“É um prazer falar sobre minha infância”: história oral na escuta de memórias de infância de professoras em diferentes décadas

João Dimas Nazário*

A infância, que parece tão distante do suposto amadurecimento da vida, aproxima-se de nosso presente, do agora, e repentinamente familiariza-se com ele no instante em que um odor, um som ou um sabor manifestam-se em nosso aparato sensorial. Também, as repetições de nossos gestos e de nossas palavras, por sua vez, apagam as recordações anteriores. Quando repentinamente nos olhamos no espelho, podemos nos surpreender com as marcas do tempo que apareceram em nosso rosto sem que as houvéssemos percebido todas as outras inúmeras vezes em que nos observamos no espelho – isso é memória, segundo Portelli.

No ano de 2016 pude entrevistar para o Seminário Especial História Oral (PPGE/UFSC), ministrado pela Prof. Dra. Clarício Otto, dez professoras catarinenses nascidas entre os anos de 1943 e 1994, sendo três já aposentadas e as outras sete em pleno exercício da atividade docente na educação básica. Com histórias de vida, especialmente de suas infâncias, essas professoras são testemunhas de uma parte da história da profissão docente. A pesquisa partiu dos seguintes questionamentos: até que ponto a memória da infância se faz presente em suas lembranças? Estabelecem relações entre as infâncias que viveram e as que as crianças vivem hoje? Há semelhanças entre as diferentes narrativas dessas mulheres? O que é lembrado e o que é esquecido no processo de construção de suas narrativas? Levou-se em consideração que “uma pesquisa que emprega metodologia de história oral é muito dispendiosa” e que “fazer história oral não é simplesmente sair com um gravador em punho, algumas perguntas na cabeça e entrevistar aqueles que cruzam nosso caminho com disposição de falar um pouco sobre suas vidas”, nas palavras de Verena Alberti. Faz-se necessário enfatizar também que as narrativas ouvidas não foram entendidas como provas de histórias vividas tal e qual são narradas, mas como representação do vivido, levando-se em conta que “lembrar não é reviver, mas, refazer, repensar, construir com imagens e ideias de hoje as sequências do passado” (BOSI).

No desejo de conversar sobre memórias de infância de professoras catarinenses, iniciou-se um processo de busca em sites de pesquisa na internet, com o objetivo de saber sobre a relevância deste tema para a pesquisa em história da educação. Ao separar alguns trabalhos para leitura, verifiquei que pouco se tem falado sobre infância a partir de fontes de memória oral em pesquisas em história da educação. Desta forma, delimitei as memórias de infância como recorte para meu projeto de pesquisa, com enfoque em memórias de professoras, pois são mulheres, mães, avós, trabalhadoras da educação. Para localizar as entrevistadas, foi escolhida a rede social Facebook, na qual, em minha linha do tempo, publiquei a seguinte postagem: “precisa-se de voluntárias para uma pesquisa: professoras e ex-professoras, que viveram suas infâncias no período de 1940 a 1990, que nasceram e trabalharam/trabalham em Santa Catarina”. 276 mulheres se disponibilizaram a participar, das quais, como critério de escolha, optei pela seleção das dez primeiras que retornassem o segundo contato.

Dados das entrevistadas

Idade Estado Civil Tempo de magistério
72 anos Casada 33 anos (aposentada 20 anos)
69 anos Viúva 30 anos (aposentada 10 anos)
66 anos Casada 14 anos
60 anos Casada 34 anos (aposentada 7 anos)
49 anos Casada 29 anos
42 anos “Namorida” 22 anos
40 anos Solteira 17 anos
33 anos Solteira 10 anos
26 anos Solteira 05 anos
21 anos Solteira 02 anos

Fonte: Elaborado por João Dimas Nazário.

As entrevistas foram presenciais, com duração média de 40 minutos, nos quais as entrevistadas tiveram total liberdade de falar e também de calar sempre que achassem necessário.

