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Educação, experiência do sagrado e religiosidade: um breve esboço conceitual

Vagner Luciano de Andrade

A história brasileira é a historicidade da negligência e do descaso, mas também do resgate, da reconstrução, da reinvenção. Culturalmente, brancos, indígenas e negros se autoafirmam e se legitimam seres existencialmente religiosos. Isso é uma necessidade cultural que expressa permanências e rupturas no espaço e no tempo. O mundo se refaz numa ciranda de diversidades sagradas e sacralizadas de acordo com a percepção, a memória, e a identidade de um povo. E enriquece a cultura local através da ancestralidade, da corporeidade, da musicalidade e da religiosidade. Para Mircea Eliade, em seu livro O Sagrado e o Profano, independentemente do grau contemporâneo de dessacralização do mundo, o homem que opta por uma vida profana não abole completamente o comportamento religioso, sendo esta a natureza humana maior (PEREIRA, 2016). Este autor atesta que “até a existência mais dessacralizada conserva ainda traços de uma valorização religiosa do mundo”. A religião molda o mundo desde tempos pretéritos tendo um peso inegável. Os homens pré-históricos, bem como aqueles do Medievo e da Antiguidade situaram-se no mundo pela economia e politica, mas, sobretudo pela religião. Esta realidade não seria diferente no Brasil, estado laico de direito, porém uma das maiores nações cristãs do mundo moderno. A experiência do sagrado para afro-brasileiros e ameríndios contemporâneos é um exercício democrático da redescoberta, da reinvenção na roda da coletividade. O turismo religioso é um dos potenciais brasileiros a serem evidenciados no futuro. Apesar da maioria dos atrativos serem vinculados à tradição cristã, muito há para se descobrir e mapear no País. Igrejas e capelas, festas religiosas se multiplicam em diferentes localidades e paisagens. Muitas são consideradas de extrema relevância cultural e tombadas enquanto patrimônios materiais e imateriais.

“Primeira Missa no Brasil” (1860) de Vitor Meirelles. Acervo MNBA.

A Religiosidade, por sua vez registra a temporalidade e a historicidade com vistas à reformulação e ao reconhecimento de erros etnocêntricos pretéritos. Contam os registros principais que o Brasil fora descoberto por portugueses que se encontravam a caminho das Índias. Chegaram às terras desconhecidas e contataram povos “estranhos” tidos como selvagens que denominaram de índios. Aqui começa a história da violação, do crime, da barbárie a que foram submetidos os povos silvícolas resultando em drástica aculturação e redução populacional. A catequização dos gentios pelos jesuítas é o registro histórico da descaracterização imposta à parcela significativa de ameríndios. Na sequência, ao se implantar sistemas produtivos, o indígena é gradativamente substituído pelo negro, utilizado como “coisa” originando-se a drástica história da escravidão humana da qual o Brasil é vergonhosamente, um dos últimos a abolir no mundo. As matrizes religiosas africanas foram notadamente proibidas gerando resistências e reinserções do povo afrodescendente. Os cultos muitas vezes secretos, mesclavam sincretismos das divindades africanas com santos da tradição católica com intuito de permanecer a fé, mesmo que camuflada. Desta constatação resultam os templos dedicados à tradição do Rosário, em muitas cidades e distritos do país e ás festividades do Congado. Nas igrejas e irmandades dos brancos, veemente proibia-se o acesso, permanência e sepultamentos daqueles preconceituosamente considerados inferiores por serem negros. Hoje a temática pedagógica de Africanidades e Cultura Indígena estão obrigatoriamente expressas em legislação. Ao se criar uma abordagem interdisciplinar, expressa, em lei, para se trabalhar os conteúdos associados a estas duas culturas prioritárias à formação da nação brasileira empreende-se um legado incontestável.

Festa de Oxalufan de Carybé.

Assim a educação não pode se furtar ao papel de esclarecedora, em partes, dos erros do um passado de negligência e anulação. Neste contexto, insere-se a disciplina de Educação Religiosa, o antigo componente curricular denominado de Ensino Religioso ou Religião. Neste âmbito, o destaque fica com a proposta do Governo Estadual do Paraná para o ensino fundamental, que se estrutura em eixos temáticos por ano escolar:

  • 2º ano: respeito à diversidade religiosa;
  • 3º ano: lugares sagrados;
  • 4º ano: textos sagrados orais e escritos;
  • 5º ano: organizações religiosas;
  • 6º ano: universo simbólico religioso;
  • 7º ano: ritos, rituais e celebrações;
  • 8º ano: turismo, cultura e festas religiosas;
  • 9º ano: vida, morte e sepultamento.

De um passado de conteúdos catequizadores ao contexto recente de Religiosidade, a disciplina se destaca por propor o conhecimento das Religiões e Religiosidade, numa perspectiva filosófica e sociológica. A religiosidade do indígena, assim como do afrodescendente escravizado é um exemplo ímpar de cuidado, de zelo e de ética desconhecidos dos civilizados brancos europeus. O cuidado para consigo mesmo, com o outro, com a natureza denotam a ideia de conexão de reciprocidade e de sintonia dos homens com o Cosmo. Assim, mais que um sentido e uma explicação plausível para o Inexplicável, os indígenas e afrodescendentes nos trazem experiências do Sagrado e sua religiosidade que nos fazem pensar no paradigma contemporâneo e nas suas mazelas. Que sociedade criamos, onde a égide prioritariamente cristã nega o outro e sua condição maior, e que prática religiosa é essa que apregoa o narcisismo, o individualismo, o consumismo, a alienação, a exclusão? Precisamos rever nosso projeto de sociedade e noção redefinindo a concepção de coletividade. Aprendamos com os índios e negros, o cuidado com a Terra Mãe que acolhe a vida. Aprendamos com os indígenase afro-brasileiros, a mística do coexistir entre irmãos, mas acima de tudo, aprendamos que uma nova ordem social se faz e refaz no respeito à diversidade e às diferentes formas de ser/estar no mundo. Assim, os saberes e fazeres materializados nas práticas religiosas ameríndiase africanas nos induzem a pensar e repensar a história do branco opressor que vem destruindo espaços, paisagens e culturas. É preciso repensar, mas acima de tudo valorizar novas formas de pensar que despriorizem a égide da Cristandade enquanto “Única Verdade”, portanto absoluta e incontestável. Há muitas “verdades” e caminhos a serem entendidos e acolhidos.

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