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Universidade Na Praça: divulgação científica cara-a-cara

No 30 de Maio Pela Educação, professores do IGC/UFMG e da EBA/UFMG levaram suas pesquisas para o centro de Belo Horizonte para dialogar com a cidade.

 

O último 30 de maio foi um dia bastante ocupado. O 150° dia do ano – e, consequentemente, do governo de Jair Bolsonaro – foi marcado por manifestações pela educação e contra a reforma da previdência proposta pelo atual governo. Coincidentemente, 30 de maio é o dia do geólogo, um dia depois do dia do geógrafo.

A interseção dessas datas se materializou na praça Afonso Arinos, em frente à Faculdade de Direito e Ciências do Estado (FDCE) da UFMG, bem no Centro de Belo Horizonte. Às 9h da manhã faixas iam sendo estendidas, tendas montadas e cadeiras espalhadas pelo local. Estava para se abrir a Tenda da Terra, evento proposto pelo corpo docente do Instituto de Geociências (IGC) em parceria com professores da Escola de Belas Artes (EBA), ambas unidades da UFMG, e com apoio da APUBH.

As atividades da Tenda da Terra se estenderam por toda a manhã e boa parte da tarde, com professores do IGC e da EBA apresentando a si e a seus trabalhos para quem quisesse parar e ouvir um pouco sobre o que esses geólogos, geógrafos e artistas fazem dentro da Universidade. Os temas iam desde a arte no espaço urbano para a conformação de cidades sensíveis, da fala da professora Brígida Campbell (EBA) até a formação e evolução geológica e biológica da Terra, em que o professor Tiago Novo (IGC) trouxe alguns ex-alunos para dividir a fala com ele.

A praça se encheu de gente disposta a ouvir, confrontar, aprender, ensinar e questionar os pesquisadores. Os mais diversos públicos estavam ali: pesquisadores, estudantes, professores, artistas, autônomos, gente que estava passando e decidiu dar uma paradinha pra ver que movimentação toda era aquela e acabou ficando pra aproveitar.

A professora Mariana Lacerda (IGC) foi a primeira a se apresentar na Tenda, falando sobre a relação da formação em geociências da UFMG com a cidade de Diamantina, lar da Casa da Glória, que abriga o Centro de Geologia Eschwege, órgão complementar do IGC. A professora disse que as crises, como a que a educação enfrenta com o governo Bolsonaro, têm um potencial transformador e nos movimentam, como essa tem instigado mobilizações no país todo, entre elas, atividades como o Universidade Na Praça. Ela ainda falou da importância da divulgação científica e de como ela se emocionou ao vê-la acontecer de uma forma tão intensa ali.

Foto: Vanessa Macedo

 

“Teve momentos aqui que eu me arrepiei. As pessoas tendo contato com um conteúdo que pra gente é tão cotidiano na universidade! Então pra mim a importância [da divulgação científica] é essa, sabe? Sair dos muros da universidade” Mariana Lacerda (IGC)

 

 

 

Sair do espaço acadêmico parece ser uma das formas mais eficientes, mas também mais trabalhosas, de se divulgar o saber científico. E é por essa eficiência toda, esse potencial de mobilizar gente de todo tipo, que diversos pesquisadores buscam cada vez mais esse caminho. Foi isso que disse Carlos Henrique Falci (EBA) ao defender a importância do espaço público e das cidades para os pesquisadores.

Foto: Vanessa Macedo

“O espaço público é o encontro da diferença, a gente nunca sabe o que vai encontrar, mas a gente tem que vir! Pra mim, a universidade tem mesmo que ir pra rua o máximo possível, sempre que possível”
Carlos Falci (EBA)

 

Nesse movimento de ir pras ruas, os eventos não se fazem só da academia. Ali é possível tatear e descobrir onde estão as dúvidas, interesses e questionamentos do público não-acadêmico. Também é possível experimentar o confronto de ideias de uma forma diferente da que se dá na universidade, em encontros e congressos, o que pode ser inclusive uma oportunidade de rever o próprio trabalho.

Entre as pessoas que não estavam ali por uma relação próxima com a ciência, mas por se importar com a situação da educação no Brasil, encontramos Alexander César, profissional autônomo, que nos falou da importância da Tenda da Terra neste momento.

Foto: Vanessa Macedo

 

“Tô aqui pra dar apoio. Tanta coisa pra cortar, eles [o Governo Federal] vai cortar da universidade, tecnologia? Por quê? Não quer que ninguém saiba de nada, que ninguém aprenda nada? É isso que o governo quer, a gente tem que apoiar os universitários. […] Sem a ciência ninguém é nada, sem o conhecimento ninguém é nada. Tudo na vida move a partir da ciência, da tecnologia” Alexander César, autônomo.

Além do Alexander, tinha ali comediante, professor, crianças, pais, mães, até cachorro entrou no meio. Praça cheia de gente, de conversa e de vontade de saber e de proteger a educação brasileira. Um desses era o professor Fabrício Moreira que defendeu a importância de trazer a ciência pra rua pra garantir que as gerações futuras – como o filho que ele carregava – tenham acesso a ela. O professor ainda lembrou que a universidade se manifesta e atinge as pessoas de outras formas, em especial em seu caráter extensionista, mas disse que ainda existem desafios no que diz respeito à divulgação científica.

Foto: Vanessa Macedo

“Conseguir ter um canal que faça essa mediação entre professores e o público. Por exemplo, ter jornalistas ou profissionais de outras áreas que saibam pegar a linguagem técnica, científica que nós utilizamos no dia-a-dia e passar essa linguagem pra algo acessível ao público ‘leigo’, digamos assim, ao público que não é da área científica. E também sem fazer falsas promessas, traduzir o que a gente faz sem criar falsas expectativas – é saber que o conhecimento científico vai se traduzir em benefício mas que nem sempre é em curto prazo e nem sempre isso é fácil de ser feito”
Fabrício Moreira, ICB

A Tenda da Terra é uma prova definitiva de que não existe assunto impossível de comunicar quando se sabe comunicar. O quiz feito sobre a evolução da Terra trouxe crianças, idosos, gente de toda classe social a tentar descobrir quando surgiu a lua ou quando a humanidade deu as caras. A roda montada pra fala sobre memória das cidades voltada pra Tiradentes (MG) acabou motivando relatos e reflexões sobre as vivências das pessoas aqui em Belo Horizonte, inclusive de comunidades indígenas que batizam ruas mas que são esquecidas enquanto parte viva da cidade. A discussão de mineração sustentável trouxe um ouvindo pro centro da roda pra perguntar “tá, as empresas são ruins, mas e a nossa parte?”.

A sociedade passou o dia cutucando o ombro da academia pra questionar por que isso é assim, por que aquilo é assado, e, como Mariana Lacerda, todo mundo parece ter saído meio movido de lá. A experiência certamente foi engrandecedora pro Alexandre, pro senhor que perguntou sobre o surgimento do universo e pro menininho que queria saber mais sobre a vida na Terra, mas certamente foi ainda maior para cada um dos pesquisadores que estavam ali, experimentando a aula na rua em toda sua glória.

Maria G. Lara


Pra ver mais fotos e relatos de quem participou das atividades do #30M em Belo Horizonte, dá uma olhadinha no Instagram do PEPB

 

Imagem de destaque: Vanessa Macedo

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