Ciências socioambientais, ecologia e humanidades: construindo diálogos contemporâneos

Vagner Luciano de Andrade

 

Pedro é professor recém-formado da Escola Municipal Real Utopia, localizada na cidade de Oliveira Silva. Nessa região vem ocorrendo múltiplos problemas como: brigas entre famílias, preconceitos culturais, étnicos e sexuais, problemas ambientais, servidores públicos com má conduta, epidemias, uso de drogas e trabalho infantil. Diante de tal realidade, cabe à instituição escolar atuar de forma ética e sigilosa, sem exposições e desgastes? Pedro, de acordo com a sua formação acadêmica, pode interferir para mudar esse quadro? Com base em quais processos pedagógicos, Pedro agirá? Quais ações, Pedro poderá propor para resolver cada um dos problemas supracitados vivenciados pela escola? Bom, nesta questão, primeiramente, o docente deve se articular promovendo a interface entre a área de Ciências Biológicas e outras disciplinas mobilizando funcionários, o espaço e equipamento escolar e a comunidade na solução dos conflitos construindo o saber integrado em ciências socioambientais, ecologia e humanidades. A conexão entre diferentes áreas da ciência revelam informações expressivas acerca de estruturas e processos da cultura e da natureza construindo diálogos contemporâneos.

Promovendo a articulação entre Biologia e Artes pode-se abordar a temática do uso de drogas, problematizando a questão da exclusão social nos grandes centros urbanos, suas causas e consequências para a coletividade. Sabe-se que a cidade que acolhe sonhos das massas também promove a alienação, a exclusão, a desigualdade e a violência urbana. Problematizações sobre a questão das drogas iniciam-se com a discussão sobre sua origem e expansão, passando pela sua territorialização. A biologia auxiliará no contexto da atuação de entorpecentes, explicitando elementos de química e de saúde. Os danos neurológicos, e, portanto, biopsicossociais devem ser evidenciados. Por fim apresentam-se alternativas para o combate, a prevenção e a recuperação do uso. A arte urbana do grafite é uma questão relevante para sedimentar os conteúdos promovendo reflexões e transformações significativas. Como exemplo, o Conjunto IAPI, na capital mineira, coração da Cracolândia recebeu requalificação, com ênfase no grafite em sintonia com políticas públicas de assistência aos viciados da área.

Fonte: Pensador

A Biologia se articula com a Filosofia trabalhando temas tão comuns como brigas entre familiares e também servidores públicos com má conduta no âmbito escolar. A violência domestica acomete inúmeros alunos e alunas em diferentes recortes espaciais de todo o país e em diferentes contextos de escolas urbanas e rurais. Abuso sexual, pedofilia, espancamento, feminicídio, cárcere privado, abandono de incapaz (crianças, deficientes e idosos) são temas que não podem ser negligenciados na escola. O corpo humano enquanto elemento físico e fisiológico que permite a vida em seus múltiplos aspectos deve se sintonizar com questões filosóficas do tempo presente. A violência física e psicológica, a depressão, o stress, a ansiedade, a tentativa de autoextermínio tem causas originadas num contexto familiar ou comunitário extremamente complexo e afetando inúmeros alunos, desenvolvendo adoecimento e medicalização. Promover a reflexão e debate, bem como o enfrentamento é uma alternativa mais viável para transformar realidades e vidas afetadas. Outra questão é a ética, no que se refere á conduta inadequada e por vezes criminosa de servidores públicos. A biologia se conecta á aspectos filosóficos no sentido de se entender e buscar elementos concisos para estas questões, num tempo em que a corrupção se consolida no país, com um Grande Mal entronizado na Presidência. O famoso jeitinho brasileiro de dar um jeito nas coisas, muitas vezes de forma ilícita deve permear as discussões e trabalhos. A recente mudança na legislação acerca do armamento traz perspectivas sombrias e doentias dos atuais gestores que governam o país, generalizando alienada entre a população.

Os problemas ambientais e as epidemias tropicais, relacionadas à degradação ecológica são um contexto de diálogos interdisciplinares entre a Biologia e Geografia. A desconstrução das políticas públicas ambientais evidencia cenários nada favoráveis.A dengue associa-se às questões climáticas com alternâncias no regime pluvial ocasionadas por alterações humanas na dinâmica natural do planeta. A Dengue, a Zika, a Chikungunya  são doenças que demostram que a falta de uma educação ambiental amplia patologias e desastres ecológicos, sem precedentes na história da humanidade. O antropoceno se consolida com um cenário de problemas que poderão enriquecer os conteúdos biológicos e geográficos. Lixo, desmatamento, extinção de espécies, alterações climáticas, epidemias, catástrofes, são temas que precisam ser problematizados gerando novas percepções e posturas por partes de alunos. Um diagnóstico no entorno da escola poderá evidenciar com provas científicas, os problemas mencionados mostrando aos alunos de que esta realidade não esta apenas nos noticiários, mas, sobretudo na realidade local.

