A “Pedagogia da Alternância” em instituições de ensino no Espírito Santo – exclusivo

Renata Duarte Simões

Alexandro Braga Vieira

A realização das aulas da primeira turma de Licenciatura em Educação do Campo, curso ofertado pela Universidade Federal do Espírito Santo, evidenciou inúmeros desafios a serem enfrentados pelos professores em fase de formação para atuação nas escolas do campo e a concretização e êxito de várias experiências de escolas que funcionam em regime de alternância.

A Universidade Federal do Espírito Santo/UFES já havia dado importantes passos para minimizar a problemática da formação de professores que atuam em contextos campesinos quando, no final dos anos 1990, passou a ofertar o curso de Pedagogia da Terra, em parceria com o Movimento Sem Terra, para formação de educadores de reforma agrária. Em 2008, o Programa de Pós-Graduação em Educação do Centro de Educação da UFES, por meio do grupo de pesquisa “Culturas, parcerias e Educação do Campo” e o Programa de Educação do Campo/UFES, passou a ofertar o Curso de Especialização em Educação do Campo.

Atualmente, o curso de Licenciatura em Educação do Campo/UFES, funciona em regime de alternância. A “Pedagogia da Alternância”, de iniciativa da Escola da Família Agrícola, surgiu na França, em 21 de novembro de 1935, como ideia de uma escola realmente para o meio rural; uma escola que rompesse radicalmente com o modelo urbano. A primeira relação de caráter internacional das escolas em alternância francesas se estabeleceu na Itália, difundindo-se, posteriormente, pela África e América Latina. No Brasil, a Escola Família Agrícola surge a partir da Fundação Italo-Brasileira criada pelo P. Humberto Pietrogrande, para o desenvolvimento religioso, cultural, econômico e social do Espírito Santo.

No Espírito Santo, a “Pedagogia da Alternância” surge como pretensão de ser uma alternativa ao ensino tradicional. Resultado de experiência do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES), desde 1968, vem ensaiando um novo tipo de Escola para o meio rural capixaba, isto é, a Escola Família Agrícola (EFA). Desde o início, a defesa foi por uma escola que fosse de natureza familiar e assumida pelas famílias, com um método apropriado de contextualização da educação e que unisse teoria e prática, com o objetivo de formar estudantes numa dimensão integral e profissional, e que proporcionasse uma formação que transformasse o entorno em que viviam os agricultores.

A iniciativa estabeleceu-se por meio de um convênio entre Brasil e Itália, em 1968, quando três técnicos italianos visitaram a região capixaba para uma análise da situação local e estagiários brasileiros foram enviados à Itália com o propósito de especialização em EFA para o atendimento da população campesina capixaba. Na fase inicial, foi determinada a criação de três Escolas Família Agrícola.

As Escolas Família Agrícola de Olivânia, município de Anchieta, e de Alfredo Chaves receberam seus primeiros alunos em março de 1969. Alguns meses depois, foi inaugurada a Escola de Rio Novo do Sul. Atualmente, estão em funcionamento 23 Escolas Família Agrícola no Estado, que atendem entorno de 2,2 mil estudantes, 14 delas associadas ao MEPES e 9 não associadas. A Escola de Olivânia é a primeira da América Latina a utilizar o regime de alternância e se tornou referência. No Brasil, outras quase 300 escolas seguem o mesmo método.

Essas escolas tem o papel de assegurar aos alunos do campo uma educação que valorize a realidade em que vivem e que possibilite a transformação do contexto em que estão inseridos. Logo, percebe-se a necessidade de a escola do campo voltar-se para práticas pedagógicas que considerem os sujeitos desse espaço, assim como suas demandas e anseios.

As Escolas Família Agrícola funcionam em regime de alternância, ou seja, o processo de ensino-aprendizagem ocorre alternando o período de permanência na escola, geralmente por uma semana, e o período de permanência na vida familiar, geralmente por duas semanas. Essa forma de organizar o ensino tem como princípios básicos: a responsabilidade dos pais e da comunidade local pela educação de seus filhos; articulação entre os conhecimentos adquiridos por meio do trabalho na propriedade rural e aqueles adquiridos na escola; alternância das etapas de formação entre o espaço escolar e a vivência das relações sociais e de produção na comunidade rural.

As Escolas Família Agrícola contribuíram para formar vários alunos que residem em comunidades campesinas e tem sido objeto de investigação de pesquisas realizadas pelos alunos do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFES, pois se compreende que essas instituições podem oferecer importantes contribuições acerca de saberes e experiências acumuladas sobre projetos político-pedagógicos de ensino empreendidos, ao longo do tempo, com o objetivo de ofertar educação básica aos sujeitos que vivem no campo.

Compreende-se que o povo residente na área rural tem o direito à educação e uma educação que seja no e do campo. Desse modo, o regime de alternância compõe o Projeto Político Pedagógico do curso de Licenciatura em Educação do Campo e é pensado como forma de organização do ensino escolar que articula as distintas experiências formativas apropriadas em diferentes tempos e espaços, tendo como finalidade a formação profissional.

Desse modo, essa Licenciatura, que tem como proposta “contribuir para a concretização de uma política de educação do campo como direito humano e como instrumento de desenvolvimento social”, objetiva formar educadores habilitados para atuarem na gestão de processos educativos nas escolas do campo e a desenvolver ações pedagógicas que visem à formação de sujeitos numa perspectiva emancipatória e crítica, capazes de produzir soluções para questões inerentes à sua realidade.

Aproxima as Escolas de Família Agrícola, em funcionamento no ES, e o curso de Licenciatura em Educação do Campo/UFES, além do regime de alternância, a perspectiva de superação da opressão e discriminação econômica, política e cultural a que tem sido submetido historicamente o povo do campo, compreendendo que a educação colabora para a emancipação dos sujeitos em busca de uma humanidade mais plena e feliz, possibilitando a sensibilização de valores humanos que permitam ao sujeito posicionar-se frente à realidade.

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