Ana Kinchescki E Elaine Teixeira – “Balbúrdias” Na UDESC

“Balbúrdias” na UDESC: experiências de um trabalho integrado entre História e Sociologia da Educação

Ana Paula de Souza Kinchescki
Elaine A. Teixeira Pereira

Construir uma articulação entre História e Sociologia da Educação nas aulas da graduação em Pedagogia do Centro de Ciência Humanas e da Educação (FAED) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) tem sido uma intenção desde o semestre passado, quando nos reencontramos como professoras colaboradoras nessas disciplinas, alocadas na segunda fase do curso.

O desejo de estabelecer uma parceria mostrou possibilidades reais quando analisamos os planos das disciplinas e constatamos que mantinham diversos pontos de intersecção, principalmente na primeira parte de cada uma delas. Em “História e Educação: da Escola Nova à redemocratização da sociedade brasileira”, a proposta seria iniciar trabalhando com movimentos e disputas em torno da constituição da educação escolarizada brasileira, com debates educacionais e o movimento da Escola Nova; em “Sociologia e Educação: fundamentos do pensamento sociológico”, por sua vez, o foco inicial recaía sobre a constituição da Sociologia como ciência, sua institucionalização no Brasil e a presença nos Cursos Normais, além do pensamento de Émile Durkheim.

A integração começou em 2018.2 e foi bem avaliada por nós e pelas/os estudantes. Porém, ao iniciarmos este semestre e constatarmos que novamente estaríamos à frente de tais disciplinas, colocamo-nos o desafio de avançar no desenvolvimento de uma proposta de trabalho integrado, buscando um tema comum à História e à Sociologia da Educação – sem deixar de priorizar o que deveria ser trabalhado em cada uma. Levando isso em conta, definimos que as Associações Auxiliares da Escola seriam o tema comum das duas disciplinas, nas suas primeiras unidades.

No projeto desenvolvido, foram estudadas pelas/os discentes as associações auxiliares presentes em escolas primárias catarinenses nas décadas de 1930 e 1940, como Liga Pró-Língua Nacional, Pelotão de Saúde, Clube Agrícola Escolar, Liga da Bondade, Jornal Escolar, Caixa Escolar, Museu Escolar, Clube de Leitura e Biblioteca Escolar. O resultado dessas investigações foi apresentado no seminário intitulado “‘Por uma nova educação para um novo Brasil’: as Associações Auxiliares da Escola em Santa Catarina”, que marcou a finalização das atividades realizadas. Nessas duas manhãs de trabalho, foram abordados os seguintes conteúdos: a constituição do campo educacional brasileiro, projetos educacionais e de nação em disputa nos anos 1930 e 1940, o movimento da Escola Nova no Brasil, o papel das ciências-fonte da educação nos cursos de formação docente e a circulação do pensamento de Émile Durkheim em Santa Catarina.

O Seminário foi encerrado no Museu da Escola Catarinense (MESC), sediado no prédio originalmente construído para a Escola Normal Catarinense. Estivemos, portanto, no mesmo ambiente em que se deu a formação de parte das/os normalistas contempladas/os em nossos estudos. A manhã no Museu contou com uma Mesa redonda com título homônimo ao do Seminário, conduzida por nós; e também com relatos de experiência de pesquisa, apresentados pelas professoras convidadas Marília Gabriela Petry e Sélia Ana Zonin. Ambas são mestras egressas do PPGE/UDESC e produziram dissertações acerca das Associações Auxiliares da Escola. Marília, sobre Museu Escolar; Sélia, sobre Caixa Escolar.

Por meio do trabalho desenvolvido, as/os estudantes puderam ampliar seus conhecimentos históricos e sociológicos, tendo como foco a educação. Devido à temática comum escolhida, foi possível discutir sobre o cotidiano escolar e, ao mesmo tempo, trabalhar com a escolarização de forma mais ampla, em sua relação com outros âmbitos da sociedade. Num momento em que as universidades são alvo de todo tipo de ataque, em que a produção do conhecimento e a docência são desprestigiadas, em que áreas como a Sociologia e a História são ameaçadas por discursos reducionistas e falaciosos, um trabalho como o que está sendo noticiado aqui tem especial importância.

Os conteúdos discutidos nas disciplinas “História e Educação” e “Sociologia e Educação” são fundamentais no percurso de formação docente por possibilitarem um olhar menos ingênuo e mais apurado em relação aos projetos e processos educacionais. Colaboram para que sejamos mais críticos e reflexivos, que tenhamos autoria em relação à nossa própria prática, que vejamos além dos slogans educacionais e estejamos preparados para problematizar argumentos simplistas construídos por aqueles que não entendem de educação e não buscam entender, mas se posicionam como se tivessem propriedade no assunto.

A construção da autonomia de pensamento e da autoria no fazer docente pressupõe o acesso a uma formação sólida, o que está diretamente relacionado à presença dos conhecimentos teóricos nessa formação. Isso parece estar atrelado, cada vez mais, ao reconhecimento da necessidade e ao investimento para que tais conhecimentos estejam presentes nos currículos dos cursos de formação docente. E tanto a História quanto a Sociologia são basilares nesse sentido.

Numa sociedade altamente complexa e cada vez mais desafiadora, como trabalhar com educação tendo passado por uma formação frágil e superficial? É certo que a formação docente, continuamente apontada como problema e solução da educação, não pode resolver tudo – e, inclusive, talvez nem mesmo tenha o peso que a ela costuma ser atribuído. Por outro lado, também não é possível negar seu lugar estratégico, pois, se uma sólida formação de professoras/es não garante a “qualidade” da educação, tampouco é possível avançar em desafios complexos, como os do campo educacional, sem que as/os responsáveis pela educação mostrem propriedade e tenham uma base consistente para desenvolver essa tarefa.

Por acreditar que é possível trabalhar para uma educação pública, gratuita e de qualidade da Educação Infantil à Superior, é que se faz necessário investir em propostas como essa, que buscam fortalecer relações entre as áreas do conhecimento, valorizar as produções científicas desenvolvidas no âmbito da Graduação e da Pós-Graduação, sensibilizar as/os estudantes do curso de Pedagogia para a necessidade de conhecer e ocupar os espaços de guarda de memória da cidade, como o MESC, e, ainda, defender a importância de se posicionarem ativamente, de forma qualificada e com autoria, do debate público sobre a educação.


Imagem de destaque: Museu da Escola Catarinense – Vista da década de 1940. Fonte: UDESC 

This Post Has One Comment
  1. Registro os parabéns às profissionais de educação Ana Paula e Eliane Teixeira pelo texto exposto com uma visão sistêmica da educação associando História e Sociologia na pedagogia.
    Ontem tive acesso a uma afirmação que resume muito o que precisamos repensar enquanto estudantes, docentes e pesquisadores e principalmente aos governantes que nos representam:
    “O trabalho não dignifica a alma. O que dignifica a alma é o conhecimento. A busca do entendimento de quem somos, onde estamos e para onde pretendemos ir”. (Autor desconhecido).
    Sem mais…

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