A relação permissiva não prepara as crianças e adolescentes para vida

Marcelo Silva de Souza Ribeiro

 

Sem termos uma visão ingenuamente romântica a respeito da educação do passado e os valores culturais outrora estabelecidos, comparar, contrastivamente, o ontem com o hoje nos ajuda a compreender algumas das singularidades que caracterizam o modo como nos educamos ao educar as nossas crianças e adolescentes.

As crianças e adolescentes hoje em dia têm mais dificuldades em lidar com os limites? São menos tolerantes à frustração? Em quais contextos estão inseridas e como algumas das possíveis contingências influenciam seus comportamentos? Como experimentam e percebem esses contextos contemporâneos?

De acordo com as nossas experiências enquanto supervisor de estágio no Centro de Estudos e Práticas em Psicologia (Ceppsi), da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) no serviço de orientação para pais, há uma preponderância de permissividade na relação entre pais e filhos. A literatura científica, de modo geral, também aponta que esse estilo parental é significativo no modo como os pais e ou cuidadores estabelecem relações com os filhos e ou crianças/adolescentes.

Uma das consequências da relação marcada pela permissividade é a baixa tolerância em lidar com as frustrações. Afinal, uma criança que não aprendeu a lidar com o “não” tenderá a ter dificuldades em elaborar as frustrações, que muitas vezes são constituidoras da existência, portanto inevitáveis. Além disso, crianças e adolescentes que são muito sensíveis às frustrações tendem a intensificar a dor, ou melhor, dar proporções demasiadas a situações que seriam, em outras condições, encaradas como menos desespero. A relação permissiva não prepara o outro para vida.

Constatar a qualidade das relações pais e filhos não é suficiente. Faz-se necessário conhecer os contextos que ajudam a forjar o modo como as pessoas tendem a se relacionar. Nesse sentido, uma das grandes marcas da nossa sociedade capitalista é que somos sujeitos de consumo. Num mundo, portanto, de consumo não deve haver limites, pois os produtos são feitos para consumir e o consumo ajuda a ter mais produtos. Assim, o outro é visto também como objeto de barganha e pode ser comprado. Sendo, portanto, vulneráveis, “presas fáceis” dos apelos de consumo, essas crianças e jovens intensificam suas experiências de consumo, mas sucumbem ao experimentar aquilo que não pode ser digerido.

Ademais, na sociedade capitalista (sobretudo a “selvagem” e sem algumas proteções do estado), as “famílias” são entregues a própria sorte não encontrando apoios, restando, muitas vezes, terceirizar a educação dos filhos, barganhar suas ausências ou “comprar” as absolvições da culpa.

 É claro que ao analisar os contextos não podemos ter o pretexto para desresponsabilizar os atores sociais (pais, educadores, cuidadores, etc.). Entender as contingências longe de desimplicar, ratifica o chamado da responsabilização e a necessária compreensão do modus operandi do nosso mundo e do nosso tempo.

 

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