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Antes de ser aluno – Parte 1

João Dimas Nazário*

março de 2018

Era março de 1976. Com apenas 5 anos de idade ele acompanhava todos os dias sua mãe, que era professora, no caminho para a escola. Lado a lado, num mesmo compasso, apesar de suas pernas curtas, passavam pelas vielas do bairro, umas ruas apertadas e de barro. Volta e meia se olhavam, num tom de admiração e preocupação, pois precisavam chegar a tempo, antes que o sinal da escola batesse.

Suas pernas aceleradas levantavam poeira do chão, marcando o caminho com seus pequenos chinelinhos de dedo. Todas as tardes eram assim, os dois juntinhos, a caminho da escola.

Mesmo ainda não estando matriculado, ele participava das aulas junto com sua mãe, pois não tinha com quem ficar. Para ele era o paraíso: a sala de aula, as carteiras, os cadernos, os livros, o pó de giz… A voz de sua mãe, que ensinava as primeiras letras para quase 30 crianças, era melodia para seus ouvidos.

Tinha sempre um lugar para se juntar a outra criança na carteira, que era de um banco só. Às vezes era interrompido por sua mãe, pois estava sempre querendo ensinar quem estava ao seu lado, uma vez que já sabia ler e escrever algumas coisas e era bom nas continhas de somar e tirar.

A cartilha que as crianças estavam lendo era “Barquinho Amarelo”. Ele adorava a história da galinha Cocota, da Rosinha e do Marcelo. Sempre que tinha chance, lia em voz alta, até que um dia sua mãe lhe chamou a atenção dizendo: “Se você continuar perturbando, vai ficar em casa sozinho, não te trago mais”. Entre não poder ir mais para a escola e ficar calado, preferiu se calar.

Bracinhos cruzados, cabeça baixa sobre a carteira e olhinhos arregalados em direção a sua mãe, admirando-a. Era uma gigante! Sabia ensinar as crianças a ler e escrever com tanta naturalidade, embora muitas vezes sua voz precisasse se alterar, pois sempre havia uma criança desatenta. Ele nunca estava desatento, queria aprender muito, queria aprender tudo. Ler e escrever era mágico.

Era tarde de abril e sua mãe levou a turma para a praia. Lá desenharam letras, brincaram com números, correram, pularam, conversaram com outras pessoas (geralmente os familiares, pois eram todos da mesma comunidade, ao sul da Ilha de Santa Catarina). Antes de voltarem para a escola, sua mãe reuniu os alunos, pediu que todos se limpassem na água do mar e fizessem uma fila, pois já estava na hora da merenda.

O recreio era de 30 minutos; tempo suficiente para comer a merenda e brincar. Brincavam de tudo: pega-pega; cabra-cega; bate manteiga; bandeirinha salva; roda, pula barata… Ninguém ficava parado, era o momento que as turmas da primeira e da segunda série se encontravam. Quem morava por perto tinha tempo para ir em casa, sei lá fazer o quê, mas havia quem fosse.

O muro da escola era baixo e dava pra ver quem passava pela frente da escola. Como ele era pequeno e sua mãe tinha medo de que o machucassem, quase sempre estava bem longe das correrias e de grandes agitos. Ele gostava de ficar sentado em um murinho perto da entrada da escola, pois dava pra ver todos passarem, e pensava: “no ano que vem poderei estar ali, entre todos, já estarei com 6 anos e matriculado na primeira série”. Seria o momento da independência escolar. Enquanto isso não chegava, continuava todas as tardes indo para a escola com sua mãe.

As férias de julho chegaram, um mês de frio na praia do Pântano do Sul. Tinha-se pouco o que fazer e a escola era um dos lugares de encontro, mesmo nas férias. O prédio, o pátio, os muros, a horta reuniam crianças de todas as idades, até os mais pequenos, mesmo tendo que acatar as regras dos maiores no momento das brincadeiras. Aquele barulho todo era vida! Mas o vento sul, que trazia a areia da praia para dentro das casas – que eram feitas de madeira em sua grande maioria –, anunciava que as férias estavam acabando e que agosto estava chegando, e a turma estaria reunida na escola.

Naquele ano houve uma pequena mudança de sala, pois havia chegado crianças novas e as carteiras eram poucas. Ele já não podia sentar junto a outra criança, assim, ocupava a cadeira e a mesa de sua mãe. Ali, sentia-se importante, pois ficava de frente para os demais e estava no lugar que era só da professora. Ele havia ganhado de seu padrinho um gibi do “Zé Carioca” e exibia-se com ele, lendo-o em voz baixa enquanto sua mãe dava aula para os demais.

Certa tarde de setembro não pode ir para a escola com sua mãe, teve que ficar em casa com a irmã de 10 anos, pois estava doente, uma constipação danada. Pior que estar doente era não poder ir para a escola; não poder desfrutar da companhia de sua mãe pelas ruelas do bairro; não disputar quem chegava primeiro na escola. Teve que ficar três dias em casa, dois deles com sua vizinha. Na hora do recreio sua mãe ia vê-lo.

Certa manhã, quando sua irmã se arrumava para ir para a escola, eles receberam a visita de seu pai; já fazia um bom tempo que não se viam. Seu pai era pescador, trabalhava embarcado em alto mar, assim como seu irmão mais velho. Ele ficou em casa enquanto a irmã correu até a escola para chamar sua mãe. Sentia um misto de felicidade e temor, uma vez que as atenções estavam voltadas todas para seu pai.

Chegou outubro e a alegria era saber que estava matriculado no primeiro ano escolar. Tudo estava muito bem, uma mistura de felicidade com ansiedade, pois só no ano seguinte ele iria frequentar oficialmente o primeiro ano. Já não seria apenas o filho da professora assistindo aula porque não tinha com quem ficar; mas passaria a ser aluno, de uniforme: camisa branca, calça tergal, tênis conga e meia. Era um luxo só. Ele fazia planos, sabia que estava pronto para receber os ensinamentos escolares que sua mãe iria passar.

E a história segue, a vida continua …

*Doutorando na linha Sociologia e História da Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. Professor de  Educação Infantil na Rede Pública Municipal de Florianópolis desde 1991.

Contato: jdnnazario@gmail.com

 

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