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A propósito das manifestações do dia 15 de março. Uma leitura desde Argentina

Eduardo Galak

Primeiramente, quero destacar que as manifestações massivas legitimam as democracias. Irônico começar afirmando isso, levando em consideração que muitas das proclamações dos protestos do dia 15 de março no Brasil apelavam ao intervencionismo militar, a repulsa de um soi disant comunismo que ganhou eleições nas últimas duas décadas, a imagens de violência contra políticos democraticamente eleitos.

Apesar de a distância em que me encontro do Brasil, por morar na Argentina, me impedir de olhar o que acontece “na rua”, posso perceber que ainda não há, efetivamente, o perigo de intervencionismo militar, mas o terreno discursivo transforma as mensagens simbólicas em materiais. Até onde vi, tirando as negativas e a rejeição do feito pelo PT, não há uma clara declaração política positiva, pra frente, nem um político que consiga monopolizar o poder dos protestos – o mesmo poderia ser dito das manifestações na Argentina por conta da morte do fiscal Nisman, embora sejam problemas e condições muito diferentes. Mas esse é justamente o principal problema, um silogismo perverso: se “ninguém” ganha, os poderes fáticos ganham, então todos perdemos. A mudança do Brasil, e poderia dizer que a mudança da Nossa-América, nunca pode ser em direção às políticas tradicionais que provocaram a nossa dominação.

Reflexo destas questões e questionamentos foi o tratamento da informação das manifestações no Brasil pela imprensa argentina. Além de surpreendentemente escasso, foi marcadamente tendencioso. Dos atos políticos da sexta feira (13/03) nem se falou, e os de domingo (15/03) foram mostrados como massivos e pacíficos, sem mencionar os cartazes violentos que todos vimos. O número dos manifestantes não foi unânime nem uniforme, como aconteceu na impressa brasileira, mas pode-se afirmar que os dados expressos e os jornalistas que opinaram na mídia dominante argentina, pertenciam aos poderes fáticos do Brasil. Seria estúpido comparar o governo brasileiro com o argentino. Precisamente, essa estupidez foi a que dominou: a imprensa monopólica da Argentina “aproveitou” as manifestações contra Dilma para fazer reclamações contra Cristina – embora para a grande maioria do povo albi-celeste, Cuba é símbolo de dignidade latino-americana e seria ridículo afirmar que o kirchnerismo é comunista, como os manifestantes verde-amarelos fizeram em relação ao PT.

É paradoxal que, embora seja, ao mesmo tempo, reflexo dos ecléticos avanços democráticos latino-americanos, que nesse final de semana de manifestações brasileiras, aconteceu na Argentina o “Foro Internacional por la Emancipación y la Igualdad”1, organizado pelo Ministério de Cultura argentino, com palestrantes importantes como o estadunidense Noam Chomsky, o italiano Gianni Vattimo, a colombiana Piedad Córdoba, a chilena Camila Vallejos, a irlandesa Martina Anderson, o grego Konstantinos Tsoukalas, o espanhol Ignacio Ramonet, entre outros. Do Brasil falaram dois dos principais intelectuais do país na atualidade, Leonardo Boff e Emir Sader, e ambos coincidiram em pautar a questão das manifestações como centrais em suas palestras, mas colocando-as num contexto maior, incluindo as intromissões estadunidenses nas políticas da Venezuela e os discursos golpistas da “Marcha del Silencio” em 15 de fevereiro passado na Argentina. Em síntese, a grande maioria dos discursos no “Foro” coincidiam em duas questões: por um lado, os palestrantes entendiam que as realidades nos seus países eram problemáticas globais, partes de um contexto que transcende as fronteiras, e, por outro, afirmavam a importância da educação para a igualdade dos sujeitos e a emancipação das sociedades, sem esquecer que, o principal recurso da (reprodução) política na modernidade, é a institucionalização da educação nos processos de escolarização.

Nossas jovens democracias têm muito ainda para avançar. Os casos do Petrolão e do HSBC – embora o segundo seja um problema internacional, e os dois tenham interesses multinacionais – corroboram com esta afirmação. Mas, claramente, a resposta não pode ser uma velha política antidemocrática. Acho que chegou a hora, neste momento em que as discussões políticas estão sobre a mesa, de repensar nossos contextos como países entrelaçados, histórica e politicamente, deixando de lado os poderosos discursos que nos convidam a participar do mundo como dominados, e começar a pensar-nos como atores principais da nossa-história.

E aí que, finalmente, pensar a educação seja pensar a Grande Pátria.

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