ali a escola viva e vivenciada nas diversas atividades letivas.

Outras escolas preferem seguir a orientação oficial. Seja pela pouca discussão dos sentidos e significados da Educação de Jovens e Adultos, seja pela recusa a essa discussão, pois nos leva a um outro modelo de escola. Há problemas nos dois lados, mas ambos são políticos. Os problemas, creio, começarão a se resolver quando se pensar neles por meio de um processo formativo e continuado em serviço. Sobre e diante da realidade de cada microcosmo que é a escola e a comunidade.  É urgente, pois, que se construa e execute uma sólida agenda de formação continuada para que nosso estudante não se frustre mais uma vez. E a avaliação é muito significativa para ficar fora da pauta.

Mas, ainda não será em 2017 que as escolas e os estudantes ficarão livres dos 60 pontos. Não há processo formativo na avaliação que resista a uma notação tão cruel e autoritariamente imposta nos anos anteriores. A notação imposta não diz nada de nenhum estudante, em qualquer grau ou modalidade que esteja. Na EJA não faz o menor sentido. A notação na EJA de Belo Horizonte é usada para esvaziar as escolas expulsando, mais uma vez, os estudantes que para ela retornaram.

E como se dá essa expulsão? Nosso estudante jovem e adulto vem de uma cultura que ele vivenciou. Se não tirasse sessenta por cento dos pontos não passava de ano. É isso que ele traz da escola que lhe foi negada. Porém, quando ele volta não procuramos desenvolver nele outro sentido para a avaliação. As orientações da secretaria nos impedem na medida em que se instituiu os sessenta por cento. A tendência, então, é fazer com que o estudante alcance os sessenta por cento. Se não consegue, corre-se o risco de frustrá-lo com a possibilidade de bomba e ele abandonar novamente a escola. (O vocabulário é estranho, mas é isso mesmo que se vivencia!). Obtidos os sessenta por cento, esse estudante é certificado e sai do sistema.

Mas, e se esse estudante sentir necessidade de permanecer mais tempo na EJA? E se esse estudante ainda não se sentir em condições de enfrentar o ensino médio? E se esse estudante simplesmente quiser permanecer mais tempo para consolidar seus conhecimentos? Não pode. O sistema o reconhece como concluinte e não o matricula novamente. Simples assim: ele está fora. Fora do sistema com todas as seus desejos e necessidades não satisfeitos.

Isso é uma tentativa de reduzir – e até mesmo acabar – com essa despesa do sistema escolar, na medida em que as políticas encaminhadas na EJA vêem a modalidade como um gasto que não deveria existir. Aligeira-se processos. Tenta-se acabar com a despesa nas duas pontas, ambas justificadas pela avaliação. No ensino regular, notações que não refletem o aprendizado, mas que agradam as estatísticas. Ou então usa-se a avaliação para punir e adiar a entrada do adolescente no ensino médio: não se pensa no seu aprendizado, na medida em que ele só pode ficar mais um ano. Para os que retornam à escola, têm direito a apenas mais um ano, na medida em que tudo se encaminha para os sessenta por cento que, ao não respeitar suas necessidades e seu ritmo, expulsa-o no final de ano. Ou antes.

Precisamos criar uma avaliação na EJA que ouça esse estudante, investigue seus desejos e suas necessidades e que ao atendê-lo contribua, de fato, para o seu retorno ao sistema escolar. Não o contrário. Do contrário, supletivizamos a Educação de Jovens e Adultos.

Foto destaque: Gustavo Mazzeti

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