Alexandre Fernandez Vaz Cartaz Da Serie O Mecanismo

Deseducação política

Alexandre Fernandez Vaz

Quando abro um portal de notícias e passo os olhos pelas chamadas de capa, não é raro que me confunda com as manchetes das telenovelas. Elas dizem de personagens que não conheço, com uma pequena legenda identificando o seriado e, por alguns breves momentos, tenho a impressão de que se fala de alguém que existe para além da cabeça do autor e do imaginário dos espectadores. A presença das telenovelas ainda é muito grande na grade de entretenimento dos lares brasileiros que, em passado não muito distante, tinham antes um aparelho de TV do que um refrigerador.

Acho que nunca vou conseguir distinguir de imediato o que é da ordem do imaginário e o que corresponde às notícias do dia. Minha sensação de incompetência (que, de fato, existe) ganha algum alívio porque sei que informação e entretenimento são mesclados nos discursos midiáticos, ao ponto de ser mesmo difícil identificar onde terminam ou começam um e outro. É certo que, às vezes, a distinção não é muito precisa, nem precisaria que fosse, mas um pouco mais de cuidado não seria mal.

Pensei em tudo isso ao deparar-me com a polêmica em torno da série O mecanismo, de José Padilha. Muito já foi escrito sobre tal produto, mas mesmo assim gostaria de ater-me ao ponto que mais tem sido alvo de discussões: foi atribuída ao personagem inspirado no ex-presidente Lula uma frase que pronunciada pelo senador Romero Jucá. O diretor se defendeu, e a sua obra, destacando seu caráter de ficção, de entretenimento, dizendo também que quem quisesse informação, que lesse o noticiário. A reação de Padilha é semelhante àquela que teve por ocasião das críticas sofridas pelo filme Tropa de Elite, também por ele dirigido. Se as pessoas se identificam com o Capitão Nascimento, dizia, é responsabilidade delas, não do filme.

Ambas posições não são de todo verdadeiras. No primeiro caso, por mais que seja de ficção que se trate, as referências aos recentes acontecimentos da República são por demais presentes para que se coloque na boca de um personagem claramente identificado algo que ele não disse, principalmente da gravidade que foi. As consequências não devem ser pequenas, uma vez que é como nas telenovelas (das quais as séries são o sucedâneo), já não se sabe, em um país em que a cultura visual é tão forte – e a escrita tão fraca – o que pertence à realidade e o que é da ordem do imaginário. Não se busca informações, seja porque elas já vêm filtradas nas redes sociais, seja porque o entretenimento se encarrega de interpretar por nós – e para isso, todo golpe baixo se faz válido. É o caso de Tropa de Elite, cujas narrativa, diálogos, montagem, offs, trilha sonora, enfim, tudo no filme procura a identificação com o protagonista no esquema maniqueísta do bem contra mal. História, Política? Não importa. Ah, mas é entretenimento! Sim, indústria cultural que nos impõe os esquemas de percepção e interpretação, que nos faz gozar na afirmação de nossos preconceitos.

Menciono mais dois pontos da atual despolitização do debate que derivou primeiro em gritaria, mas que agora parece que se aproxima, definitivamente, de práticas fascistas. Ou seja, já não é mais desavença entre amigos e familiares, em rede social, o assunto, nem mesmo de difamação ou calúnia, mas de assassinato. A execução de líderes populares vem acontecendo diuturnamente, ainda que com pouca visibilidade, se comparada à da vereadora Marielle Franco e à do atentado sofrido pela caravana de Lula.

Eis o Brasil cordato e indivisível, contra o qual o ódio, o “nós contra eles”, teria sido há pouco inaugurado pelo ex-presidente. Este sempre foi um território dividido entre poderosos e subalternos, desde que era colônia. Se a forma de vida que hoje vige nos separa em classes, isso não é resultado da opinião ou denúncia de alguém, mas das condições materiais de vida. Mais uma vez, impressionar torna-se mais importante do que a possibilidade de reflexão. Uma afirmativa repisada como a de que um sujeito político quer separar o Brasil em “nós e eles” (é absurdo que alguém pense que isso seria possível, mas, sim, os há), multiplicada pelas redes de comunicação é assumida como verdade.

Universalidade, crítica social, pluralidade, pensamento, inteligência, liberdade. Tudo isso vem sendo atacado nos últimos tempos e é triste que, a essas alturas da vida, ainda se tenha que ouvir coisas como “ideologia de gênero” e “escola sem partido”. Enganou-se quem, como eu, pensou que atingíramos nos últimos anos um plano democrático do qual já não seria possível retroceder.

O tal Brasil cordato e indivisível é o mesmo que ouviu uma atriz famosa dizer, em 1994, que entre Sartre e o encanador, era preciso escolher o primeiro para Presidente da República. Referia-se a Fernando Henrique Cardoso e a Luiz Inácio Lula da Silva. Para a elite nacional e para as camadas médias que lhes lambem as botas, lugar de encanador é na cozinha, área de serviço e banheiro. Para trabalhar, bem entendido. Jamais na sala de jantar. Muito menos com consciência política para liderar projeto de reforma social.

Uma esfera pública mais ampla e plural, menos multiplicação de slogans e espelhos, um pouco mais de leitura – das letras, das imagens. Mais política, menos violência.

Não vou assistir a O mecanismo.

* Lula está preso. Faço um minuto de silêncio, não por ele, que seguirá forte, assim como as ideias que representa (de minha parte, admiração e críticas seguem, como sempre). O minuto de silêncio é para este país, que com tudo isso morre um pouco mais a cada dia. Morre em esperança.

Ilha de Santa Catarina, abril de 2018.

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