A lenda dos anjos

Dalvit Greiner

Tem um bom tempo entre este texto e a entrevista concedida por Michel Serres ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo. A entrevista foi ao ar em 1999 e lá, entre muitas outras novidades, Serres falou do seu livro “A Lenda dos Anjos”. Sempre quis ter esse livro tamanha a fascinação que tive pelo autor e pela descrição do livro. Ainda não o tenho, porém a fascinação continua.

E foi pensando no nosso Mauro Amado (para quem está nos lendo de longe e não o conheceu haverá de entender este texto) que minha memória trouxe Michel Serres e seu livro de volta. O livro é encontrado nas livrarias em prateleiras de esotéricos, espiritualistas e alguns poucos em angelologia. Mas é um livro sobre a Teoria da Comunicação.

Serres nos explica que o anjo é o elo entre o céu e a terra. Pensei em Exu como o anjo do Candomblé: aquele que promove a comunicação com o mundo espiritual. Para Serres, o arquétipo do anjo moderno é a mensagem. Por isso um livro sobre comunicação. Ricardo Rodrigues Teixeira, que publicou uma resenha sobre o livro, informa-nos que numa entrevista Serres afirma a relação dos anjos com o mundo do trabalho. Dessa maneira, na mitologia ocidental os anjos surgem conforme as necessidades das representações humanas do mundo vivido e construído. Por isso “a era dos “carregadores”, filha da revolução agrícola e representada nos mitos de Atlas e Hércules; a era dos “transformadores”, filha da revolução industrial e representada nos mitos de Vulcano e Prometeu; e, filha da revolução informacional (e de uma revolução “pedagógica”, segundo Serres, em grande parte por se realizar), a era dos “mensageiros”, anunciada pelas antiqüíssimas lendas dos anjos que povoam as grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo)”.

Na sua entrevista ao Roda Viva (aqui a transcrição para quem prefere ler), Serres nos fala do anjo como um ser invisível, oculto, que não se expõe, que não aparece – ou que aparece e desaparece numa rápida missão. E conclui: “E quanto melhor ele faz seu trabalho, menos ele aparece”. Mas, ao mesmo tempo em que ele não aparece – ou faz mal a sua tarefa –  a sua ausência é sentida, pois algo deixa de ser feito e quebra o elo entre os homens, não apenas entre o céu e a terra. Os anjos de hoje, na Teoria da Comunicação de Michel Serres, são as conexões necessárias para que as coisas humanas funcionem.

Era assim que eu sentia o Mauro!

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