Entrememórias – Luiz Carlos Paixão – Ate Onde Vai A Eternidade

Até onde vai a eternidade?

Luiz Carlos Paixão

A primeira vez em que ouvi uma frase falando do que é ser professor fiquei matutando o sentido que aquilo encerrava. A frase dizia: “Um professor sempre afeta a eternidade. Ele nunca saberá onde sua influência termina”. Esta frase é como um mantra, uma oração, que tenho sempre em mente e por muito tempo a carreguei em minha carteira, não como amuleto, mas para sempre reforçar em mim a responsabilidade que assumi.

A influência que carregamos é algo realmente difícil ou até impossível de mensurar. Lembro-me do nome de todas as minhas professoras do antigo pré-primário e do primário. Não que este fato seja tão relevante, mas ficaram as marcas pela profundidade da influência que cada uma deixou em mim. As diversas personalidades e um jeito muito peculiar de “ensinar” demonstravam a preparação e a qualificação que não era rasa, mas possuía um detalhe que não me passava despercebido – o prazer em partilhar o conhecimento. Em outros tempos, quando não possuíamos a facilidade de buscar informações na internet, quando uma professora falava “suas verdades”, ou acreditávamos piamente ou tínhamos que esperar chegar em casa para confirmar as informações na Barsa, Mirador, Conhecer e outras enciclopédias (isto para aqueles que possuíam o rico material – e rico também na acepção da palavra – material caro). Os pobres mortais, quando precisavam pesquisar, tinham que se deslocar até as bibliotecas públicas ou conseguir emprestado dos outros colegas.

Até a minha quarta série, segui o que o destino me traçava como única oportunidade de crescimento – estudava muito e com afinco, sempre com sede de aprender o que era partilhado. Lia todos os livros literários que me chegavam às mãos (lia até os que eram determinados aos meus irmãos mais velhos). Encantei-me com a literatura e um mundo mágico, que me transportava a lugares antes inimagináveis.

A grande transformação se deu na quinta série. Conheci a professora que me encantou com sua especialidade – a História. Era uma professora tão ciente da sua responsabilidade e tão dedicada ao que fazia, que estudar não era sacrifício como muitas vezes é para um adolescente. Ela nos seduzia com seu jeito suave e firme, sempre apontando caminhos e fomentando em nós a possibilidade de questionar os fatos históricos e nos possibilitando compreender todo o processo, sem que tivéssemos a preocupação (na minha época) de decorar – ela contava a História como se lá tivesse vivido.

Em determinado dia, ao final da aula, procurei a professora e disse:

            – Tomei uma decisão. Vou estudar História.

            – Que legal! – falou um tanto quanto assustada. – Fico feliz pela sua escolha.

Eu respondi:

            – Sim, e você é responsável por isto.

Eu era um menino tímido e de poucas palavras.

Da 5ª à 8ª série ela foi a minha professora. E eu procurava sempre me superar, questionando e posicionando-me.

Ao final do ano veio a “bomba”. A professora chegou perto de mim e de supetão anunciou.

            – Estou partindo. Passei em um teste de seleção e vou trabalhar em uma universidade; vou aproveitar minhas especializações e ajudar a formar outros professores. Espero por você lá…

O tempo passou e eu nunca mais a encontrei. Nossos caminhos foram outros; muito embora eu tenha concluído o meu curso em História, ela nunca foi a minha “mestra” no Ensino Superior.

A verdade que tudo isto encerra é apenas uma, ela foi a minha influência. Foi por ela que decidi estudar História.

Passados 27 anos dedicados à profissão não me arrependo, nem ao menos lamento as escolhas que fiz. Sob a influência desta minha professora, assumi a sala de aula, como quem realmente acredita na profissão e em tudo o que há como demanda.

Aos meus alunos resolvi dedicar minha força acadêmica e minha formação. Acolhi a cada aluno com a responsabilidade que deveria ter e, acima de tudo, com o compromisso exigido, sempre tendo como referência aquela que um dia me mostrou as possibilidades de compreensão do mundo.

Mantive e mantenho o mesmo vínculo e o mesmo viço, por ter a certeza de que fiz uma boa escolha lá atrás. A quantos já ajudei a conseguirem sucesso em suas carreiras profissionais? A quantos já servi como conselheiro? A quantos já fui o ombro amigo, quando portas se fechavam e a vida chegava firme sem rodeios, exigindo o que estes jovens não conseguiam oferecer? Para estas indagações digo que foram muitos e outros tantos que ficaram pelo caminho.

Lembro-me sempre de vários alunos e daqueles que também me acolheram e dos muitos que até hoje fazem parte de minha vida cotidiana.

Minha formação humana e social com certeza me deu o suporte necessário para crescer profissionalmente; mas, sem o incentivo “daquela” professora, eu não teria chegado aonde cheguei.

Assim, decorrido tanto tempo, mesmo que a vida tenha nos afastado, não agastou o meu sentimento de gratidão e a certeza de que ela, mesmo sem ter a certeza de uma afirmação de um adolescente, influenciou a minha vida profissional.

Desta forma, a frase que me serviu de norte permanece em minha memória e acima de tudo, permanece em mim como algo tatuado. O sentimento de que algumas coisas são realmente indeléveis e inefáveis: “… onde sua influência termina.” A esta frase, descobri uma outra que também carrego em meu consciente: “A gratidão é a memória do coração.”

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