Fonte: Brasil escola

A Biologia em sintonia com os conteúdos de História pode trabalhar a questão do trabalho infantil, sua nuances evidenciando o Brasil no mundo, destacando os cenários e panoramas ao longo de diferentes períodos históricos. A criança envolveu-se no trabalho e no sustento de seu núcleo familiar, em momentos de guerras, epidemias, exclusão social, fome. Esta questão de vulnerabilidade social afeta o Brasil e o mundo. Porque não foi revertida como promulgaram encontros e tratados internacionalmente acordados entre as nações. Como foi o trabalho infantil na Pré-história, na Antiguidade, no Medievo, na Modernidade e nos tempos contemporâneos. Haverá mudanças? Como podemos direta e indiretamente contribuir para que mudanças concretas se efetivem? Quantas crianças e adolescentes são privados de uma vida com dignidade e qualidade? Quantos meninas e meninos do campo e da cidade trabalham em condições cruéis e desumanas?

Os preconceitos culturais, preconceitos étnicos e preconceitos sexuais se caracterizam pela possibilidade de articular a Biologia e a Sociologia. Principalmente quando se deseja fortalecer e consolidar a democracia e os direitos humanos. O etnocentrismo e demais formas de preconceitos, intolerância, perseguição, violência, bullying devem ser pauta prioritária no contexto de alunos, funcionários e comunidade escolar visando reverter situações de desequilibro em sua maioria criminosas. O etnocentrismo, ou seja, a valorização de apenas uma realidade considerada superior a outras deve ser enunciado. Crimes pretéritos pautados nesta questão, perseguições, massacres e diásporas devem ser mapeados. A vulnerabilidade de alguns grupos como negros, indígenas, idosos, deficientes, homossexuais deve se explicita, buscando-se as prerrogativas que os resguardem em tempos de violência explicita, intimidação e apologia à intolerância. No contexto escolar, o preconceito se perpetua, quando gestões usam do termo hierarquia para intimidar, constranger, oprimir, obrigar, manipular aqueles que seriam considerados subordinados. A educação pressupõe processo de emancipação dos diferentes atores. Assim pais, funcionários e educando compõe uma rede em comum, onde ninguém esta abaixo ou acima de ninguém.

Assim as temáticas contemporâneas como brigas entre famílias, epidemias, preconceitos culturais, étnicos e sexuais, problemas ambientais, servidores públicos com má conduta, trabalho infantileuso de drogas atestam que novos diálogos precisam ser construídos fazendo com que as ciências socioambientais, façam a emergencial articulação entre ecologia e as humanidades motivando a construção de novos cenários, mas humanos e sustentáveis, para todos, sem distinções. Principalmente no Brasil, dos tempos sombrios, a educação deve se reafirmar fazendo com que o desmantelamento do poder público não se efetive, resistindo à pilhagem da democracia e lutando contra do desmonte da democracia. Que a ecologia e a área de humanidades sobrevivam e refaça um país de todos. É tempo de educadores lutarem e resistirem contra esse governo que não representa ninguém e nem nunca representará.


PARA IR ALÉM

BARRETO, Leilane de Holanda. SEDOVIM, Waldelice Maria da Rocha. MAGALHÃES, Luiz Marconi Fortes. PERCEPÇÕES DE ALUNOS SOBRE PROBLEMAS AMBIENTAIS ESCOLARES. In: Anais da 58ª Reunião Anual da SBPC – Florianópolis, SC – Julho/2006. Disponível em http://www.sbpcnet.org.br/livro/58ra/SENIOR/RESUMOS/resumo_3264.html. Acesso em 11. Mai. 2019

CARTA CAPITAL. DIÁLOGOS DA FÉ: Sobre discriminação, preconceito e outras expressões da desigualdade. Disponível em https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/sobre-discriminacao-preconceito-e-outras-expressoes-da-desigualdade/. Acesso em 11. Mai. 2019

MOREIRA, André. VÓVIO, Claudia Lemos. MICHELI, Denise. Prevenção ao consumo abusivo de drogas na escola: desafios e possibilidades para a atuação do educador. In: Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 41, n. 1, p. 119-135, jan./mar. 2015. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ep/v41n1/1517-9702-ep-41-1-0119.pdf. Acesso em 11. Mai. 2019

PAGANINI, Juliana. O trabalho infantil no Brasil: uma história de exploração e sofrimento. In: AmicusCuriae Vol.5, Nº.5 (2008), 2011. Disponível em http://periodicos.unesc.net/amicus/article/viewFile/520/514. Acesso em 11. Mai. 2019

SILVA, Rosa Maria Aragão da. SILVA, Elias Liberato da. ÉTICA NO SERVIÇO PÚBLICO. Disponível em http://repositorio.unilab.edu.br:8080/jspui/bitstream/123456789/265/1/Rosa%20Maria%20Arag%C3%A3o%20da%20Silva.pdf. Acesso em 11. Mai. 2019

Site Brasil Escola.VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. Disponível em https://educador.brasilescola.uol.com.br/sugestoes-pais-professores/violencia-domestica.htm. Acesso em 11. Mai. 2019

TAUIL, Pedro Luiz. Urbanização e ecologia do dengue. Cad. Saúde Pública [online]. 2001, vol.17, suppl., pp.S99-S102. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001000700018. . Acesso em 11. Mai. 2019

Imagem de destaque: Zach Vessels / Unsplash

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