A arte silenciada em tempos de obscurantismo

Diamantina, 29 de setembro de 2017.

Querido Joaquim,

Como andam as coisas em Colômbia? Digo genericamente “coisas”, posto que me refira às infinidades de dimensões da vida cotidiana que atravessam tua estadia neste país: a pesquisa doutoral, as relações interpessoais, a política, a ética, a estética, os sabores, os amores… enfim, a vida em toda sua plenitude.

Espero que estejam deveras muybien (como dizem por aí). Escrevo-te para poder, por meio destas linhas, matar um pouco da saudade que não cessa com a distância que nos foi imposta pelas circunstâncias da vida: eu, trabalhando aqui em Diamantina; tu,em terras Colombianas, investigando contrastes entre a Educação Infantil belo-horizontina e bogotana. Ah, e antes que eu me esqueça: Rose e Maria Vitória mandam-te lembranças saudosas!

Como você deve estar acompanhando,a novela política continua horrenda em nosso país. Parece que o presidente e sua trupe não se cansam de pilhar as riquezas (econômicas, naturais e simbólicas) da nossa Terra Brasilis. O golpistanão se cansa de retirar direitos historicamente conquistados por grandes parcelas menos favorecidas da população brasileira e não para de gastar dinheiro público, desmedidamente, para continuar comprando votos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e, assim, manter-se desgovernando essa grande nau que há muito perdemos o orgulho de chamar de nossa nação.

Escrevo-te mesmo para agradecer as fotografias do Museu Botero que me enviaste. Em tempos de obscurantismo elas me trouxeram conforto, alento e, por vezes, senti-me afagado por tão carinhosa lembrança tua. Seria lugar comum dizer-te que adorei as obras, bem como a proposta do Museu? Depois, você poderia descrever-me melhor a experiência estética de visitar um museu repleto de obras de um artista latino-americano tão interessante e instigante.

Desculpe o tom melancólico que a palavra obscurantismo pode causar, mas é este o sentimento que impera sobre nós por aqui. Tudo parece obscuro, pois de modo deliberado, setores conservadores de nosso país insistem em restringir o acesso do povo ao conhecimento.

Aliás, já que nosso diálogo transcorre, para além da política nefasta, em meio a uma atmosfera repleta de museus, obras de artes e artistas plásticos consagrados, gostaria de compartilhar contigo algumas reflexões que, na atualidade, os espaços de cultura têm me provocado. Trata-se de um conjunto de ponderações oriundas tanto das últimas discussões em nível macro social quanto em nível micro aqui na cidade de Diamantina. Pois bem! Explicar-te-ei cada uma delas nas linhas que se seguem.

Em nível macro, incomodou-me (e muito) a polêmica que, como sempre, tomou proporções espetaculares (ou espetaculosas?) em torno da suspensão da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira” em Porto Alegre. Você ficou sabendo? Repercutiu por aí mais essa mazela de grupos conservadores de direita em nosso país? Faço votos que não.

A exposição reúne obras de mais de 80 artistas, incluindo os mundialmente conhecidos Alfredo Volpi e Cândido Portinari, Flávio de Carvalho, Lygia Clark, Alair Gomes e contemporâneos de peso como, por exemplo, Adriana Varejão, artista com peças expostas no Tate Modern, de Londres, no Guggenheim, em Nova York, e na Fundación La Caixa, em Barcelona, e estava em exibição no Santander Cultural de Porto Alegre. A mostra, cuja curadoria recebe a chancela de Gaudêncio Fidelis (que também foi curador da Bienal do MERCOSUL, em 2015), tem como mote a diversidade e as questões LGBT, inspirando-se, para tanto, em outras exposições estrangeiras como a Queer British Art (1861-1967), em Londres, na Inglaterra, e a Hide/Seek: DifferenceandDesire in American Portraiture, em Washington, nos Estados Unidos.

Ocorre que grupos ultraconservadores como o Movimento Brasil Livre (MBL) e outros, pegaram pedaços de imagens presentes na mostra de arte de modo totalmente fora de contexto e colocaram nas redes sociais propagando a ideia de que aquela exposição incitava e incentivava a pedofilia e a zoofilia. Rapidamente, viralizou na internet notas e mais notas de intolerância relativas à exposição, às populações LGBT e, por fim, ao próprio Santander Cultural, que, frente às ameaças de boicote de membros do MBL junto aos correntistas do banco, optou por encerrar precocementea exposição na capital gaúcha. Ao ler sobre o assunto, fiquei refletindo: o que é arte? Ela pode ser censurada por pessoas sem o mínimo de erudição e de leitura de mundo?Até onde vão os limites da expressão? Da crítica? Da intolerância? Será que artistas reconhecidos mundialmente precisammesmo ofender espectadores sensíveis –seja por mera diversão, seja para autopromoção como foi amplamente difundido? Ou será que, de fato, aquelas obras consideradas tão nocivas e ofensivas não possuem um sentido que provoca e traz à tonainstintos humanos mais selvagens? Será que tais obras não expressam, de fato, dimensões humanas ainda pouco discutidas? Será que nem mesmo a arte, que dentre diferentes acepções, é também considerada espaço de contestação política, social econtra cultural, como o próprio Fernando Boterorealiza em suas obras, sobreviverá à onda de intolerância e desrespeito que impera em nossa nação?

