A docência acuada e os rumos da educação

No Congresso nacional tramita um projeto que criminaliza o chamando proselitismo político dos professores em sala de aula; em Minas Gerais uma professora e uma diretora de escola pública são exoneradas porque colocaram em uma prova para alunos de 10 anos um poema que, segundo os pais e a imprensa, teria um cunho erótico; os alunos que optam pela licenciatura sofrem constrangimentos de seus colegas e professores nas universidades; de norte a sul do país há denúncias de violências contra os docentes das redes públicas e privadas de educação.

São tempos difíceis para os professores da escola básica brasileira. Não bastasse a corrosão de suas carreiras, salários e condições de trabalho, eles têm que, crescentemente, justificar suas ações e papéis sociais perante um sem número de sujeitos sociais: a burocracia desprofissionalizada a cada governo que fundar uma nova escola; às famílias, progressivamente mais sem tempo para a educação da prole e cada vez mais atentas às últimas novidades educacionais que leram na internet ou ouviram de algum palestrante profissional; aos meios de comunicação, cada vez mais ávidos pelas notícias fáceis e impactantes etc.

A prestação de contas dos docentes aos pais e comunidade em relação à educação das novas gerações não é novidade na história da escola. Pelo contrário, sempre houve uma maior ou menor tentativa de controle sobre as condutas e ações escolares e extra escolares dos docentes, inclusive, e sobretudo, porque em suas mãos foi depositado, simbolicamente, o futuro dos indivíduos e da sociedade.

Se, por um lado, o controle sempre existiu, mobilizando a adesão ou a resistência dos professores, por outro lado, havia o reconhecimento da especificidade da ação escolar na educação da novas gerações. Ou seja, o reconhecimento de que a escola moderna foi inventada para retirar a criança do interior da família e lançá-la, de forma protegida, no espaço social mais amplo.

Forma de proteção da criança contra as violências da família e do mundo social e, ao mesmo tempo, modo de preservação da sociedade contra a tirania do mundo privado e do egocentrismo infantil, a escola, sobretudo a pública, foi aclamada em verso e prosa como a pedra de toque do progresso social e da democracia moderna.

O que é importante perguntar é até que ponto os crescentes ataques à autonomia e, mesmo, à integridade física e psíquica dos professores (ou futuros professores) não está, também, articulada a uma profunda revisão do próprio lugar da escola no arranjo societário. Talvez não seja por acaso que também haja projetos no Congresso Nacional que autorizam a educação doméstica dos filhos e que, portanto, a matrícula e a frequência escolares não sejam mais obrigatórias.

Num mundo em que as famílias se bastam na formação dos filhos e que a escola pública e, portanto, os professores têm que se curvar aos ditames intelectuais, políticos, morais e religiosos dos pais, não há dúvida de que também as noções de público, de democracia e de educação têm que ser revistas. Onde esse questionamento nos levará é impossível prever. Mas, a considerar o teor de alguns dos argumentos utilizados para acuar os professores, é difícil pensar que estamos no rumo de uma sociedade mais democrática e mais igualitária e de indivíduos mais livres.  

Se nossa responsabilidade nos impele a proteger as crianças e a sociedade contras as violências e as tiranias, que rumos tomará nossa ação? Hoje, como em muito outros momentos da história humana, não somos autorizados a não tomar partido.