Trabalhar com a História da Educação utilizando-se da memória oral como metodologia de pesquisa torna-se possibilidade de ouvir minorias e valorizar todos aqueles que estejam representados nas pesquisas e investigações, valorizando vozes de pessoas, trajetórias de vida, memórias, biografias, histórias que possam dar respostas aos nossos questionamentos. Este é um dos desafios dos historiadores que se utilizam de fontes orais, de acordo com Alessandro Portelli. Ao pensar em realizar entrevistas, o pesquisador precisa ter em mente que estará construindo um “documento”, que servirá de base para sua escrita.

Trabalhar com fontes orais, na tentativa de representar a realidade, “não tanto como tabuleiro em que todos os quadrados são iguais, mas como um mosaico ou colcha de retalhos, em que pedaços são diferentes, porém, formam um todo coerente depois de reunidos.” (PORTELLI), não é uma tarefa fácil; exige do pesquisador muito empenho, dedicação, paciência, discernimento, respeito com as fontes.

Observou-se que, numa tentativa de atribuir maior sentido às suas memórias individuais, frequentemente as entrevistadas recorriam a fatos vivenciados com outras pessoas do grupo familiar ou do grupo de amigos, valorizando acontecimentos que fazem parte de uma memória coletiva.

Além disso, as entrevistas possibilitaram descortinar outras histórias, a partir da história vivida e também na história narrada, no sentido sugerido por Portelli de que estas “sempre revelam eventos desconhecidos ou aspectos desconhecidos de eventos conhecidos: elas sempre lançam nova luz sobre áreas inexploradas da vida diária das classes não hegemônicas.”, mas não no sentido de preencher lacunas juntos às demais fontes e documentos, como alerta Alberti.

Vale lembrar que pesquisar a História utilizando-se fonte de memória oral, demanda ao pesquisador um grande investimento e imparcialidade no processo. Registrar a experiência de diferentes sujeitos, revisitando tradições, interesses particulares, transformando a história em narrativas escrita, considerando-as como fonte para legitimar tempos vividos na voz de sujeitos que contam suas vidas, até então, ausentes de documentos, pressupõe navegar em linha tênue, um caleidoscópio de sentimentos.

Igualmente, se pode dizer que a história é constituída de fatos, imagens e experiências ressignificadas, e, contá-la, requer um compromisso constante de revisitação, novas analogias e amadurecimento de compreensões por vezes até consolidadas como verdades inquestionáveis e o uso de metodologias com fontes orais nos possibilita entender que memória e passado são construções que se fazem no presente, não são algo congelado.

No decorrer das narrativas, percebeu-se que as infâncias se cruzavam através das brincadeiras e dos brinquedos. As entrevistadas, ao mesmo tempo em que falavam de suas infâncias, estavam falando também de infâncias de outras crianças e suscitavam lembranças que se encontravam. As perguntas feitas serviam como trampolim para suas memórias, ao longo das entrevistas, uma avalanche de lembranças vinha à tona. Em alguns momentos muitas delas usaram o silêncio pra se expressar, o que foi possível de ser captado graças à filmagem das entrevistas.

As memórias individuais, ao longo das entrevistas, mesclaram-se a um só tempo com as memórias coletivas, que se desenvolvem “a partir de laços de convivência familiares, escolares, profissionais” (BOSI). Cada questionamento suscitava uma reação diferente: risadas, suspiros, prontidão, vozes embargadas, pedidos de desculpa, pausa, olhares fitos num determinado ponto tentando buscar na memória alguma informação, nostalgia, saudades, lágrimas. Neste sentido, percebeu-se que a “contaminação”, na pesquisa, é, algumas vezes, inevitável, como assinala Portelli: as histórias se cruzam a todo o momento, cabendo-nos, apenas, registrá-las para suas análises.

 

*João Dimas Nazário é doutorando da linha Sociologia e História da educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC.

 

Para saber mais

ALBERTI, V. Manual de história oral. 3. Ed. – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013.
BOSI, E. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das letras, 1994, 3. Ed.
PORTELLI, A. O que faz a História Oral diferente. Projeto História. São Paulo, n. 14, Fev. 1997, p. 25-39. (a)
__________. Tentando aprender um pouquinho: algumas reflexões sobre a ética na história oral. Projeto História. São Paulo, n. 15, Abr.1997, p. 13-49. (b)

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