Veja, amigo Joaquim, que movimentos como o MBL primeiro promoveram uma verdadeira caça à política progressista em nosso país, apoiando incondicionalmente o golpe de estado impetrado contra Dilma Rousseff. Em seguida, músicos e artistas consagrados do teatro, por serem afeitos ao pensamento de esquerda – como Chico Buarque de Holanda e José de Abreu, por exemplo – são publicamente perseguidos por pessoas cuja mentalidade está fortemente atrelada à conjuntura sociopolítica do século XIX. Agora, parece-me que chegou a vez de os artistas plásticos serem alvo de agressividade extremada pelo povo nobre de nossa nação, que se autoproclama portador da ética e do espírito neoliberal. Qualquer semelhança com o estado de exceção vivido nos anos de chumbo da ditadura militar seria mera coincidência? Acredito que não.

A resistência aos despautérios de pseudomoralistas (que fazem um escarcéu por uma exposição de arte, mas insistem em não discutir a triste estatística de viverem um dos países do mundo em que mais se matam LGBTs) está acontecendo. Em meio a diferentes protestos contra o cancelamento da exposição na capital gaúcha, ocorridos não só em Porto Alegre, mas em todo o país, uma notícia nos refrigera e conforta: a exposição, em tom de resistência, está prevista para ser realizada no Rio de Janeiro, embora ainda não fosse confirmada a data. Há rumores que outras capitais – como Belo Horizonte e São Paulo – também receberão essa mostra de artes plásticas.

Desculpe o tom de desabafo; é que me encontro às voltas com a questão da intolerância e do desrespeito às diferenças que tem, progressivamente, se agravado e tomado proporções gigantescas em nosso país. Mas, reflita comigo: se espaços de cultura historicamente foram e, como temos visto, ainda são usados, em nível macro político, como forma de segregação, intolerância e desrespeito à diferença e à diversidade (seja ela sexual, de gênero, de classe, étnica ou religiosa) o museu também não serviria, igualmente, como espaço educativo capaz de ampliar a experiência social de adultos e crianças e, desse modo, se configurar como espaço amplificador da própria condição humana? Explicar-te-ei este argumento.

Um amigo aqui da Universidade, recentemente, realizou um curso de extensão com as crianças e as docentes de um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) de Diamantina. A atividade consistia em um tour por alguns pontos da cidade. O passeio começaria pelo famoso Passadiço da Rua da Glória, passando pelo Museu do Diamante e terminaria no Teatro Santa Izabel. Este amigo, em tom de perplexidade extrema (que acabou por contagiar minh’alma), me relatou que as docentes que com ele haviam levado as crianças naquele circuito cultural afirmaram não frequentar tais espaços sociais; elas afirmaram nunca ter adentrado naqueles espaços históricos e culturais da cidade.

Por isso, reflito: ao invés de discutirmos o que deve ou não circular nos espaços de produção e de consumo de obras de arte e de diferentes manifestações culturais, não seria melhor para todos, adultos e crianças, pensarmos o museu, a arte e as diversas manifestações populares como modo de ampliação da experiência docente e, igualmente, como forma de alargamento do conceito de educação e de território educativo? Isso não ampliaria a qualidade da Educação Básica? Como se dá a relação de professores, artes e espaço público na Colômbia? Em que medida uma exposição como a do Queermuseu pode servir como mote para uma efetiva reflexão coletiva sobre as diferenças em nossa sociedade?

Não te preocupes,contudo, querido amigo, em responder-me todas as questões. Como eu disse, são muito mais desabafos oriundos de indignações pessoais do que provocações – que, aliás, não abro mão de compartilhar contigo. São, em resumo, ponderações sobre temas intrincados, complexos, urgentes e, deveras, espinhosos que não deixam de incomodar parte sensível de nossa população que, como nós, ainda acredita nas artes, na política, nas pessoas, na convivência pacífica ente os povos e no respeito às diferenças.

Com o mesmo carinho de sempre e certo do acalanto futuro de tuas palavras, despeço-me.

Abraços fraternos.

Sandro Santos

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