Raquel

Desafios nacionais para os anos Finais do Ensino Fundamental

Raquel Angela Speck

 

Qual é a situação do Ensino Fundamental nos anos finais, atualmente, no Brasil? Qual a capacidade que o sistema público de ensino tem demonstrado no que diz respeito a produzir uma boa aprendizagem nesta etapa da educação brasileira?

Basta que analisemos os dados de avaliação da Educação Básica para perceber que o percentual de alunos com uma aprendizagem adequada tem sido pouco animador. Os resultados da última edição da Prova Brasil indicam alguma melhora em relação à edição anterior, mas os números ainda deixam perceber que há grandes lacunas a serem resolvidas.

Para iniciar esta análise é preciso considerar que a educação está organizada em etapas, de forma que cada uma delas tem a função de dar continuidade aos conhecimentos trabalhados na etapa anterior. Avançar satisfatoriamente nesse continuum irá depender do quanto se aprendeu nas fases anteriores. Quanto mais se acumulam dificuldades de uma etapa para outra, muito mais provavelmente tais dificuldades se agudizarão no futuro. É bastante comum encontrar turmas com alunos apresentando diferentes graus de aprendizagem, situação que dificulta sobremaneira o trabalho dos professores. Quando os estudantes chegam ao 9º ano, esta ocorrência é bem mais visível, tendo em vista o acúmulo de lacunas no decorrer do processo.

Outro fator a considerar diz respeito à formação docente. O conteúdo a ser trabalhado nos anos finais requer professores capacitados para tal, tendo em vista o nível de complexidade que já é maior do que se tomarmos como comparação os conteúdos das séries iniciais. No Brasil esta situação se agrava na medida em que há um sem número de professores que respondem por disciplinas que não correspondem à sua área de formação. Não é raro encontrar professores de ciências trabalhando com matemática, professores de geografia trabalhando com história, entre outras situações ainda mais desconexas. Há um problema intrínseco a esta situação: faltam à estes professores as bases didáticas específicas de cada área do conhecimento, ou seja, o “como ensinar” acaba ocorrendo por intuição ou por aproximação às práticas metodológicas de áreas afins. Agravando o quadro, nos cursos de licenciaturas predomina a tendência a colocar maior ênfase nos conteúdos específicos (ciências, matemática, química, física…), disponibilizando-se menor espaço para os conhecimentos pedagógicos (fundamentos da educação, políticas educacionais, didática, psicologia educacional…). Logo, é preciso que sejam garantidos os conteúdos necessários à docência.

Observa-se também uma dificuldade que os alunos concluintes das séries iniciais encontram quanto a adaptarem-se à sistemática das séries finais. Antes, o aluno tinha um professor que ministrava a maior parte das disciplinas, sendo que ele tornava-se a sua referência. Agora, na etapa posterior, ele encontra vários professores das diversas disciplinas que cursará, sendo que cada um deles trabalhará seus conteúdos (muitas vezes de maneira isolada) e organizará seu plano de trabalho com atividades e tarefas próprias. Muitas vezes também ingressar na nova etapa significa mudar de escola, o que recorrentemente significa fator de impacto para muitos. Neste caso, é importante que as escolas atentem para a melhor organização e articulação possível, com um planejamento integrado que permita, primeiramente, a adaptação dos alunos que ingressarem na etapa dos anos finais e, paralelamente, a organização sequencial dos conteúdos a serem trabalhados com atenção pedagógica à evolução do desenvolvimento acadêmico dos estudantes.

Finalmente, há aspectos estruturais envolvidos, que demandam maior atenção das políticas educacionais, para sanar problemas correlatos a, por exemplo, infraestrutura das escolas, número de alunos por turma, formação e valorização docente, além de recursos financeiros, avaliação, gestão, currículo e projetos especiais, como reforço escolar e eventos culturais, esportivos e tecnológicos.

Como se pode concluir, os desafios relacionados a última etapa do ensino fundamental são muitos e complexos, exigindo uma série de correções urgentes que vão desde a organização da gestão administrativa e pedagógica na própria unidade escolar até um maior suporte pedagógico e financeiro dos órgãos superiores, bem como políticas públicas estruturais apropriadas.

 

This Post Has One Comment
  1. Parabéns, Raquel, pela reflexão. É aqui que reside a minha maior preocupação como professor de terceiro ciclo. Sofremos, na escola em que trabalho, da maioria das questões que você colocou: professores de outras disciplinas, falta de recursos financeiros e uma tentativa de reforço escolar promovido de forma paliativa no último ano do terceiro ciclo. Desenvolvo o conteúdo de História com todas as estratégias de leitura e escrita que conheço – estou disposto a conhecer mais e novas – porém, há uma lacuna tão grande num significativo número de estudantes que dificulta maior sucesso, na medida em que só planejamos para a turma, o grande grupo de 30 com toda a sua diversidade. Mas, continuemos. Se nos foi dado isso, façamos e lutemos para conseguir mais. Abraços.

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