Cemitério

Educação patrimonial e paisagem local: Ecologia e Filosofia no Cemitério do Bonfim, Belo Horizonte – MG

Vagner Luciano de Andrade
Maria Mazzarello do Nascimento Pena*

 

Este artigo tem como objetivo apresentar o Cemitério além de seu sentido religioso como espaço artístico e, portanto,educacional. A partir da última década do século XX intensificou-se o debate sobre a validade dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) definidos pelo Ministério de Educação e sua aplicabilidade nas diferentes realidades escolares presentes no país. Desse modo, faz-se necessário apresentar aos alunos a utilidade prática dos assuntos desenvolvidos dentro das ciências humanas, seja na disciplina de História, de Geografia, de Arte, de Sociologia, de Filosofia, de Ensino Religioso ou de Teatro. Desta maneira, é de extrema importância o resgate desse aluno por meio de um assunto que gere a curiosidade, o aprendizado, o desenvolvimento de múltiplas habilidades, o pensamento filosófico, a consciência religiosa e a contemplação artística. Assim, apresentamos o cemitério como um recurso prático-pedagógico interdisciplinar para as aulas das Ciências Humanas, considerando que, conforme a idade, as visões da morte assumem aspectos diferentes.

O primeiro cemitério belo-horizontino, o Cemitério do Bonfim,surgiu ainda em tempos da mudança de capital. Substituiu os sepultamentos até então realizados na Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem. Em 1940,diante do crescimento da nova capital mineira, construiu-se outra necrópole, no Bairro da Saudade, localizado na zona leste. Já emmeados da década de 1960, a cidade ganhou dois modernos cemitérios, o Cemitério daConsolação e o cemitério da Paz, inspirados na concepção de cemitérios-parques ou cemitérios-jardins. Aqui a questão cemiterial sai das abordagens humanas para dialogar com as questões ambientais delineando interdisciplinaridade.Estes, por sua vez, rompem com a imagem tradicional das necrópoles com jazigos e monumentos de mármore, substituindo-os por parques arborizados.Conhecidos como memorial parks,e origináriosdos Estados Unidos, sua principal característica é a paisagem, sem a presença de arte tumular,com placas de metal, bronze ou granito colocadas sobre o gramado, localizando-se assim a sepultura. O primeiro cemitério-jardim no Brasil foicriado em 1965 no bairro do Morumbi, em São Paulo. A maioria dos cemitérios particulares construídos hoje no país é na modalidade cemitérios-jardim, que, por sua vez, rendem boas aulas práticas de filosofia, ecologia e ciências naturais. Esses cemitérios aparentemente promovem a igualdade entre os homens, sem discriminação econômica. Porém, a ausência de ostentação e a representação simbólica da riqueza não retiram o caráter de desigualdade gerado pela concessão privada do jazigo. Neste contexto, materializam-se como potencializadores de reflexões com os alunos acerca das desigualdades sociais e da segregação/expropriação decorrentes do modelo societário vigente.

Fotografia de Maria Mazzarello do Nascimento Pena (2017)

No campoda docência em História, por exemplo, a despeito das diferenças locais, regionais e estruturais, os cemitérios construídos em meados do século XIX em diversas capitais do império brasileiro contêm elementos de interseção. Eles resultam da mentalidade do período: as medidas médico-sanitaristas que orientavam acerca do melhor e mais adequado método para inumação dos corpos traduzem desejos de vaidade, poder, glória, por meio das construções tumulares e, neste sentido, são depositários de um acervo que traduz valor histórico e estético, que destacam os cemitérios oitocentistas como espaços singulares. São lugares de recordação, do cultivo da memória individual e coletiva e traduzem um eloquente desejo de perpetuação e lembrança. Materializam-se como recorte pedagógico ao propiciarem a percepção sobre tais elementos e sobre as relações tecidas no tempo e no espaço. São permanências e rupturas que eclodem num espaço de silêncio, contemplação e reflexão.

As visitas pedagógicas no Bonfim tendem a serem ampliadas, dada à riqueza de abordagens. É cada vez mais comum,no local, alunos de diferentes classes sociais e idades transitando por entre os túmulos num misto de aventura e descoberta. Erguido em 1897, fora do perímetro urbano da capital mineira, o cemitério absorveu em seu projeto e concepção o mesmo referencial da cidade construída. O planejamento de sua localização implicava em também projetar sua linguagem estética e arquitetônica. Para tanto, a equipe de arquitetos e desenhistas da Comissão Construtora da Nova Capital de Minas (CCNCM) elaborou projetos que definiam os aspectos básicos do local, desde o portão principal, a casa do zelador até o necrotério. No espaço dos mortos, cultura, religiosidade, história e geografia se entrelaçam nas alamedas e túmulos. Tradição e modernidade oscilam de sepultura em sepultura.

