Dalvit Greiner Paula – BACK TO THE GAME

Back To The Game

Dalvit Greiner Paula

 

Correr, saltar, matar, trocar as armas, matar mais, observar o score, correr, virar à direita, atirar, entrar por outra porta, matar mais, atirar, não tirar o dedo do gatilho, a arma no automático, correr, parar, correr, o score

É só um jogo e sendo um jogo é preciso pontuar e pontuar mais. É claro que os jogos não são inocentes, mas também não podemos demonizá-los. São influenciadores do caráter dos meninos e meninas? Duvido muito.

A atitude dos adolescentes de Suzano, metralhando colegas, professores e servidores da escola deve ser colocada na conta de quem? É muito fácil coloca-los na conta do presidente “arminha” Jair Bolsonaro, mas eles são o resultado de algo muito maior do que jogos eletrônicos e um presidente boçal. Porém, fica claro que o presidente boçal autorizou. Ele se acha a autoridade máxima do país e muitos o veem assim.

Quando olhamos as projeções da pirâmide etária brasileira de 2050 percebemos que o Brasil não está apenas envelhecendo. Os adolescentes-jovens brasileiros estão se matando. Mutuamente. Presenciamos, silenciosamente e silenciados, uma chacina diária de adolescentes.

Mantê-los na escola por um tempo maior que aquele previsto na lei é uma forma de mantê-los vivos, com todos os problemas que trazem para a escola e o medo que temos deles. Não, também não é culpa da escola que expulsou um deles no ano passado. A escola, sozinha, fez o que pode. A escola não pode ser a única política pública para adolescentes-jovens. É preciso mais cuidado com quem está chegando nesse mundo-cão.

O fato é que nossos adolescentes estão se matando. Percebemos isso no isolamento provocado por um estilo de vida idiota. A sociedade idiotizou as pessoas. O idiota é aquele que não fala. Na Grécia antiga, a palavra derivava de privado e era usado de forma depreciativa considerando idiota todo aquele que não participasse da pólis, da cidade. Que não falasse em público e para o público. Ou seja, que não vivesse em plena liberdade. Livre.

No seu espaço privado, os adolescentes-jovens, que se creem livres, vêm criando um mundo paralelo onde não há conversa. Apenas silêncio. Um mundo paralelo de avatares que se divertem atirando, cuidando de fazendas, jogando futebol, correndo em automóveis caríssimos. E em silêncio. Quando saem desse mundo virtual o mundo real oferece-lhes a droga – lícita ou ilícita -, um sexo sem graça, a arma barata comprada ali na esquina na mão de outro adolescente-jovem. E mais silêncio.

O único lugar do barulho, da conversa, do diálogo, da criação, da subversão, da transgressão continua sendo a escola. Os únicos ouvidos continuam sendo de professores que abraçam e acarinham. O único programa é aquele que discute sexo-amor-afeto, autonomia e liberdade, droga e remédios para a o corpo e a alma como a música e a poesia.  O único currículo é um currículo que desenvolve uma cultura de não-violência, de paz. De fala!

Precisamos continuar fazendo e fazer mais.

Oh, Suzano! Não chores por mim…. Não mais silêncio.

GAME OVER.


Imagem de destaque: Lux Interaction/Unsplash

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