Fotografia de Maria Mazzarello do Nascimento Pena (2017)

 

O Bonfim, porém não se atrela somente às ciências sociais e humanidades, sendo um grande laboratório pedagógico de ecologia e biologia. Nele, com os alunos, a ideia é pensar “existe vida no cemitério?”. A resposta é sim, e professores são convidados a trazerem seus alunos para juntos descobrirem a riqueza biológica no respectivo espaço. Anecrópole também se destaca por apresentar maiores impactos ao meio ambiente em decorrência da pouca vegetação nativa que ocasiona erosão e carreando solo, assoreia recursos hídricos superficiais do entorno. Dentro de perspectivas de educação socioambiental, este tipo de cemitério amplia a taxa de impermeabilização local impedindo a infiltração da água pluvial. Portanto, se sua escola não dispõe de uma laboratório de ecologia e biologia, por favor, agende uma visita guiada ao cemitério do Bonfim.

Evidenciando conceitos pedagógicos trabalhados na área de Ciências Naturais e Ecologia,a concepção paisagística do modelo de parque é o mais indicadopela possibilidade de construção de sustentabilidade, no que se refere à decomposição dos corpos. Os inúmeros túmulos aumentamo calor retido em superfícies, fato semelhante à chamada “ilha de calor”, muito comum em grandes centros urbanos, e os alunos podem observar “in loco” esta questão. Superfícies absorvem o calor durante o dia, aquecendo-se consideravelmente, e só no final da tarde e início da noite vão gradativamente devolvendo calor para a atmosfera.

Ainda pensando em conteúdos curriculares, na contemporaneidade, a prática da cremação, comum no Oriente, permitiu um destino sanitário, evitando-se assim a contaminação do solo e lençol freático com o necrochorume e a otimização de espaço. Mas é importante discutir que a morte é um rito cultural que deve ser compreendido a partir de suas nuances e particularidades. São várias as perspectivas pedagógicas que transitam da abordagem sobre processos naturais de deterioração e putrefação no ecossistema,decorrentes da ação dos decompositores, à existencialidade e efemeridade dos corpos humanos que ganha singularidades filosóficas e sociológicas. Evidentemente o que não falta em um cemitério são as abordagens pedagógicas conectadas às demandas e perguntas do tempo presente.

Pensar em trazer novas temáticas educacionais e diferentes abordagens de ensino é uma necessidade, que se faz ainda maior quando lidamos com uma geração de múltiplas capacidades e com excesso de informação, mas carente de direcionamento, principalmente na sua relação com os preceitos de valores sociais. Nesse sentido, o trabalho com projetos sobre a temática cemiterial oportuniza novas abordagens e desperta outras perspectivas de aprendizado, visto que o cemitério revela diferentes representações sociais, sendo fonte reveladora das posições da população local perante a morte. Os epitáfios, as fotos e a decoração das sepulturas revelam, geralmente de forma idealizada, como o morto é visto pelo seu grupo familiar e social.A visita educativa cemiterial é, portanto, uma propostaarticulada e gestada como tema gerador e norteador de novas posturas e práticas educativas demandadas pela atualidade. Trata-se, portanto de uma ferramenta que auxiliará no resgate de uma nova forma de ver a morte, mas, sobretudo, de ensinar e de aprender sobre a importância e singularidade da vida.

Fonte: blog Dicasdacabrita


(*) Maria Mazzarello do Nascimento Pena é Publicitária e Historiadora. Educadora e Mobilizadora Socioambiental da Rede Ação Ambiental. Coordenadora do Projeto BONFIM. E-mail: mariareciclona@gmail.com.br

Imagem destaque: Maria Mazzarello do Nascimento Pena (2017)

PARA SABER MAIS

http://www.anais.est.edu.br/index.php/teologiars/article/download/186/147

http://www.otempo.com.br/cidades/cemit%C3%A9rio-do-bonfim-passa-a-integrar-oficialmente-roteiro-tur%C3%ADstico-de-belo-horizonte-1.707461

http://aqui.uai.com.br/app/noticia/cadernos/cidades/2013/09/04/interna_cidades,37820/cemiterio-do-bonfim-na-rota-turistica.shtml

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